Cristiane, eleita a 4ª maior do futebol feminino brasileiro: 'Reflexo do que fizemos pela modalidade'

Tatiana Furtado
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Neste sábado, aproveitando a estreia do Campeonato Brasileiro feminino, O GLOBO realizou votação para eleger as 30 maiores ateltas do futebol feminino brasileiro na história. Cristiane ficou em 4º lugar e respondeu a pergunta que todos gostariam de fazer: em pouco mais de 40 anos da modalidade regulamentada no país, como é ser eleita entre as maiores? Para ela, motivo de orgulho.

— Eu acho que tudo isso é um reflexo do que a gente fez todos esses anos na modalidade. A gente acabou criando uma história importante e deixando uma história importante para uma geração que vai vir e continuar dando sequência ao que deixamos de legado. Para mim, é uma honra muito grande ter entrado em mais essa história da modalidade com outras atletas que tive o prazer de jogar. É de uma alegria muito grande e que deixa marcado, isso é importante — declarou.

Perguntada sobre quais atletas ela votaria para o Top-5, Cristiane brincou, mas confirmou que se colocaria entre as principais.

— Eu me colocaria, óbvio. Eu deixei alguma coisa bacana durante esse anos de seleção brasileira. Desde novinha, acho que consegui deixar uma história dentro do esporte, então com certeza me colocaria nesse Top 5. Juntas, nós conseguimos modificar muitas coisas no esporte.

Maior artilheira dos Jogos Olímpicos independente do gênero, com 14 gols, Cristiane tem sido a fiel escudeira de Marta no ataque da seleção há mais de uma década. Segunda maior goleadora da seleção brasileira, com mais de 80 gols, a atacante fez história no Santos bicampeão da Libertadores (2009 e2010) para onde retornou na temporada passada. Mas aos 35 anos, Cris tem história para contar em todos os cantos do mundo, com passagens por clubes europeus, nos Estados Unidos e na China, quando se tornou a jogadora mais bem paga do mundo à época.

Confira outras respostas de Cristiane:

Aos 35 anos, quando você olha para trás e para o presente, o que acha que foi além do imaginado na carreira e o que faltou/falta? "Achei que fosse conseguir o que estou conseguindo hoje, com 34, 35 anos, achei que conseguiria mais nova. Em termos de mídia, de marcas fechando contrato, visibilidade. Pensei que conseguiria mais cedo, até porque foram as épocas que conquistamos medalha olímpica, mundial, no Pan-Americano, coisas individuais que conquistei também. Isso acabou entrando muito em quanto foi divulgada a Copa do Mundo de 2019. As mídias sociais movimentaram muito isso. Jogos em TV aberta fizeram com que as pessoas tivessem interesse maior e automaticamente as marcas se interessaram. Comunicação faz uma baita diferença. Feliz de estar conseguindo isso, mas seria bacana se essas coisas estivessem me acontecido antes, no auge dos meus 21 anos. É importante que a gente não deixe de ser reconhecida. A gente tem mania de passou dos 30 e dizer que não serve pra mais nada, está velha. A gente olha mais a idade do que o comprometimento que o atleta tem. Fico feliz das marcas não enxergarem assim"

Como você analisa o futebol feminino no Brasil desde o seu retorno em 2019 em comparação com os tempos vitoriosos do Santos uma década antes? "Hoje temos em termos financeiros as meninas recebem melhor que antes. Ainda acho que falta um pouco dos clubes em termos de venda de camisa. Acho que nesse sentido de explorar isso do futebol feminino ainda falta. Ter as camisas na vitrine pras pessoas se interessarem em comprar. Muita gente vai atrás e não tem ou não tem o modelo feminino. Mas acho que conseguimos mudar muito. Hoje temos praticamente todos os clubes de camisa [com futebol feminino], naquela época acho que só o Santos, não me recordo, posso estar enganada"

Há um descompasso entre a maior organização do futebol brasileiro internamente e a seleção brasileira não ser mais tão poderosa quanto antes? Por quê? "Tudo é um período de tempo. A gente teve uma geração anterior muito vencedora. Infelizmente, com o decorrer do tempo, caímos muito em chegar à finais de competições como Olimpíada, por exemplo. A gente tem que levar um tempo pra se reestruturar novamente, remontar uma seleção tão boa quanto foi aquela da época das conquistas e é normal. Temos exemplo do Japão, que por muito tempo não chegou nas competições como gostaria, até que elas chegaram em final de Copa do Mundo e Olimpíada e foram campeãs. Torço bastante pra que a gente volte a ser a seleção como fomos no passado em estar sempre brigando nas finais"

Qual a importância da Pia neste novo momento da seleção? Quais foram as principais mudanças em termos de filosofia de jogo? "Cada comissão quando entra tem sua filosofia, maneira de trabalhar, jeito de pensar e ideias. A gente vai tentando se encaixar em como cada um pensa e quer. Ela tem feito mudanças significativas que ela viu que faltava na equipe. Ela tem as atletas que acredita que vão fazer diferença no que ela propõe. Isso é importante porque faz com que todo mundo tenha uma movimentação para querer estar dentro da seleção brasileira"

Tóquio deve ser o último encontro do trio Formiga-Marta-Cristiane? A seleção está pronta para essa despedida (se for)? "Eu estou trabalhando para estar no grupo. Não tem nada garantido ainda, não sei o que pode acontecer até lá, mas trabalho bastante para isso. Talvez sim, talvez não. As três sabem o que vão seguir daqui para frente, cada uma sabe o rumo que vai seguir pós-Olimpíada. Torço muito para que a gente esteja juntas nessa"

Que lideranças novas você vê surgindo no futebol brasileiro/seleção? "Acho que são personalidades diferentes, ideias diferentes e ainda não consigo pontuar quem são e como vai acontecer. O que a gente tenta deixar para uma próxima geração é que são elas que vão dar continuidade daqui para frente em termos de liderança, de luta e não falamos de luta individual, mas coletiva. Também, de como isso vai ser feito, porque existe uma maneira de cobrar para poder conseguir. Ainda não consigo definir quem está conseguindo fazer isso tão claro a ponto de fazer diferença dentro do esporte brasileiro"

Determinou uma idade para encerrar a carreira? E depois? Já há planos em mente? "Às vezes eu paro, determino e já mudo de ideia de novo. Tudo isso vai de acordo com a maneira como você se cuida, se quer continuar em alto nível ou simplesmente acordar, treinar e voltar pra casa. Isso vai muito do nosso planejamento. No Brasil temos muito o costume de limitar o atleta, seja homem ou mulher, depois de uma certa idade. E na verdade somos nós quem colocamos limite. Sou eu que coloco limite em quando vou parar, como vou parar e como vou continuar jogando. Fazemos isso muito com atletas no Brasil, o que é injusto. A idade vai chegar para todo mundo e acho que você tem que definir o atleta em como ele se cuida, trabalha e em como se dedica para continuar praticando o futebol, não em como a idade chegou para ele. Sigo fazendo e deixo as coisas acontecerem"