Crise leva mães a deixarem bebês com menos de dois meses nas creches de SP

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 05.05.2022 - Crianças na CEI Bela Vista, em São Paulo. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 05.05.2022 - Crianças na CEI Bela Vista, em São Paulo. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Oito semanas depois de ter tido a quinta filha, Mikaelle Araújo, 34, deixou a menina em uma creche da rede municipal de São Paulo para poder trabalhar. Ela é babá em casas na região do Morumbi.

Principal responsável pelo sustento dos cinco filhos, ela não pôde esperar a caçula, Eloá, chegar aos quatro meses para voltar ao trabalho. Assim como Mikaelle, milhares de mães da capital paulista têm sido forçadas a se separar cada vez mais cedo de seus bebês devido à crise econômica no país.

O aumento do mercado de trabalho informal afasta essas mães do direito ao período legal de licença-maternidade no país, de 120 dias. Sem renda, e na maioria das vezes sem o apoio financeiro dos pais das crianças, elas têm a creche como única opção para continuar sustentando a família.

Na última semana de abril, havia 3.741 bebês com menos de quatro meses matriculados nas creches da rede municipal da cidade. Desses, 63 têm menos de 30 dias de vida e 539 menos de 60 dias, etapa que os especialistas descrevem como "gestação externa", ainda na transição para o mundo fora do corpo da mãe.

O número de bebês de até dois meses nas creches neste ano é quase o dobro do registrado no mesmo mês do ano passado, quando havia 325 matrículas dessa faixa etária. É ainda 22 vezes maior que o registrado em abril de 2019, antes da pandemia, quando havia 26 bebês dessa idade.

"De todos os meus filhos, ela é a que foi mais novinha para a creche. Fiquei com o coração na mão de deixá-la, parecia que estava deixando um pedacinho de mim ali. Mas não tem jeito, a situação está muito difícil com cinco crianças em casa", conta a mãe. Ela recebe a pensão apenas do pai dos filhos mais velhos, mas não a do pai de Eloá.

"Está tudo cada vez mais caro, de mercado já cortei quase tudo, carne, fruta, legumes até o leite dos maiores. Meu leite do peito já nem estava dando conta para a Eloá. Na creche, é até bom porque lá eles dão a fórmula", afirma. Ela ainda tenta continuar a amamentação à noite, quando está com a filha em casa.

As matrículas de bebês com menos de quatro meses já vinham aumentando na rede municipal antes mesmo da pandemia, como o jornal Folha de S.Paulo mostrou. Mas o crescimento se intensificou neste ano. A Secretaria Municipal da Educação costumava registrar grande procura por essas vagas apenas no início do ano letivo. Agora em 2022, os dados mostram que o número de matrículas nesta faixa etária permanece alto ainda em abril, o que indica que a demanda por vagas para essa faixa etária tem sido contínua.

O número de bebês com menos de quatro meses matriculados na rede em janeiro de 2020 e janeiro de 2022, por exemplo, é semelhante —3.238 há dois anos, contra 3.528 no início deste ano. Mas a comparação dos dados de abril mostra uma disparada, com 435 matrículas em 2020, contra 3.741 em 2022.

Com apenas 19 dias de idade, Helena é uma das mais novas matriculadas na rede. Ela passou a frequentar o CEI Carolina Maria de Jesus, no Parque Novo Mundo, zona norte, no último dia 2, porque sua mãe, Pamela Alves de Sousa, 23, precisou voltar a trabalhar como diarista.

"Eu trabalho sem carteira, então sabia que não teria direito à licença-maternidade. Trabalhei até os oito meses da gravidez e depois não consegui mais. Agora preciso voltar porque a situação em casa está apertada", diz.

Além da bebê, Pamela mora com o marido, que é lavador de carros, e o filho mais velho de cinco anos. "Está difícil só com o que o meu marido ganha, porque metade vai para o aluguel. Foi difícil pagar mercado nesses últimos dois meses que fiquei sem trabalhar", conta.

"É difícil ter que deixar uma bebê tão pequena na creche, mas ela vai se adaptar e vai ser melhor para nós. É para poder dar uma condição melhor para ela também."

Para o secretário de Educação do município, Fernando Padula, o aumento de bebês pequenos matriculados nas creches é um reflexo da crise financeira do país. "É a realidade que enfrentamos, 53% dos alunos da educação infantil do município estão no CadÚnico, ou seja, vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza."

Segundo ele, as vagas para bebês em qualquer momento do ano só são possíveis porque a Prefeitura de São Paulo conseguiu zerar a fila de espera por vaga em creche.

No Cei (Centro de Educação Infantil) Bela Vista, na região central, Brenno, de três meses, é o mais novo de uma sala com outros 21 bebês de até um ano. "As professoras chamam ele de pacotinho, porque é o menor da turma", conta a mãe Tatiana Conceição, 34.

Enquanto alguns bebês engatinham e outros ensaiam os primeiros passos, Brenno se reveza no colo das três professoras da sala ou fica deitado.

Antes de entrar para a creche, Brenno só recebia leite materno, mas agora está só com uma fórmula láctea. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda a amamentação exclusiva até os seis meses de idade.

"Eu até tentei continuar amamentando em casa, mas meu peito doía muito durante o dia quando estava longe dele. O leite ia acumulando, vazava e até empedrou. Como eu ia conseguir trabalhar desse jeito?", questiona Tatiana.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, todas as creches da cidade são orientadas a incentivar o aleitamento materno e devem ter um ambiente preparado para que as mães possam amamentar os bebês.

A arquiteta Mônica Alves, 28, pôs a filha Clarice de três meses no Cei Benedito Bueno, na região do Jardim Paulistano, na zona norte, para poder voltar ao trabalho. Como está em home office, ela consegue ir à unidade no meio da manhã para amamentar a menina.

"Ela não aceitou a mamadeira de jeito nenhum. As professoras me ligam no meio da manhã e eu vou até lá para amamentá-la. Tem sido melhor assim, porque consigo trabalhar e sei que ela está sendo bem cuidada", diz.

Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, organização que atua por melhores políticas para a primeira infância, diz que é importante a garantia de vaga em creche para crianças tão pequenas diante do contexto em que as famílias vivem.

"Garantir vaga para uma criança de um ou dois meses com uma mãe nessa situação de vulnerabilidade é garantir a sobrevivência. Nós, como sociedade, precisamos entender qual é o melhor lugar para esse bebê que vive esse contexto, mas não basta só ter a vaga é preciso qualidade."

Para ela, parte do trabalho precisa ser dar apoio e condições para que as mães continuem com o aleitamento materno mesmo depois de as crianças estarem na creche. ​

"A amamentação é importante para o fortalecimento do sistema imunológico da criança. O leite materno de cada mãe tem as propriedades necessárias e específicas para cada criança. E é o momento em que a criança forma vínculos, isso é importante para o seu desenvolvimento cognitivo e socioemocional", afirma.

Para a economista Cecilia Machado, professora da FGV e colunista da Folha de S.Paulo, a situação mostra a dualidade do aumento do mercado informal no país. Se por um lado, permite a inserção das mães no trabalho, por outro, não as garante direitos trabalhistas básicos, como a licença-maternidade.

"Ao menos São Paulo conseguiu estruturar uma política pública muito importante que é oferecer vaga em creche para que essas mães possam voltar a trabalhar, o que infelizmente não acontece na maioria dos municípios. Ter renda também é dar condições para o desenvolvimento da criança", diz.

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