'Cristãos estão dispostos a morrer por liberdade', diz ex-ministro da Justiça

João de Mari
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  • André Mendonça defendeu que os cultos devem ser autorizados e "os verdadeiros cristãos estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião e de culto"

  • Declaração foi feita durante o plenário do STF, que julga, nesta quarta-feira (7), a liberação de celebrações religiosas presenciais

  • A discussão na mais alta instância do poder judiciário brasileiro ocorre no momento mais crítico da pandemia com o país registrando 4.195 novas mortes pelo novo coronavírus

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) começou a julgar, nesta quarta-feira (7), a liberação de celebrações religiosas presenciais, como cultos e missas, em meio ao pior momento da pandemia de Covid-19 no Brasil.

No começo da sessão, o advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça, André Mendonça, defendeu que os cultos devem ser autorizados e "os verdadeiros cristãos estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião e de culto". (Veja vídeo no começo da matéria)

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Convocado pelo presidente do STF, Luiz Fux, o julgamento ocorre após decisões conflitantes dos ministros Nunes Marques e Gilmar Mendes, ambos do Supremo, sobre o assunto.

No sábado (3), o ministro Nunes Marques aceitou o argumento de "liberdade religiosa", feito pela Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (Anajure), e proibuiu que estados, municípios e o Distrito Federal vetassem as celebrações religiosas por causa da pandemia

No domingo de Páscoa, após a decisão, houve aglomeração em diversas igrejas do Brasil. A discussão na mais alta instância do poder judiciário brasileiro, ocorre no momento mais crítico da pandemia com o país registrando 4.195 novas mortes pelo novo coronavírus e 86.979 casos da doença nesta terça (6). 

O advogado-geral da União ainda defendeu que “sem vida em comunidade não há cristianismo”, referindo-se as reuniões dos fiés. 

“Não estamos tratando de um debate sobre vida e morte. Todo cristão sabe e conhece os riscos dessa doença e sabe que precisa tomar cuidados e cautelas diante dessa enfermidade. Não se trata de uma discussão política. Todos nessa discussão defendemos a vida”, disse.

Ministro é "servo" de Bolsonaro e "terrivelmente evangélico"

BRASILIA, BRAZIL - APRIL 29: President of Brazil Jair Bolsonaro (R) talks with Justice Minister André Luiz Mendonça (L) during the sworn in ceremony for newly appointed Justice Minister André Luiz Mendonça and new brazilian Attorney General Jose Levi Mello amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on April, 29, 2020 in Brasilia. Brazil has over 71,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 5,000 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Mendonça ainda foi cotado como o ministro “terrivelmente evangélico” (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

Há um ano, o discurso de posse do novo ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, foi tomado por um teor religioso no momento em que ele se referiu ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Mendonça se disse um “líder e também servo” do governo e, para ele, Bolsonaro é um “profeta no combate à criminalidade”.

“Presidente, vossa excelência tem sido há 30 anos um profeta no combate irrestrito à criminalidade. Há mais de uma década tenho me dedicado, na prática e na teoria, ao combate à corrupção. Presidente, o senhor tem sido, há 30 anos, um profeta no combate à criminalidade”, afirmou na ocasião.

O advogado-geral da União foi o nome escolhido por Bolsonaro para comandar o Ministério da Justiça e Segurança Pública, cargo que ficou vago após o pedido de demissão do ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro. Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Mendonça ainda foi cotado como o ministro “terrivelmente evangélico”. 

Mendonça voltou à AGU e foi sucedido no Ministério da Justiça por Anderson Torres, que é delegado da Polícia Federal e trabalhava até então como secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, em março deste ano após as mudanças ministeriais de Bolsonaro.

Gilmar Mendes proibe cultos em São Paulo

O ministro Gilmar Mendes rejeitou, nesta segunda-feira (5), o pedido liminar para suspender o decreto do governo de São Paulo proibindo celebrações religiosas no estado, em busca de frear o aumento dos caso e mortes pela Covid-19.

O minsitro negou ação do PSD (Partido Social Democrático) que argumentava que o decreto do governador João Doria (PSDB), proibindo celebrações com presença do público, era inconstitucional por ferir a liberdade religiosa. O pedido tem o apoio da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional.

“Quer me parecer que apenas uma postura negacionista autorizaria resposta em sentido afirmativo. Uma ideologia que nega a pandemia que ora assola o país, e que nega um conjunto de precedentes lavrados por este Tribunal durante a crise sanitária que se coloca”, escreveu Gilmar na ocasião.