Crivella defende uso da hidroxicloroquina e diz que unidades municipais já estão utilizando medicamento

Luiz Ernesto Magalhães
O prefeito Marcelo Crivella durante inauguração do tomógrafo na UPA da Cidade de Deus

RIO — O prefeito Marcelo Crivella, em discurso afinado com o presidente Jair Bolsonaro, defendeu nesta sexta-feira o uso da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes da prefeitura, e destacou que as unidades de saúde municipais já estão usando o medicamento conforme regulamentação estabelecida há cerca de um mês pela Secretaria municipal de Saúde.

—  O Ministério da Saúde estabeleceu uma série de normas. Sim (já estamos usando) conforme o entendimento de cada médico e seguindo recomendações. E com o consentimento das pessoas — disse o prefeito.

Crivella também anunciou que pretende cortar cerca de R$ 230 milhões em contratos com fornecedores e benefícios (vale-transporte e gratificações) para servidores, incluindo da área de educação — nesse caso enquanto perdurar a crise da pandemia — como uma tentativa de reduzir despesas por conta do aumento de gastos com a Covid-19 e a queda na arrecadação, que estimou já ter chegado a R$ 2 bilhões.

O anúncio foi feito ao mesmo tempo em que o prefeito voltou a defender, em entrevista coletiva no Riocentro, a retomada gradual das atividades econômicas do Rio, depois de dois meses de isolamento social. A mudança no tom ocorreu após Crivella participar na quinta-feira de um encontro em Brasília com o presidente Jair Bolsonaro, defensor da retomada, ocasião em que o prefeito reivindicou recursos para reforçar o caixa em Saúde e Infraestrutura.

Crivella, no entanto, não estabeleceu uma data. Ele alegou que precisa primeiro apresentar o plano de retomada desenvolvido em parceria com a iniciativa privada e com a comunidade científica, que o aconselha sobre medidas para conter o avanço do coronavírus. O documento não foi divulgado.

— Começa a chegar a um ponto em que a prefeitura e todo o setor privado de muita dificuldade. Graças a Deus, conseguimos ajudar o estado com respiradores (doados para o hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel). A velocidade de transmissão caiu, os índices de isolamento melhoraram e a população se habituou a usar máscara. Temos um segundo lote de respiradores importados para chegar da China. Isso nos dá esperança para que possamos retomar gradativamente as atividades na cidade do Rio de Janeiro.

No discurso afinado com o presidente, Crivella defendeu o uso da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes da prefeitura. E que as unidades da prefeitura já estão usando conforme regulamentação estabelecida há cerca de um mês pela Secretaria municipal de Saúde.

—  O Ministério da Saúde estabeleceu uma série de normas. Sim (já estamos usando) conforme o entendimento de cada médico e seguindo recomendações. E com o consentimento das pessoas — disse o prefeito.

Apesar de Crivella afirmar que houve uma queda na velocidade de transmissão, os matemáticos do Instituto de Matemática da UFRJ, que dão consultoria para o grupo de crise, projeta que no dia 4 de junho, haverá a confirmação de 43.806 casos de Covid 19 mais do que o dobro de casos registrados até a quinta-feira (dia 21): 18.743.

Em nota, a prefeitura sustenta que os cálculos tomaram com base principalmente casos registrados na cidade em abril e que ainda não foram incluídas nas estatísticas oficiais. E que por se tratar de um estudo de tendência, pode ou não se realizar. Crivella argumenta que a curva de contaminação caiu à metade desde o início da pandemia: de 0.06 para 0.03. Ou seja: no início da pamdemia, cada doente poderia infectar outros seis entre um universo de 100 pessoas. Agora, esta proporção é de três pessoas   

A estimativa da própria prefeitura é que as reivindicações feitas por Crivella a Bolsonaro custem aos cofres federais cerca de R$ 600 milhões. Entre os recursos pedidos pelo prefeito a Bolsonaro está o cadastro no SUS dos novos leitos abertos nas últimas semanas no hospital de campanha do Riocentro, no Hospital Ronaldo Gazolla (Acari) e em outras unidades. Além disso, Crivella reiterou ao presidente uma reivindicação que vem fazendo à União desde 2017.

O município quer que a União aumente de R$ 100 milhões para R$ 205 millhões, os repasses para manter 23 unidades federais que foram municipalizadas há alguns anos. E também que a Caixa Econômica Federal (CEF) libere saldos no valor de cerca de R$ 300 milhões de recursos bloqueados desde 2016 para construir as arenas que abrigaram competições durante os Jogos Olímpicos. A prefeitura antecipou os recursos para evitar que o cronograma de obras atrasasse. Mas, por problemas burocráticos, não recebeu o saldo até hoje.

