Crise na saúde do Rio: Hospital municipal Pedro II já ameaça fechar as portas

Lucas Altino e Renan Rodrigues
No Pedro II: há cinco dias esperando por cirurgia após sofrer acidente, Carlos Eduardo foi em busca de outra unidade

A grave crise que levou funcionários a fecharem as portas do Hospital municipal Albert Schweitzer, em Realengo, na última sexta-feira se estende a outras unidades de saúde do município. O EXTRA percorreu no fim de semana parte da rede, encontrando um cenário de caos. Nas UPAs de Sepetiba, Paciência e Santa Cruz, administradas pela mesma Organização Social do Pedro II (SPDM), o fornecimento de alimentação foi suspensa, e funcionários e pacientes dependem da solidariedade de vizinhos. Em Santa Cruz, por causa de uma greve, o Hospital municipal Pedro II opera atualmente somente com metade das equipes, como contabiliza o Sindicato dos médicos do Rio (Sinmed-RJ).

Nesta segunda-feira, funcionários do Hospital Pedro II, liderados por técnicos de enfermagem, que estão há dois meses sem salários, farão uma passeata na porta da unidade e ameaçam cruzar definitivamente os braços. Após o protesto, uma assembleia dos profissionais de saúde definirá os rumos da mobilização. De acordo com o Sinmed-Rj, 17 hospitais e UPAs da cidade estão em greve, sem contar clínicas de família e todos os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), com exceção das unidades federais e do Pinel. Essas unidades funcionam hoje com equipes reduzidas.

Na recepção do Pedro II, houve muito bate-boca no final de semana. Pessoas que procuravam atendimento eram orientadas a buscar ajuda na UPA do Cesarão, que é da rede estadual. Funcionários contaram ontem que o eixo verde (sala de triagem) estava fechado e que na clínica médica havia 47 pacientes para apenas um técnico de enfermagem e um enfermeiro. Na UTI, eram 31 pacientes e seis técnicos, enquanto o CTI Pediátrico funcionava sem enfermeiros ou técnicos de enfermagem.

— É um absurdo as crianças ficarem sem assistência por causa desse prefeito e dessa OS que são má administradores — afirmou um funcionário, que pediu para não ser identificado. — Algumas pessoas da CER (Coordenação de Emergência Regional) receberam um dos dois salários atrasados (de outubro), mas, nós do hospital, não. Fizeram só o depósito da passagem, de R$ 81, para não termos a desculpa de não irmos trabalhar, porém muitos já estão devendo no banco.

Os hospitais de grande porte no Rio dividem espaço com as coordenações de Emergência Regional (CER). No Pedro II, a informação é de que o quadro da CER, que é minoria, recebeu um dos dois salários atrasados na sexta-feira. No hospital, há relatos também de falta de medicamentos, como os antibióticos clindamicina e cefazolina, usados no tratamento de infecções.

Parte dos funcionários tem faltado os plantões sob a justificativa de não terem mais condições financeiras para se deslocarem. Com as equipes desfalcadas, cirurgias eletivas estão suspensas, como afirmam funcionários e acompanhantes.

Desesperada, Márcia Dantas, de 45 anos, deixou o local ainda mais angustiada sem ajuda para o problema de saúde da esposa, Marcele Lima. Elas estiveram na unidade de saúde no início da tarde de sábado, e deixaram o hospital — referência para os moradores de parte da Zona Oeste — após aguardar por mais de uma hora o atendimento que não ocorreu. Marcele, de 30 anos, desmaiou três vezes durante a madrugada e chegou a vomitar sangue. Apesar disso, plantonistas do Pedro II, que informaram só atender casos graves, orientaram que a paciente buscasse outra unidade de saúde.

— A situação do hospital está muito complicada. Tem uma senhora que teve derrame e está sentada em uma cadeira aguardando atendimento. Só dizem que não tem médico e que precisamos buscar outro hospital, mas não tenho nem dinheiro de passagem. Não sei a quem recorrer — disse, desesperada, Márcia, enquanto amparada a esposa na saída do hospital após não conseguir atendimento.

