2022: sobrevivemos até aqui. Agora é hora de renascer

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Paisagem do fim de ano no rancho em frente à lagoa de Furnas, no interior de Minas Gerais
Paisagem do fim de ano no rancho em frente à lagoa de Furnas, no interior de Minas Gerais

Na véspera do Natal, sentei a poucos metros da represa e observei, de camarote, o fim do dia. Sem prédios nem fumaça à vista, o sol parecia uma imensa bola, àquela altura alaranjada, descendo serra abaixo. Cinco minutos depois, já era noite – uma noite com estrelas, como as que minha sogra dizia não ver há muitos anos na cidade.

Fomos parar naquele rancho, num dos muitos lotes construídos no entorno do Lago de Furnas, em Minas Gerais, meio que por acaso. A ideia era ficar próximo de Capitólio, mas a casa mais acessível ficava a quase duas horas dali. Quase não havia movimento ao redor, com a exceção de uma família instalada na chácara ao lado para as festas de fim ano.

O mercado mais próximo ficava a 20 minutos, de carro, dali. Não abriria naquele final de semana. O hospital estava a 30 quilômetros. Uma picada de aranha, como a que fui obrigado a matar logo na primeira noite, e a paz seria automaticamente substituída pelo caos.

É estranha a sensação de isolamento, apesar do movimento na cozinha da casa, um sobrado com base de madeira onde dormiam filho, sogra, mulher, pai, mãe, tio, tia, avô. Fora os cães –três ao todo. De alguma forma éramos sobreviventes e tínhamos o que comemorar — há o luto mas há também uma brisa de esperança, uma recompensa para quem viu na vacina uma luz para os novos dias. Os dias de reabertura.

O isolamento era uma forma também de deixar longe a vida de sempre, agora pontuada por boletos, compromissos, horas marcadas —no meu caso também, uma infestação de morcegos no telhado de casa, que ficou para ser resolvido na volta, já no ano seguinte. No pé daquela serra, dois problemas se misturavam, como sempre. A verdade do universo e a prestação que vai vencer. (Raul Seixas já ensinava).

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De frente ao lago, observava a paisagem ao fundo e me perguntava se foi ali que Lamartine Babo havia composto o clássico “Serra da Boa Esperança”. Na TV conectada ao YouTube, a música era executada na voz de Francisco Alves, o favorito do meu avô. Ele ficara viúvo havia menos de quatro meses e as notas pareciam arranhar, enquanto acariciavam, a ferida escancarada.

Envelhecer é ouvir música pensando em quem se foi, pensava comigo, olhando para a serra, infinita. Além da minha vó — que havia contraído Covid-19 pouco antes de ter um quadro de saúde debilitada agravado, resultado do contato com um cuidador ainda não vacinado e com sintomas —lembrava de amigos, amigos de amigos e familiares de amigos que morreram às pencas em 2021. Meu amigo do futebol. Um vizinho de quarteirão. O pai e a mãe de um amigo da escola. Um ídolo da TV. Outro, da música.

Meu avô, no canto, era um dos muitos sobreviventes da doença, contraída na mesma época da minha vó.

Naquela casa de temporada, a falta era uma presença constante. Driblávamos sua onisciência com silêncio alternado por música. Por isso tocava no repeat a “Serra da Boa Esperança”, versão Chico Alves. Pelo canto do olho era possível ver meu avô enxugar uma lágrima aqui e ali.

O algoritmo da plataforma levava a outras composições e reminiscências. Como quando conheceu minha vó –nessas horas minha mãe pedia para botar um samba anos 90, meu pai reclamava que aquilo não era música e meu filho pedia para ouvir pela enésima vez a introdução de Dragon Ball.

Nos dias de descanso a gente faz as vezes de DJ da família.

As águas da lagoa faziam os píeres instalados ali dançaram conforme o vento. O que parecia estocado no tempo, na verdade era movimento.

Entre a falta e o drible na falta, o ano prestes a nascer pedia também renovação. Todo fim de ano é assim. Dessa vez, como um ciclo, pedia mais. Pedia renascimento.

No meu campo de vista, uma criança de oito anos batia bola sozinha numa trave improvisada a poucos metros da lagoa. É meu filho, herdeiro agora do desespero futebolístico do pai.

Numa faixa de grama entre a terra e a água, o novo e o antigo deflagravam uma batalha particular, silenciosa, não anunciada. O que se assemelhava a calma e ao silêncio era na verdade movimento, calor e pulsão.

Aquele lago aparentemente calmo contém toda a energia represada que alimenta parte do país. Uma espécie de força para aprender a começar do fim, como ensina outra música —talvez a que mais ouvi no ano passado.

Naquela paisagem havia um país inteiro.

Prestes, bem perto mesmo, de renascer.

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