Crise no Sri Lanka se agrava com toque de recolher após fuga do presidente

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - ​​A​ fuga do presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, não aplacou a crise na ilha nem arrefeceu os protestos contra o governo. Nesta quarta (13), data em que o chefe do Parlamento havia dito que o mandatário ia renunciar, o que se deu foi a nomeação, a pedido do líder que partiu para as Maldivas, do primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe como presidente interino, insuflando a insatisfação popular.

Em uma de suas primeiras ações, o novo líder decretou toque de recolher até a manhã desta quinta (14). Antes, pediu em discurso televisionado que o Exército faça o necessário para restaurar a ordem. "Não podemos permitir que os fascistas tomem o controle."

Manifestantes com a bandeira nacional invadiram o gabinete do premiê e entraram em confronto com a polícia —ao menos uma pessoa teria morrido, asfixiada pelo gás usado pelos agentes. Mais cedo, Wickremesinghe havia dito que trabalharia para decretar um estado de emergência no país, o que ampliaria o poder de atuação das forças de segurança —a medida ainda não foi formalizada.

"[Os manifestantes] querem interromper o processo parlamentar. Mas devemos respeitar a Constituição. Então as forças de segurança me aconselharam a impor estado de emergência e um toque de recolher. Estou trabalhando para isso", disse o presidente interino.

A população nas ruas pediu que o novo líder renuncie —o que, aliás, ele havia dito que faria, ainda no posto de premiê, no sábado (9), quando milhares incendiaram sua casa e invadiram a residência oficial de Rajapaksa.

Cingaleses relatam a percepção de que o interino representa uma continuidade da família Rajapaksa que há décadas tem grande influência política. O agora presidente interino assumiu como primeiro-ministro após o irmão mais velho de Gotabaya, Mahinda, ser forçado a renunciar em maio. Wickremesinghe pediu nesta quarta que o Parlamento nomeie um novo premiê para o seu lugar e apelou que o nome seja escolhido em comum acordo pela base governista e a oposição.

O presidente do Parlamento cingalês, Mahinda Yapa Abeywardena, disse ter sido informado por Rajapaksa por telefone de que uma carta sua formalizando a renúncia seria enviada nesta quarta, o que não se concretizou até a meia-noite local. Ele manteve a data das eleições indiretas marcadas para o dia 20.

O mandatário, sua esposa e dois seguranças deixaram o aeroporto internacional de Colombo, capital econômica do Sri Lanka, em um avião militar com destino a Maldivas. Pessoas próximas disseram à Reuters que ele estaria em Malé, capital do arquipélago, e que de lá partiria para Singapura.

Além de invadir o gabinete do premiê, manifestantes entraram na sede da emissora estatal do país. Durante uma transmissão ao vivo, um dos participantes exigiu que o canal exiba apenas imagens dos atos até que as demandas das ruas sejam atendidas. O canal, então, foi retirado do ar.

A espiral do caos doméstico na ilha de 22 milhões de habitantes foi impulsionada pela pior crise econômica em pelo menos 70 anos. As políticas da família Rajapaksa foram apontadas como cruciais para que, em abril, o país suspendesse o pagamento da dívida internacional e começasse a sofrer com a falta de combustível.

O governo inicialmente promulgou grandes cortes de impostos no final de 2019, almejando cumprir uma promessa de campanha e estimular a economia local. Somada à pandemia de Covid, que fez secar as receitas do turismo —fatia importante do PIB—, no entanto, a medida reduziu a arrecadação do Estado e a capacidade de compra de combustível.

Somou-se a isso um dos últimos movimentos de Rajapaksa, de proibir o uso de fertilizantes de origem estrangeira sob a justificativa de promover a agricultura orgânica. Sem tecnologia disponível, agricultores do país tiveram uma das piores colheitas no ano passado, e o preço dos alimentos subiu.

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