Crise do coronavírus afeta até a Holanda, um dos melhores sistemas de saúde do mundo

Arquivo pessoal

Por Alana Ambrosio

As movimentadas ruas de Amsterdam, na Holanda, estão irreconhecíveis. Onde havia turistas circulando a pé pelos canais ou pedalando tradicionais bicicletas há agora uma paisagem que beira o bucólico - com tulipas, tamancos de madeira e moinhos ornando fachadas de lojas fechadas e avenidas muito mais pacatas do que o normal.

A exceção fica por conta dos famosos “coffeeshops”, onde é permitida a venda de maconha: a droga pode ser comprada no sistema de take away, quando só é possível retirar o produto. Por lá, filas e mais filas têm se formado nas portas.

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A Holanda tem o segundo melhor sistema de saúde da Europa, eleito por sete anos consecutivos o mais eficiente para seus cidadãos pelo Health Consumer Powerhouse. A organização funciona como um observatório do consumidor para serviços do tipo.

*Atualmente a Suíça lidera o ranking, apenas por causa de dois indicadores de saúde mental.

COMO FUNCIONA

Apesar do alto número de doentes por Covid-19, alguns pilares se mantêm mesmo em tempos de crise.

O sistema de saúde da Holanda é baseado em uma premissa: a contenção de problemas primários para evitar a ida a hospitais. É por isso que as instruções passadas freneticamente em redes institucionais do Governo – canais televisivos, internet, rádio – ratificam isso. Se uma pessoa tiver os sintomas da doença, febre acima dos 38 graus e dificuldades para respirar, deve chamar o médico de família em vez de se deslocar para uma unidade de saúde, como aconteceria no Brasil. Somente essa consulta avaliza a ida ao hospital.

Todo cidadão é obrigado a comprar um seguro de saúde administrado por uma seguradora. O básico custa entre 105 e 115 euros, inclui todos os serviços essenciais. E vai aumentando de valor conforme os pacotes oferecidos (como internação hospitalar, fisioterapeuta, dentista, obstetra e etc). De ano em ano os holandeses podem escolher qual faixa querem.

O país europeu de 17 milhões de habitantes tem 1500 leitos de UTI. A pandemia está testando os modelos de gestão do mundo todo. Na Holanda, além da preocupação com o número de unidades de terapia intensiva, há um temor relativo à quantidade de máscaras de oxigênio disponíveis. O Governo está atrás de mais respiradores para dar conta da demanda, importando dos Estados Unidos e tentando aumentar a produção local. Suprimentos como álcool e máscaras foram doados da Bélgica. Até o estoque doado nos bancos de sangue está sendo testado.

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NOVOS COSTUMES

O engenheiro Jan Van Vledder vive em Hilversum, cidade ao norte holandês, a 20 minutos de distância da turística capital Amsterdam.

Jan está na mesma clínica de família desde 1987. Seu médico fica bem perto de casa, a 500m, respeitando a determinação de que todos os consultórios estejam a uma distância de no máximo 15 minutos dos segurados.

“O sistema é muito focado em não sobrecarregar o que já existe, por isso com o coronavírus o plano ainda é fazer um rodízio de pacientes nos hospitais, priorizando o atendimento domiciliar”, explica.

Aos 68 anos, viu a rotina de uma nação mudar em questão de dias:

O corriqueiro caminho até o supermercado está diferente. Com tudo fechado - shoppings, cinema, bares...Ao chegar no Albert Heijn para comprar comida, vem o aviso: apenas duas pessoas podem entrar por vez. Os caixas estão envoltos por uma redoma de vidro na tentativa de evitar o contato dos caixas com os clientes. Jan se preocupa:

“Mesmo com a recomendação de isolamento social vi muita gente dentro de lojas, jovens com seus familiares idosos em parques”.

Ao voltar para casa na Vosmaerlaan street e ligar a TV, uma transmissão feita pelo congresso holandês está passando: os parlamentares instruem a população sobre a Covid-19. A situação (longe de ser controlada) fez com que o Ministro da Saúde, Bruno Bruins, se demitisse na semana passada.

“Teve até um pronunciamento do primeiro-ministro, Mark Rutte, coisa que não se via por aqui havia 40 anos.”, diz Jan surpreso.

Em Leiden, cidade a 45 kms de distância de Amsterdam, Isabel Van Vledder trabalha de casa. A astrônoma de 25 anos, filha mais nova de Jan, não pode mais ver com telescópio os planetas e constelações no Observatório da cidade, conhecido por seus telescópios históricos.

“É estranho como tudo está. Mas também é bonito ver quantas pessoas se oferecem para ajudar outras que estão precisando mais do que nunca. Fazendo refeições e deixando em casas de idosos, asilos, estudantes de medicina sem aulas cuidando dos filhos de quem trabalha em hospitais...”

Faz quase um mês que a jovem não vê a família, espalhada pelo país, nem marca nada com amigos. Nas poucas saídas de bicicleta dos últimos dias encontrou galinhas pelo caminho e mais gente do que esperava. (FOTO)

“Tudo parece surreal, porém o mais estranho pra mim são as pessoas que ainda não querem ouvir os médicos e políticos nessa crise que está afetando o mundo inteiro”.

PONTO CRÍTICO

A província de Noord-Brabant, ao sul da Holanda, é a mais afetada pelo vírus. A região faz fronteira com a Bélgica, cujo Governo fechou bares, restaurantes e proibiu festas antes do vizinho abaixo do nível do mar. Como consequência, nos fins de semana seguintes um aglomerado de jovens cruzou a divisa. O carnaval celebrado tradicionalmente por lá também contribuiu para o alto número de casos, acreditam as autoridades.

É nessa área, na cidade de Breda, que mora Fernando Van Vledder, irmão mais velho de Isabel. A cidade faz fronteira com a Antuérpia, na Bélgica. O jornalista de 28 anos trabalha na emissora de TV Talpa. Há alguns dias, começou a ter sintomas de gripe e por precaução foi liberado da redação.

“Foi uma coisa bem leve, mas tive que ir para casa fazer home office por uma semana até melhorar”. No epicentro do problema na Holanda, Fernando se diz preocupado com os hospitais:

“Estão transferindo os doentes do sul para o norte do país, mas o medo é de que os casos aumentem tanto que os leitos de cuidado intensivo sejam insuficientes”.

Walter Cintra, coordenador do Curso de Especialização em Administração Hospitalar e de Serviços e Sistemas de Saúde da FGV (Fundação Getúlio Vargas), avalia que o sistema de saúde holandês é bem preparado, mas pode aprender em tempos de crise:

“Dá para flexibilizar e deslocar os serviços de saúde, especialmente em um país tão pequeno, que dá pra cruzar de carro em três horas. Suspender procedimentos eletivos, transformar leitos em UTIs. São coisas que o Brasil também pode fazer, mas com dificuldade pelo tamanho e desigualdade social. Qualquer engrenagem é sujeita a brechas. Por exemplo, a saúde primária na Itália, hoje no centro do problema, é ótima. Mas não há sistema no mundo que aguente uma pandemia se todos correrem para unidades de atendimento. ”

A Holanda tem mais da metade da população com idade entre 40 e 80 anos. 75% das mortes por coronavírus foram em casa, não em hospitais da rede de saúde.

“Pesquisas locais mostram que os holandeses confiam que as medidas de combate ao coronavírus são suficientes. Agora é ficar em casa e esperar passar”, conclui Jan Van Vledder antes de desligar o telefone.