Crivella tenta acordo com Bolsonaro para adiar pagamento de dívidas da prefeitura

Luiz Ernesto Magalhães
Prefeito Marcelo Crivella durante entrevista coletiva no Riocentro

RIO - O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos) disse nesta terça-feira que quer renegociar com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) os prazos para pagamentos de dívidas do município - principalmente com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Caixa Econômica (CEF) - devido aos esforços financeiros da prefeitura para enfrentar a epidemia de coronavírus.

Apenas com o BNDES, nos cálculos de Crivella, a pendência seria de R$ 1,5 bilhão, com parcelas entre R$ 110 milhões e R$ 150 milhões a vencer a partir de abril. A maior parte dessas dívidas se refere a empréstimos contratados para a realização de obras na Olimpíada de 2016, incluindo os BRTs Transcarioca (Barra-Ilha do Fundão) e BRT Transolimpico (Recreio-Deodoro).

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- O presidente Jair Bolsonaro está sensível ao problema enfrentado pelo Rio e acredito que poderá nos ajudar. Esperamos sua compreensão. Com essa crise, a arrecadação da cidade com ISS, IPTU e royalties do petróleo vai despencar. E também enfrentamos muitos prejuízos com as chuvas do último verão. Já paguei R$ 5,5 bilhões em dívidas deixadas do governo passado. E tenho R$ 1,5 bilhões ainda este ano enquanto enfrentamos esta situação de epidemia - disse o prefeito.

Crivella, no entanto, não descarta que a prefeitura entre na Justiça para tentar suspender pagamentos. Este foi o caminho seguido pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). No domingo, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu 22º  pagamento da dívida do Estado de São Paulo com a União em razão da pandemia . Segundo Moraes, a decisão valerá pelos próximos 180 dias. Doria deveria pagar R$ 1,2 bilhão de reais na segunda-feira, mas a liminar impediu a ação.

Coronavírus:

Desde que assumiu, em 2017, Crivella tenta sem sucesso renegociar as dívidas com o BNDES. No ano passado, o prefeito também foi a Justiça, pedindo para adiar o pagamento de quatro parcelas da dívida até fevereiro. Mas não conseguiu. Em consequência, a  prefeitura acabou tendo mais de R$ 300 milhões de repasses de cotas que teria direito de receber do estado de ICMS e de IPVA para pagar a dívida. a receita desses impostos havia sido dada em garantia pela quitação dos empréstimos. Isso causou uma espécie de feito cascata nas contas da prefeitura. O município atrasou o pagamento de funcionários das Organizações Sociais da Saúde que entraram na justiça para receber e também conseguiram arrestar recursos da prefeitura. No fim do ano, também houve atrasos no pagamento de salários dos servidores.

A estratégia de Crivella segue uma linha que adota há meses de tentar se aproximar do presidente, mantida  mesmo com o desgaste político que Bolsonaro sofreu nos últimos dias por conta de uma série de declarações e atos públicos nos quais minimizou o risco da epidemia. Ao contrário dos governadores Wilson Witzel (PSC) e João Doria, que adotaram medidas  sem consultar a União, Crivella tentou manter um tom conciliador com o governo federal. A estratégia do prefeito foca em um eventual apoio do presidente na tentaiva de atrair o apoio do presidente a sua tentativa de reeleição em outubro.

Essa estratégia também ficou clara na manhã  desta terça-feira, no Riocentro, quando o prefeito apresentou os 30 militares e os 30 agentes da Cruz Vermelha Brasileira que reforçarão a campanha de vacinação dos idosos no Rio. Ao comentar a participação dos militares, Crivella posou para fotos com o grupo e chegou a citar o sasesslogan de campanha do então candidato a presidente (Brasil acima de tudo, Deus acima de Todos). Assessores e o próprio prefeito durante o evento citaram Bolsonaro sete vezes. Menções ao governador Wilson Witzel referentes a ações conjuntas só foram citadas duas vezes.