Crise em torno de Ramagem faz integrantes da PF sentirem instituição atacada

Juliana Dal Piva
Alexandre Ramagem foi nomeado novo superintendente-geral da PF

RIO — Desde que o ex-ministro da Justiça Sergio Moro deixou o cargo na semana passada acusando o presidente Jair Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal ao promover a troca do então diretor-geral Maurício Valeixo pelo diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, integrantes da força sentem a polêmica criada com a situação como um ataque à própria PF. Nesta quarta-feira, o ministro Alexandre de Moraes determinou a suspensão da nomeação de Ramagem.

Delegados contaram ao GLOBO que sentem a instituição abalada pela falta de definição sobre a direção e que, apesar das acusações de Moro, os primeiros sinais de Ramagem tinham sido de uma retomada à institucionalidade. Na primeira reunião por videoconferência com superintendentes e diretores da PF na última terça-feira, ele fez questão de, ao lado de Valeixo, dizer que iria integrar a gestão. Segundo ele, o ex-diretor geral tinha convidado para que ele assumisse como superintendente regional da Polícia Federal no Ceará. A nomeação chegou a sair no Diário Oficial de 25 de fevereiro de 2019, mas com o convite para ocupar uma vaga de assessor especial do general Santos Cruz na Secretaria de Governo da Presidência da República, ele recusou. Em maio do ano passado, Ramagem se tornou diretor da Abin.

— Ele contou isso meio como quem diz ‘eu sou um de vocês’ para demonstrar que fazia parte da administração — contou um delegado presente à reunião.

Nessa mesma reunião, ele manifestou que não tinha interesse em fazer troca na superintendência de Pernambuco, hoje sob o comando de Carla Patrícia Cintra Barros da Cunha. Mas Ramagem não mencionou nada em relação ao Rio. Nos bastidores, delegados contaram que Ramagem e Carlos Henrique Oliveira de Sousa, há cinco meses no cargo, possuem boa relação e já trabalharam juntos em operações da PF. Os relatos da reunião são de que Ramagem pregou pela institucionalidade da corporação.

Embora muitos tenham ficado apreensivos com a saída de Moro, a decisão do STF que impediu a posse de Ramagem também dividiu policiais. Para alguns, a situação o deixou exposto como um “pária” e que isso não seria justo com o trabalho que ele fez na instituição. Por outro lado, outros viram com apreensão as declarações do presidente Jair Bolsonaro de que quer alguém a quem possa requisitar relatórios de inteligência.

Policiais do Rio e de Pernambuco contam que há meses as superintendências são alvo de pressões por comentários que chegam no Palácio do Planalto com insinuações sobre a qualidade do trabalho desenvolvido nos estados.

— A desconfiança é geral. Os primeiros movimentos foram bons. Só que depois da decisão do ministro Alexandre (de Moraes) as condições para ele dirigir a PF são muito difíceis. Eles (família Bolsonaro) têm uma rede de apoiadores muito grande e com frequência ficamos sabendo que essas pessoas levavam informações equivocadas sobre o funcionamento dos trabalhos. Aí chegavam os recados de ‘estão te queimando em Brasília’ — contou um delegado.

Na visão de integrantes da PF, a crise atrapalha a corporação, mas ela tende a resistir porque não gosta da interferência. Até por prerrogativa legal, delegados comandam inquéritos sigilosos sozinhos e, às vezes, sem dar acesso aos superintendentes.

— É uma arrogância de quem ignora a cultura da instituição, pensa-se ‘ah eu posso trocar um superintendente’. Pode trocar, mas a cultura organizacional, a tradição é para não se intrometer, de que não cabe interferência. No passado, bancadas tinham influência na escolha, mas com o tempo isso foi acabando. Isso é parte de uma maturidade institucional e aí vem o presidente que fazia um discurso contra corrupção e quebra esse paradigma — contou um superintendente presente à reunião com Ramagem.

Mas na instituição também há divisões entre como os delegados e policiais estão vendo os últimos dias da crise. Apesar da posição da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) de defender a escolha de Ramagem, policiais de diferentes estados viram a nota pública com contrariedade.

— Muita gente está se sentindo traída por tudo que aconteceu desde o ano passado. Não sabe como seria a condução de Ramagem e não vê o nome com confiança. — disse um policial.