Crise no Inep: uma tensão a mais para os candidatos no Enem deste domingo

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A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que será realizado hoje à tarde e no próximo domingo, é uma maratona. Até a linha de chegada, consagrada pela conquista da tão sonhada vaga na universidade, há um longo percurso — que, em vez de quilômetros, atravessa o ano inteiro —, rodeado por livros, aulas e exercícios. A corrida deste ano, porém, trouxe novos obstáculos para os estudantes. Ansiedade, estresse, apreensão e medo, tão comuns nessa fase e durante a pandemia, se acirraram às vésperas da prova diante de uma crise sem precedentes no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do Ministério da Educação responsável pela realização do exame.

Numa série de denúncias, servidores do Inep afirmaram na última sexta-feira que há “possível intervenção e risco ao sigilo”. Entre os pontos apresentados num documento de 36 páginas, citam assédio moral, perseguição e uso político-ideológico do órgão pelo MEC. A Associação dos Servidores do Inep (Assinep) reuniu o material, já encaminhado ao Tribunal de Contas da União, que abriu investigação, e à Controladoria-Geral da União.

Para o estudante Kauã Gomes Gonzalez, de 18 anos, as últimas quatro semanas foram intensas, não só pelo ritmo de estudo, mas também pelo estresse, agravado pela crise do Inep, que aflora a incerteza, considerada pelo jovem o maior medo de um vestibulando. Esse é o primeiro Enem dele, que almeja uma vaga em Medicina na UFRJ ou na UFF.

— Como o Enem define o futuro de muitos jovens, inclusive o meu, escândalos como esse fazem com que surjam paranoias ao redor da prova sobre os porquês do pedido de demissão coletivo. A incerteza nos faz dar passos para trás em um assunto em que deveríamos ter muito mais que um passo para a frente — diz o aluno do 3º ano do Colégio de Aa Z, no Rio.

Nas últimas semanas, 37 coordenadores do Inpe pediram exoneração, numa debandada em reação à gestão do presidente do órgão, Danilo Dupas, acusado de assédio moral, e sob a justificativa de haver riscos para a realização do Enem deste ano.

Em meio à crise do Inep, o presidente Bolsonaro declarou que o Enem começava a ter a “cara do governo”. Desde então, surgem denúncias de interferência em questões sobre temas sensíveis ao governo, como a ditadura militar (1964-1985). O presidente do Inep nega.

— Se os próprios colaboradores do Inep pediram demissão em massa e não concordam com o que acontece ali, como será essa prova que tem “a cara do governo”? Isso afeta, sim, os alunos — diz Andressa Meireles, de 21 anos, que fará o exame em Luziânia (GO).

A opinião é compartilhada pela estudante Rayane Targino, de 23, que voltou a se dedicar ao Enem há um semestre depois de cursar um ano de Medicina. Agora, o objetivo é conquistar uma vaga numa instituição mais conceituada.

— Acho que todo vestibulando passa pelo medo. A gente nunca sabe como vai ser a prova e parece que todo ano tem uma coisa diferente. Não sei se a prova vai ser a mesma, se as questões vão mudar muito do ano passado para cá... Não sei se o tema da redação vai ser voltado para o social, como nos outros anos, ou não. Fico apreensiva.

A psicóloga Fabiana Ribeiro lembra a importância do controle da ansiedade numa prova como o Enem:

— A questão emocional é tão importante quanto o preparo ligado ao estudo. E essa crise (do Inep) reforçou a ansiedade.

Cursinho muda orientação

A professora de redação de um curso preparatório Samarah Souza conta que reprogramou as aulas: deixou de trabalhar temáticas que pudessem problematizar o atual governo, como minorias e justiça social, e passou a focar em outras, como doação de órgãos e nomofobia, que é a dependência digital.

— Meus alunos ficaram bem apreensivos e ansiosos, com muito receio em relação ao tema de redação. Então, procuramos o que é atual e o que envolve uma problematização que não seja do governo, que não vá criticá-lo — explicou.

Débora Duarte, de 26 anos, que já tem mestrado em Direito, fará o Enem para Medicina. Mas a preparação tem resvalado numa forte insegurança, já que uma das principais formas de estudo para o Enem é a resolução de exames anteriores. Funciona como um treino: o estudante sabe o tipo de questão que irá encontrar e o tempo para resolvê-la. Pelo menos, era assim.

— Se assuntos que eram “de carteirinha”, essenciais no Enem, como, por exemplo, Ditadura e Era Vargas, forem censuradas, você fica com medo de caírem outros assuntos em que tão focamos tanto no cursinho pré-vestibular.

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