O nervosismo também tomou conta da diarista Zilanda Cristina, de 34 anos, que acompanhava a enteada Ianca da Conceição, de 25. Grávida com 41 semanas, ela estava com dores e buscava o atendimento pelo segundo dia seguido. Na sexta-feira, a paciente esteve no hospital e chegou a ser informada que seria internada para fazer uma cesariana. Porém, a cirurgia foi suspensa em cima da hora com a alegação de que não havia médicos, e a jovem precisou voltar para casa.

— Ela está com dores. E se acontecer um problema com essa criança? Não temos dinheiro! A quem a gente recorre? Estivemos aqui sexta e disseram que fariam o parto, mas não fizeram. Ela está nervosa porque já está na hora (de ter o filho). Dizem que precisam internar a pessoa e não está acontecendo. Está com dor e dizem que não tem médico. Ela está quase em trabalho de parto. Eles querem que a gente vá embora — diz Zilanda Cristina.

Lucimeire Oliveira passou seus últimos dois meses no Pedro II, com o filho, João Pedro, de quatro anos. Ele chegou à unidade com queimaduras de segundo grau, após um acidente com óleo, e, segundo, ela, no período a situação do filho só piorou. Ele agora aguarda uma cirurgia de enxerto, que ainda não tem data marcada.

— Na pediatria ainda há outras duas crianças. Ontem à noite ficou só uma enfermeira. Normalmente são de três a quatro, agora só tem duas. Já teve falta de medicamento. Nem papel higiênico tem.

Cirurgias suspensas

Uma das áreas afetadas foi a neurocirurgia. Leandro Lobo, de 37 anos, acompanha o pai que está internado no hospital há três meses. Há duas semanas, o pai foi operado na coluna. Ele soube por funcionários e outros pacientes, porém, que as cirurgias estão suspensas devido a falta de insumos:

— Faltam muitos funcionários, então os que estão trabalhando estão sobrecarregados. O hospital está oferecendo comida aos pacientes, mas às vezes atrasa (o horário da refeição) um pouco porque o refeitório está sobrecarregado, também pela falta de profissionais. Estamos indo para o quatro mês dentro do hospital. Meu pai esperou três meses a cirurgia porque alegaram falta de material, como roupa de cama, e problema no ar-condicionado do centro cirúrgico. Ele foi operado há duas semanas, mas disseram que os procedimentos foram suspensos de novo por falta de material.

O EXTRA conversou com duas enfermeiras que confirmaram que somente cirurgias de emergência estão sendo realizadas na unidade. Todas as eletivas estão suspensas até que a unidade retome as condições necessárias. No início da tarde de sábado, quando a equipe de reportagem esteve no local pela primeira vez, 74 pacientes estavam na sala amarela da emergência, projetada, segundo funcionários, para receber até 19 pessoas. A situação era menor na sala vermelha, cujo espaço contava com 18 pacientes, embora fosse projetado para 11. Parte da sala vermelha, no entanto, estava interditada para uma obra no ar-condicionado.

— Todas as cirurgias eletivas estão suspensas, mas as graves estão sendo realizadas. Estamos atendendo por classificação de risco, priorizando os casos mais graves — explicou uma enfermeira.

Com a hierarquização dos casos, somente os casos gravíssimos estão recebem o atendimento adequado. Cátia Lima, de 40 anos, foi uma das pacientes que buscou a unidade em vão. Moradora de Santa Cruz, ela procurou o hospital porque há uma semana está com tonteira. O Pedro II era a segunda parada, já que também não conseguiu atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) João XXIII, na sexta-feira. Essa unidade, que fica no mesmo bairro, também é administrada pela SPDM.

— Disseram que só estão atendendo agora pacientes da sala vermelha, só casos muito grave, como baleado ou acidente. Estou com muito mal estar, vai e volta — lamentou Lima.

Jéssica Cristina, de 29 anos, foi mais uma pessoa a ser orientada a voltar para casa no sábado. O filho de 10 meses caiu do sofá e bateu a cabeça no chão. A criança, que estava com um inchaço na testa, deixou a unidade sem realizar exames:

— Disseram que não tem médico para fazer a tomografia. Mandaram ir para casa e só voltar se ele vomitar. E se meu filho tiver um treco? Isso é negligência! — protestou

Até mesmo suturas estavam demorando na unidade.

