Crivella x Paes: no último debate do Rio, a principal proposta foi o 'direito de resposta'

João Conrado Kneipp
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Eduardo Paes e Marcelo Crivella fazem último debate nesta sexta-feira (27) na TV Globo. (Foto: Reprodução)
Eduardo Paes e Marcelo Crivella fazem último debate nesta sexta-feira (27) na TV Globo. (Foto: Reprodução)

Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) protagonizaram, na noite desta sexta-feira (27), o último debate antes do segundo turno das eleições no Rio de Janeiro. No entanto, o verdadeiro destaque do embate na TV Globo foi ao “direito de resposta”, que foi resgatado mais do que qualquer outra proposta ou programa de governo.

Assim como no debate realizado na TV Band, a troca de ataques pessoais entre os dois foi a tônica do começo ao fim.

Falou-se de prisão, incapacidade de gestão, acusações de corrupção, propina, supostos envolvimento em desvios. Ignorou-se totalmente a cidade do Rio de Janeiro, a pandemia do novo coronavírus e qualquer outro problema que o eleitorado carioca estivesse interessado.

Disparado nas pesquisas e em uma situação virtualmente mais confortável, Paes ensaiou elevar o nível e, na primeira pergunta do primeiro bloco, questionou o atual prefeito quais segmentos da população foram priorizados por Crivella durante sua gestão.

O atual prefeito, no entanto, jogou fora a cartilha das discussões profundas e propostivas, e devolveu com uma resposta “abaixo da cintura”:

“Eu já disputei eleições contra pessoas do grupo do Eduardo (Paes), como o (Sergio Cabral) e (Luiz Eduardo) Pezão, e eles ganharam. Mas ganharam mesmo? Eles foram presos. Vai ser a mesma coisa com o Eduardo Paes, ele vai ser preso”, disparou Crivella.

Apontar que seu adversário não respondia suas perguntas e que não apresentava proposta foi a tentativa de Eduardo Paes de chamar o debate de volta a um nível aceitável. Quando cedia — e o fez muitas vezes —, evocava que o apelido de “o pai da mentira” e citava passagens bíblicas contra o prefeito.

Crivella, ainda assim, tornava a citar as acusações contra o ex-prefeito e seus aliados políticos da antiga gestão.

Só no primeiro bloco, foram quatro pedidos concedidos de direito de resposta — dois para cada lado.

A cobertura em tempo real da TV Globo fez questão de enumerá-los enquanto pode. Quando o pedido ao direito de resposta virou praxe, a mediadora Ana Paula Araújo passou a lembrá-los que o debate envolvia réplica e tréplica e que tais espaços deveriam ser usados para esse fim.

Ainda sobrou tempo para que fossem meramente citados temas como combate à pobreza e Carnaval. Sobre este último, Crivella — bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus — fez ataques preconceituosos ao tentar ofender Paes dizendo que o adversário usa “chapéuzinho de Zé Pilintra” durante os desfiles.

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No bloco seguinte, os temas sorteados foram diversidade, transporte, educação e empregos. Na Educação, Crivella voltou a mencionar que Paes tem o apoio do PSOL para uma eventual indicação na secretaria.

A fala deixou de fora a acusação feita por ele dias antes de que o partido iria promover “pedofilia nas escolas” caso Paes fosse eleito.

Nesta sexta, Justiça Eleitoral concedeu ao PSOL um direito de resposta pela frase de Crivella, considerada pela juíza como “difusão de malignidade”. A PRE (Procuradoria Regional Eleitoral) no Rio denunciou o atual prefeito por difamação eleitoral e propaganda falsa pela mesma acusação, feita ao lado do deputado bolsonarista Otoni de Paula (PSC).

Crivella não fez nenhuma menção ao nome do presidente Jair Bolsonaro, seu principal cabo eleitoral e fiador de sua campanha no primeiro turno.

A resposta do ex-prefeito foi seguir criticando a gestão de Crivella e acusá-lo de ser “tão ruim” que até mesmo uma página de Facebook criada contra Paes declarou voto favorável ao candidato do Democratas.

“O PSOL não me apoia. A verdade é que você é tão ruim que vários partidos à esquerda e à direita já declararam serem contrários a você. Tem até uma página ‘Eu Odeio Eduardo’, ‘Fora Eduardo Paes’ que já declarou voto em mim”, afirmou.

O terceiro bloco foi a oportunidade que tinham para debater propostas sobre como conter o avanço da Covid-19 no Rio. A cidade completou, nesta sexta, dez dias com aumento de casos e mortes na média móvel, e está com lotação de 94% nas vagas de UTI e de 71% nas enfermarias.

Paes, em uma das poucas menções à doença, citou o número de mortos até agora na capital fluminense e quase às imputou diretamente a Crivella. “Crivella foi um fracasso até agora contra o coronavírus. Crivella matou, matou não que é exagero da minha parte, mas Crivella permitiu que 6 mil vidas se perdessem”.

“Tenho pena de você no juízo final”, disparou o bispo, em uma de suas inúmeras referências religiosas.

Nas considerações finais, os dois ainda tiveram a ousadia de lamentar o nível do debate e pedir desculpas ao eleitorado carioca, cada um apontando o outro como culpado pela falta de propostas e pelos ataques desmedidos.

Quem perde é quem acompanhou os 66 minutos de embate para ver cinco direitos de resposta serem a prioridade nº 1 dos candidatos.