Crise na Argentina volta a atingir gabinete de Fernández e secretário renuncia

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O clima de forte tensão interna na coalizão de Alberto Fernández na Argentina, crescente nas últimas semanas, levou o secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência, Gustavo Béliz, a anunciar sua renúncia na tarde desta quinta-feira (28).

Ele era tido como um dos membros da cúpula mais próximos do presidente, reforçando a perda de espaço da ala vinculada a ele. Esse movimento se intensificou mais e mais desde que a vice, Cristina Kirchner, começou a pedir mudanças mais radicais no gabinete ministerial com o agravamento da crise econômica.

O país enfrenta um momento de descontrole de preços, com alta inflação (64% ao ano), e encara a necessidade de ajustes como contrapartida da renegociação da dívida com o FMI. Cristina foi contra o acordo e considera que o momento não é de realizar aumentos de tarifas, mas sim de incrementar a emissão monetária, para que a população mais pobre enfrente as sequelas do impacto da pandemia no país. Mais moderado, Fernández defende a responsabilidade fiscal.

A atual crise teve início quando o então ministro da Economia, Martín Guzmán, alinhado à visão do preisdente, renunciou no começo do mês.

Na noite desta quarta (27), começaram a circular rumores de que Sergio Massa teria deixado vazar para a imprensa a notícia de que ele entraria no governo, de alguma forma. Com a repercussão, ele foi ao Twitter negar essa possibilidade.

O peronista, hoje líder do governo na Câmara, é da Frente Renovadora, ou seja, não pertence à ala kirchnerista, mas reconquistou a confiança de Cristina depois de anos de afastamento --ele chegou a ser chefe de gabinete quando a hoje vice esteve na Presidência, mas concorreu contra ela em 2015.

A ideia inicial, segundo os rumores, era que ele assumisse a pasta da Economia, que há apenas quatro semanas tem como titular Silvina Batakis, ex-secretária na província de Buenos Aires. Em meio às especulações de que ela teria seu cargo diminuído para a formação de um superministério, a Casa Rosada anunciou que nenhuma decisão seria tomada antes que Batakis voltasse dos EUA.

A ministra viajou para reuniões com a chefe do FMI, Kristalina Georgieva, a quem afirmou que a reestruturação da dívida do país com a entidade, de US$ 44 bilhões, seguirá como foi negociada com Guzmán. Ela chegou a Buenos Aires na manhã desta quinta.

Béliz, segundo a imprensa local, teria se sentido demasiado incomodado com a briga interna dos peronistas e com uma afirmação do presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Maurcio Claver-Carone, de que a Argentina não tem condições de aprovar novos créditos no exterior.

Segundo o jornal La Nación, Béliz também se queixou da maior interferência de Cristina nos rumos do governo --algo que já havia acontecido logo depois da derrota nas primárias das legislativas, no ano passado. A vice então ordenou que Fernández trocasse ministros, colocando no gabinete nomes do kirchnerismo ou representantes de governadores, grupo que costuma ser mais fiel a ela.

O caso mais sintomático do início da perda de poder de Fernández foi em setembro passado, com a saída de seu chefe de gabinete, Santiago Cafiero, para a nomeação do ex-governador de Tucumán Juan Manzur. O presidente, de toda forma, conseguiu manter o auxiliar próximo, no posto de chanceler.

No final da noite desta quarta, Fernández e seus principais assessores se reuniram na Casa Rosada, e anúncios de mais mudanças são esperados. Depois de um encontro de quatro horas com Cristina no fim de semana, o mandatário havia mantido a ideia de mudar apenas a pasta da Economia, enquanto a vice apoiava uma reformulação total da equipe.

Os dois se mostram preocupados com uma manifestação da esquerda marcada para o sábado, quando ocorre o encerramento de um encontro entre ruralistas na tradicional Sociedade Rural.

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