Crise Yanomami: como a contaminação por mercúrio, resultado do garimpo ilegal, afeta a saúde

Nesta segunda-feira, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, afirmou à BBC News que o garimpo ilegal é a principal causa da crise sanitária que vem sendo exposta na Terra Indígena Yanomami (TIY). De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, o cenário de desnutrição e doenças deixou 99 crianças com idades entre um a 4 anos mortas apenas em 2022, e 570 nos últimos quatro anos.

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Um dos impactos na saúde decorrentes da atividade extrativista ilegal é devido ao uso de mercúrio para separar o ouro de demais sedimentos. Isso porque, após o uso, o metal pesado é jogado nos rios, onde se dissemina pelas águas e chega aos indígenas por meio da ingestão de peixes contaminados.

Ao entrar no organismo, o mercúrio é absorvido no trato gastrointestinal e chega à corrente sanguínea, onde se espalha para os órgãos do corpo e pode provocar diversas lesões. A toxicidade da substância já foi associada a uma gama de doenças, como diagnósticos autoimunes, casos de câncer, malformações congênitas, doenças cardiovasculares, entre uma série de outros problemas.

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Porém, por acumular-se principalmente no sistema nervoso central, o metal é mais diretamente associado ao desenvolvimento de problemas cognitivos, motores, deficiência intelectual, depressão, retardo na fala e outros diagnósticos neurológicos graves. Os riscos são maiores entre a população infantil, que tem um sistema imunológico ainda em desenvolvimento.

O cenário acende o alerta de especialistas há anos, que monitoram os níveis de mercúrio na região e pedem medidas para evitar o avanço do garimpo. Em 2019, um estudo de pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) constatou uma contaminação de 56% das mulheres e crianças Yanomami na região de Maturacá, no Amazonas.

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Três anos antes, outro trabalho conduzido pela mesma equipe, na comunidade Yanomami da região de Waikás, em Roraima, chegou a identificar a contaminação em mais de 90% dos indígenas examinados. A comunidade fica à beira do Rio Uraricoera, um dos mais atingidos pela prática extrativista ilegal.

O cenário é alarmante já que uma das principais fontes de alimentação dos povos na região é pela pesca. No ano passado, a Fiocruz avaliou os pescados de quatro pontos na Bacia do Rio Branco, em Roraima, e constatou que, para algumas espécies, “a contaminação já é tão alta que praticamente não existe mais nível seguro para o seu consumo, independente da quantidade ingerida”.

No rio Uraricoera, ponto mais próximo à TIY, a cada 10 peixes, seis apresentaram níveis de mercúrio acima dos limites da Organização Mundial de Saúde (OMS). Em comunicado, os pesquisadores destacaram que os problemas decorrentes dessa contaminação podem começar ainda na gravidez.

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“Se os níveis de contaminação forem muito elevados, pode haver abortamentos ou o diagnóstico de paralisia cerebral, deformidades e malformação congênita. Os menores também podem desenvolver limitações na fala e na mobilidade. Na maioria das vezes, as lesões são irreversíveis, provocando impactos na vida adulta”, afirmam.

Também de 2022, uma análise da Polícia Federal sobre o mercúrio na TIY mostrou que quatros rios da região, entre eles o Uraricoera, têm níveis até 8.600% superiores ao estipulado como máximo de contaminação para água de consumo humano. O índice foi constatado após dados do Mapbiomas mostrarem que o garimpo ilegal cresceu 3.350% de 2016 a 2020 na região.