— Atendimento está muito precário. Hospital não tem pediatra. Até médico para fazer sutura está faltando. Meu irmão sofreu lesão no dedo, um corte profundo. Funcionários me passaram que não tem médico para atendê-lo. Não estão fazendo sutura por falta de médico — contou o construtor Orlandino Paiva, de 52 anos.

O hospital Pedro II é administrado pela organização social SPDM desde 2015. De acordo com o site da OS, a unidade tem dez andares e conta com serviços de emergência e de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) adulta, pediátrica e neonatal, além de maternidade, clínica médica, cirurgia-geral. Entre outros serviços disponíveis na unidade, estão exames de imagem e laboratório. O hospital tem 332 leitos, de acordo com informação da OS em seu site oficial.

Procurada, a Secretaria municipal de Saúde afirmou que as unidades estão funcionando "com classificação de risco", priorizando os casos mais graves. Sobre pagamentos de salário, esclareceu que o caso está judicializado, e " em audiência com o TRT, os sindicatos se comprometeram com a Justiça a manter 50% do efetivo".

Sem comida nas UPAs

As três UPAs da Zona Oeste administradas pela OS SPDM — João XXIII, Paciência e Sepetiba — estão com falta de comida, para funcionários e pacientes. Por isso, o atendimento está muito restrito, com recebimento apenas de casos de extrema gravidade. Neste domingo, o açougueiro Mauro Gomes chegou com dedo cortado na unidade de Paciência, mas foi orientado a procurar ajuda na UPA do Cesarão.

— Já tinha vindo aqui em outras oportunidades, e nunca consegui atendimento. É um estado total de abandono — reclamou ele.

No João XXII, Camila Beatriz Oliveira acreditou que ia conseguir ajuda para o marido, Daniel Souza, que apresentava falta de ar e dor no peito, mas o atendimento não veio. Assim como os outros pacientes, ela foi orientada a se dirigir ao Cesarão. O problema, porém, relatavam as pessoas, é que essa unidade fica numa área de risco, em frente à comunidade do Cesarão.

Neste domingo, a unidade de Paciência so contava com dois médicos, quando o mínimo são três; e três enfermeiros, para um mínimo de quatro. Os funcionários dizem que receberam um mês de salário na última sexta, mas o principal problema é a falta de comida, o que foi suspenso há uma semana. Na última quinta, a empresa Guelli, que reclama ter ficado os últimos seis meses sem repasses da prefeitura, foi à unidade recolher geladeiras e louças.

— Ou trazem comida, ou o paciente passa fome. O atendimento que a gente consegue é só caso direto de internação. Temos nem kit sutura, a medicação também é falha, só contamos com o básico — afirmou uma funcionária de Paciência.

Tragédia no Albert Schweitzer

Depois do fechamento de portas na última sexta, a procura no Albert Schweitzer diminuiu neste final de semana. Só foram aceitos para casos graves de internação. Ainda assim, a pequena Kayllane de Deus Santos, de dois anos, não conseguiu ser atendida a tempo, e faleceu na manhã deste domingo. Ela, que tinha paralisia cerebral, mas já estava começando a falar e a andar, contrariando as previsões médicas, teve convulsão na madrugada de sábado para domingo. Por volta das 18h, foi para a UPA de Ricardo de Albuquerque, onde sofreu duas paradas cardiorrespiratórias . Por conta da gravidade, precisava de uma vaga num hospital, o que só surgiu mais de 12 horas depois.

— Passamos a madrugada inteira tentando uma vaga. Só às 9h chegou uma ambulância, mas ela ficou apenas cinco minutos no Albert. Lá teve nova parada e morreu — Lamentou a avó da criança, Elaine de Deu. — Ela foi direto para a enfermaria e não para o CTI. Não tinha aparelho adequado, e a médica ficou bombeando oxigênio com a mão.