Cristiano Ronaldo x Pelé: ignorar gols 'não oficiais' é desconsiderar contexto, dizem historiadores

Igor Siqueira
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Eusébio estreara pelo Benfica 15 dias antes. O Santos, em uma de suas excursões pela Europa, disputaria contra os portugueses a final do Torneio de Paris em 15 de junho de 1961. Pelé fez dois gols, Eusébio marcou três e o jogo terminou 6 a 3 para o time brasileiro, no primeiro duelo entre dois dos grandes da História.

Nada do que ocorreu na capital francesa naquele dia é considerado por estatísticos europeus para contabilizar o número de gols em jogos oficiais do Rei do Futebol. Afinal, a competição em questão é tratada atualmente como não oficial.

Por essa matemática, há os que dizem: Cristiano Ronaldo, com seus 758 gols em jogos oficiais, superou Pelé (757). Segundo levantamento do site Futdados, de Júlio César Cardoso, esse critério faz com que Pelé tenha 526 gols não oficiais.

Na conta total dos 1.283 gols do Rei, alguns não oficiais, de fato, foram anotados por ou contra equipes e combinados de qualidade questionável. Por exemplo: 14 pelas Forças Armadas e três pelo time do Sindicato dos Atletas de São Paulo.

Por outro lado, com a camisa do Santos, são 446 bolas na rede desconsideradas no somatório “oficial” — régua pela qual CR7 e Messi são medidos. Com a seleção, 18 gols foram “pelo ralo”.

Na visão de historiadores do futebol, o critério é injusto por desconsiderar a relevância dos amistosos em décadas passadas e o contexto que os motivava.

— Nesse jogo no Torneio de Paris, o Santos enfrentou o bicampeão europeu. É o tipo de jogo que fez com que os europeus considerassem o Santos um dos melhores times do mundo. Vai dizer que Santos x Jabaquara pelo Paulista é mais importante? — questiona o jornalista e historiador Odir Cunha, curador do Museu do Pelé e ex-coordenador de História e Cultura no Santos.

Hoje, a Juventus enfrenta o Milan pelo Campeonato Italiano e Cristiano Ronaldo pode aumentar sua marca. Quando Pelé começou a jogar pelo Santos, em 1956, nem Brasileirão existia. O espaço premium do calendário dos clubes brasileiros era para os estaduais. A Taça Brasil só veio em 1959.

— Era uma época em que não havia muitas competições, os clubes ficavam boa parte do ano jogando amistosos. Tinha o Brasileiro de seleções, mas eram poucos jogos. As seleções de São Paulo e Rio entravam nas semifinais — completa Odir.

Quem era badalado buscava dinheiro no exterior. O holofote se voltou para o Santos depois do que Pelé fez na Copa do Mundo de 1958, no primeiro título mundial do Brasil. Em uma época sem patrocínios ou direitos de TV, o cachê pelos jogos era receita relevante.

— O Santos disputava muitas partidas em todos os continentes. O Pelé jogava e fazia gol. Os gols do Messi e do Cristiano Ronaldo são importantes, mas os do Pelé também eram. Os amistosos eram contra times muito grandes, principalmente da Europa. Não se pode jogar esses gols fora — diz o jornalista Roberto Assaf.

Em 1959, o Santos enfrentou a Inter de Milão no Torneio de Valência e aplicou 7 a 1. Quatro gols de Pelé. O time italiano, inclusive, é a maior vítima do Rei em jogos não oficiais: dez gols. Em 1965, o Santos foi a um torneio no Chile no qual, entre outros times, enfrentou a Tchecoslováquia. Pelé fez três gols na vitória por 6 a 4. Em 1962, a seleção perdera a final da Copa para o Brasil.

Mês passado, o Santos reproduziu um texto de Fernando Ribeiro, da Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos (Assophis). O autor ressalta a preferência dada pelas excursões e cita que o clube “chegou a ignorar a disputa da Copa Libertadores de 1967, mesmo tendo obtido a vaga como vice-campeão brasileiro do ano anterior”.

As passagens do Santos no exterior também deixaram legado para quem conseguiu a façanha de vencer o time de Pelé. Em julho de 1961, o Rei passou em branco no duelo contra Olympiacos, que venceu por 2 a 1. Os gregos inseriram o feito no hino do clube: “Eles tremem quando ouvem o seu nome: Olympiacos / Eles ainda lembram do seu nome: O Santos de Pelé”.