Um filme para quem acha que a vida não pode ser só trabalho

Cena do documentário "Estou me guardando para quando o carnaval chegar", de Marcelo Gomes (Reprodução/Vitrine Filmes)


Entrou recentemente no catálogo da Netflix um documentário imperdível para quem quiser compreender as relações contemporâneas de trabalho.

Esqueça o cenário futurista das grandes cidades, as vias tomadas por patinetes elétricos e bicicletas compartilhadas, os inúmeros serviços disponíveis por aplicativos e as startups localizadas em prédios envidraçados ou nos fundos de uma vila descolada dos bairros nobres.

É em Toritama, município de 37 mil habitantes do agreste pernambucano, que está o retrato mais bem acabado das interações patrão/empregado de nosso tempo.

É lá que se passa o documentário “Estou me guardando pra quando o carnaval chegar”, de Marcelo Gomes.

O filme acompanha a rotina de trabalhadores que se libertaram das esteiras de produção concentradas nas grandes indústrias e transformaram o município em “capital do jeans”.

Como um microcosmo, o sistema de manufatura ali é descentralizado.

Pela cidade, onde o diretor costumava acompanhar o pai, um funcionário do governo, em viagens a trabalho, o maquinário se espalha em pequenas “facções”, como são chamadas as instalações do tipo home-office.

À primeira vista, são eles os donos dos meios de produção, compostos por pequenas máquinas de corte e costura instalados em garagens, quartos e pequenos depósitos improvisados em casas simples sem ar-condicionado, mas tomados por ventiladores.

A claustrofobia faz o espectador transpirar. De calor e de nervoso.

Ao longo do filme, poucos moradores se queixam daquele sistema de remuneração por produção e fagocitose entre pequenas, médias e grandes empresas.

Uma operária conta que ganha dez centavos por bolso instalado nas peças. Assim, quanto mais trabalha, mais recebe no fim do dia, num círculo virtuoso, ou viciado, que come parte da noite, das manhãs, dos finais de semana e dos feriados.

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A cidade só para em uma ocasião: quando chega o carnaval e os moradores desaparecem do local em direção às praias.

Quem não consegue juntar dinheiro suficiente faz de tudo para não testemunhar o silêncio sepulcral de quem botou para descansar as máquinas e motocicletas que rodam o ano todo pelas ruas empoeiradas levando e trazendo a matéria-prima.

No documentário, a câmera acompanha o movimento de corpos suados, muitos sem camisa ou descalços, em ambientes enxutos. As cenas remontam a um presídio superlotado.

Diante da câmera, eles celebram o fato de não precisar viajar até o Sudeste para ganhar dinheiro.

Lá, não.

Lá não é preciso sair de casa.

Nem do quarto.

Não é preciso sequer ter estudo, explica uma operária.

Lá, enfim, eles parecem ter alcançado o santo grau do empreendedorismo contemporâneo: o manejo do próprio tempo.

Ou a ilusão desse manejo, focado, com pouca margem para conversa ou distrações com os filhos que rodeiam o chão da própria fábrica.

Basta apertar o botão, acionar a ferramenta, deixar as linhas correrem e as lâminas cortarem o tecido.

O trabalho repetitivo, que Marcelo Gomes ludibria com uma composição de Bach executada pelo pianista João Carlos Martins, é uma alienação pela metade.

Eles não possuem o controle nem o conhecimento do conjunto, nem do produto, nem da produção.

Mas têm acesso ao resultado do próprio trabalho e dos aparelhos de primeira necessidade para a conexão com o mundo atualizado em celulares e computadores.

O flagrante está no que comunica e não se fala para as câmeras, que capta aqueles corpos exauridos dormindo em cima das sobras de tecidos e das sacolas dos produtos.

O alcoolismo também se revela aos poucos, pelas brechas.

Um dos entrevistados tenta curar a ressaca sem interromper o sorriso nem mesmo quando o patrão oferece a ele a possibilidade de trabalhar como pedreiro de sua futura casa, numa área humilde da cidade, em troca de um posto melhor em sua pequena confecção. É como se dissesse: em Toritama, todos são explorados, mas uns são mais que outros.

Um dos significados de Toritama vem do tupi toryba, que quer dizer alegria.

A de seus moradores é acumular o máximo de capital para uma vez por ano viajar para a praia.

Poucos ali se dedicam à agricultura ou à criação de animais, como os ancestrais. Estes poucos trocaram o ritmo das máquinas pelo direito à contemplação, que permite calcular o volume das chuvas pelo formato das nuvens.

E filosofar sobre dinheiro e riqueza.

Dentro das fábricas, todos compartilham o sonho de enriquecer, como um fim em si.

Assusta a consciência do fim e dos meios: para eles, o trabalho não é o caminho. É a vida em si, rodando como máquina, entre pequenas interrupções.

O paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga ensina, em uma entrevista ao El país, que a vida não pode ser trabalhar a semana inteira e ir ao supermercado no sábado.

Mas é exatamente isso o que se faz longe de Toritama, entre bicos de motorista, trabalho extra, plantões sem hora para acabar, a pós visando a promoção, os eventos de relacionamento, o happy hour para falar do trabalho, o intervalo sem descanso de planejamento do próximo projeto, as mensagens fora de hora no grupo de trabalho no WhatsApp, as leituras atualizadas no fim de semana para ter o que apresentar na segunda e conseguir dinheiro extra para pagar o vício ou a parcela do carro que leva até o trabalho ou da casa onde se dorme pensando no que fazer no dia seguinte.

A diferença é a consciência diante do espelho apresentado pelo filme.

Ou a ausência dela, para quem chama trabalho de missão e ainda não entendeu que a vida se tornou só um intervalo entre, não durante, um carnaval e outro.

De um lado da tela há quem afirme que a vida não pode ser só isso; de outro grita a consciência de que ela já é.