Crise ianomami: Uma das comunidades mais ocupadas por garimpeiros fica próxima a pelotão do Exército

Uma das rotas mais acessadas por garimpeiros para invadir a Terra Indígena Yanomami (TIY) fica próxima ao 4° Pelotão Especial de Fronteira do Exército (PEF), de Surucucu, uma das comunidades ianomami onde houve maior número de pessoas desnutridas e crianças mortas. Procuradores da República, do Ministério Público Federal de Roraima, explicaram que o caminho era conhecido e acusaram o Ministério da Defesa e as Forças Armadas de omissão no combate aos invasores.

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A mesma informação foi confirmada por um funcionário do IBAMA, ouvido pelo GLOBO. Segundo ele, se os soldados do PEF agissem, seriam capazes de conter os garimpeiros. Nesta terça, em entrevista coletiva, os procuradores Alisson Marugal e Matheus Bueno, do MPF de Roraima, disseram que houve reuniões para solicitar o uso de força bélica, mas que a ação de combate não ocorreu por falta de uma ordem direta do comando das Forças Armadas.

—Tivemos um diálogo muito próximo com o Exército, mas a equipe local precisa das ordens que vêm de Brasília. E os ianomamis nunca foram favorecidos nesses combates pelo Exército. Houve omissão das Forças Armadas, mas isso vem do Ministério da Defesa de não agir -- explicou o procurador Alisson Marugal. — Quando tivemos notícia de conflito com garimpeiros, pela paralisação das operações, chamei reunião no próprio Exército e a orientação é que eles não fariam nada sem a determinação do Ministério da Defesa.

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Nos últimos anos, o MPF de Roraima ajuizou diversos pedidos para que o governo federal agisse sobre a crise na TIY, como pedido de plano emergencial para retirada de invasores e restruturação do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami. No segundo semestre de 2021, após decisões liminares, a Polícia Federal, com apoio de outros órgãos, realizaou operações para apreender maquinários e prender garimpeiros ilegais. Mas as operações duravam apenas cerca de 15 dias, o que inviabilizava resultados mais eficientes, explicaram os procuradores. Nesse sentido, o corpo técnico do Ibama desenvolveu um plano operacional para que as forças de segurança ficassem seis meses na TIY, com maiores possibilidades de erradicar o garimpo, mas ele não foi aplicado.

Em 2022, os procuradores disseram que o governo federal já se mostrava satisfeito com os resultados, e as operações foram encerradas. Mas iniciou-se então, como definiram, o "ano do caos".

— Em 2022 as operações pararam, e então acontece a invasão garimpeira generalizada, como na região Surucucu. Foi o momento de maior tensão, de observar aquela imensa invasão garimpeira, muitas vezes ao lado do pelotão de fronteira do exército brasileiro, a poucos quilômetros de distância — disse Marugal.

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Garimpeiros reaproveitam rotas antigas de exploração

Além do pelotão de Surucucu, o Exército possui outros dois pelotões dentro do território ianomami: Auaris e Maturacá. Em Surucucu, a presença garimpeira vem se impondo de maneira mais gritante, e isso é um dos principais fatores, apontados por especialistas, que explica o cenário observado em Surucucu, de insegurança alimentar e desestruturação social entre os grupos indígenas.

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O fato de Surucucu ser uma região tão visada pelos garimpeiros, mesmo sendo próximo a um Pelotão do Exército, se explica porque lá, que é uma região serrana, há muitas rochas que já foram exploradas na primeira corrida pelo ouro, na década de 80. Ou seja, já existe conhecimento geológico prévio sobre as condições propícias para a retirada do ouro no local.

— Ali é tudo serra, de rochas muito antigas, com ocorrência de ouro e cassiterita. O próprio governo militar anunciou isso na década de 70, o que resultou em grande invasão. Então agora o pessoal reocupa também áreas garimpadas na primeira corrida do ouro — diz Enrico Senra, assessor do Instituto Socioambiental (ISA).

Procurados, o Ministério da Defesa e o Exército não se manifestaram.