Em meio à discussão sobre a abertura de leitos, a prefeitura ainda esbarra em outro problema. Na quarta-feira passada, Crivella estabeleceu inicialmente um prazo de dez dias (ou seja, vence nesta sexta-feira) para abrir todos os 325 leitos de UTI dos hospitais Ronaldo Gazolla e de campanha do Riocentro, entre outras unidades, para atender aos pacientes do Covid. O gasto com cada leito ocupado chega a R$ 1,8 mil por dia.

Todos os equipamentos necessários já chegaram da China, mas a prefeitura só deve terminar na segunda-feira a contratação dos médicos que vão trabalhar nas unidades de referência. Por outro lado, o prefeito comemorou a decisão da Rede D’or de ampliar de 50 para 100, o número de vagas de UTI no hospital de campanha que montou com outros parceiros privados no parque dos Atletas, na Barra da Tijuca.

— Contratamos 320 médicos essa semana. Na segunda-feira, chegarão mais 330. Com isso poderemos abrir todos os leitos ao longo da próxima semana — estimou o prefeito do Rio.

Outra polêmica envolve a discussão sobre o total de mortes por Covid-19 na capital. Embora as notificações de óbitos sigam regra padronizadas em todo o país, Crivella disse que a prefeitura está revendo os critérios para declarar que alguém morreu devido ao coronavírus. A afirmação foi feita pelo prefeito ao justificar porque o painel que mostra a evolução das mortes na cidade deixou de divulgar, desde o início da semana, informações detalhadas sobre mortes por bairro do Rio de Janeiro. O prefeito, no entanto, negou que a revisão contemple óbitos que já foram confirmados. Desde então, só é divulgada a informação de mortes totais na cidade, pelos boletins do Estado e da prefeitura do Rio.

— Há divergências sobre os óbitos, inclusive entre os médicos. Eu citei um exemplo de um idoso de mais de 80 anos, que estava em tratamentos paliativos de oncologia. Não tinha mais chances de sobrevivência. Ele pegou o coronavírus no hospital e morreu. Para alguns médicos, ele morreu com coronavírus. Para outros, esse mesmo paciente morreu de coronavírus. Podem haver outros casos assim. Tenho que analisar as diretrizes do Rio com o que está sendo feito em outros municípios — disse o prefeito, sem informar quando a informação voltará a ser disponibilizada.           

Sobre a redução de despesas da prefeitura, a tendência é que atinja quase todas as pastas, preservando a Saúde. 

— Vamos cortar 25% dos valores dos nossos contratos, de forma cautelosa. São medidas para cortar custos e melhorar a arrecadação — disse a secretária municipal de Fazenda, Rosemary de Azevedo Carvalho Teixeira de Macedo.  

O secretário-chefe da Casa Civil, Ailton Cardoso, anunciou também outras medidas. Os salários dos secretários vão sofrer um corte de metade dos salários drante a epidemia, como forma de dar exemplo a outros órgãos públicos. Os funcionários que estão cumprindo a jornada de trabalho de forma remota terão os vale-transportes cortados enquanto permanecerem nessa condição. Só no auxílio transporte será uma economia de R$ 11 milhões.

Haverá também cortes no pagamento para os docentes que complementam os salários por dupla regência. Hoje, 13 mil profissionais recebem pela dupla regência. O adicional só será pago durante a pandemia para os professores que estieverem de fato com uma carga horária maior, no trabalho remoto e com turmas completas.

O município também suspendeu durante a pandemia o pagamento de uma gratificação para professores lotados em escolas em locais de difícil acesso. Na prática, trata-se de uma espécie de adicional de risco já que o adicional é pago para quem é lotado em favelas, por exemplo. Há apenas dois dias, em nota enviada ao jornal Extra, a Secretaria municipal de Educação negava o plano de cortes na dupla regência. Em contrapartida, o prefeito vai pedir autorização à Câmara do Rio para que os repasses pelo município aos bancos de valores de empréstimos cosignados por servidores seja suspenso por três meses.

O prefeito também reconheceu que parte dos novos tomógrafos que a prefeitura instalou em vários bairros do Rio com direito à festa de inauguração ainda não estão operando. A história foi revelada pelo Globo nesta sexta-feira:

— Na verdade, faltava um ajuste da radiação dos equipamentos. A empresa contratada atrasou esse trabalho.

Crivella acrescentou que respondeu a um ofício do Ministério Público que a prefeitura nunca estabeleceu restrições ao funcionamento de templos religiosos. E que apenas recomenda que não ocorram aglomerações, respeitando uma distância de dois metros e usando máscaras. Um decreto com essas  orientações deve ser publicado nos próximos dias.