Crise na Americanas: Santander vai à Justiça pedir acesso a e-mails e WhatsApp de executivos

O Santander entrou com recurso na Justiça pedindo que diretores, membros do Conselho de Administração, Fiscal e do Comitê de Auditoria da Americanas, que passaram pela companhia nos últimos dez anos, sejam obrigados a depor sobre a descoberta das "inconsistências contábeis" de R$ 20 bilhões nos balanços.

As "inconsistências" estão na origem da crise que levou a Americanas a entrar em recuperação judicial na última quinta-feira. O banco pede ainda que a Americanas apresente diversos documentos e mensagens de WhatsApp, Telegram e e-mails trocados ao longo da última década.

Na ação, ao qual O GLOBO teve acesso, o banco pede a produção antecipada de provas. O Santander argumenta que se os executivos da Americanas só vierem a depor quando o processo entrar na chamada "fase instrutória de futura demanda indenizatória" poderiam se esquecer de detalhes que levaram ao rombo. Assim, o banco diz que tem direito à produção de provas neste momento.

Segundo a ação, o banco afirma que não vai causar surpresa se o processo indicar a participação ativa por parte de executivos na criação e no acobertamento das “inconsistências". O banco manifesta no texto preocupação com a possibilidade de a morosidade no processo por meio de mecanismos jurídicos resultar na ocultação de provas. A descoberta do rombo foi revelada por Sergio Rial, que havia assumido o comando da empresa apenas nove dias antes. Ele renunciou ao cargo. De acordo com a ação, o próprio Rial teria que depor.

O banco afirma na Justiça ainda que muitos documentos na Americanas podem ser destruídos ou apagados, já que não são públicos, dificultando a investigação. No recurso, o Santander diz que, quanto mais tempo se passar, menores serão as chances de obter reparação integral pelos prejuízos.

Por isso, o Santander pede à Justiça a apresentação de documentos dos últimos dez anos em relação às operações do chamado risco sacado, origem das "inconsistências contábeis" de R$ 20 bilhões . Quer ainda todos os documentos, memorandos internos, relatórios, minutas de documento e relatórios apresentados aos acionistas. No último domingo, os acionistas de referência da empresa divulgaram nota afirmando que não sabiam da manobra contábil, que esperam ser possível chegar a um entendimento com os credores e se comprometendo a trabalhar pela recuperação da empresa.

Pedido de mudança para São Paulo

Nessa lista de documentos, o banco quer ainda e-mails, cartas, mensagens de WhatsApp e Telegram, que os executivos tenham trocado nos últimos dez anos entre eles e entre os auditores relacionados às "inconsistências contábeis". O Santander pede ainda a documentação sobre distribuição de lucros e dividendos, participação nos lucros, bônus e a venda de ações de emissão da Americanas por pessoas da empresa.

Para agilizar a criação de provas, o Santander pede que sejam copiadas a caixa de e-mail de diretores da empresa, o que inclui funcionários da área de contabilidade e de finanças da Americanas, além de membros do Conselho de Administração, Fiscal e do Comitê de Auditoria da Americana.

Em outro recurso, Santander pede que o processo de recuperação judicial da empresa seja suspenso. A notícia foi antecipada pelo colunista do GLOBO Lauro Jardim em seu blog na manhã desta terça-feira. No recurso, o banco argumenta que o processo seja enviado para São Paulo. O banco diz que a maior parte das dívidas foi celebrada ou tem foro em São Paulo. Além disso, destacou que em um dos contratos de empréstimo a Americanas informou endereço em São Paulo. O Banco Safra também pediu para suspender a recuperação da varejista, mas a Justiça não acatou, segundo fontes.