Com quantas mortes no peito se faz a seriedade?

Former Brazil's Health Minister Eduardo Pazuello attends a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil May 20, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello fala à CPI da Pandemia. Foto: Adriano Machado/Reuters

Um filme exibido recentemente na TV perdeu minha audiência antes mesmo da primeira metade. Chama-se CPI da Pandemia.

É a história de um general escalado para proteger um território conflagrado onde um inimigo estranho e silencioso já havia matado 15 mil pessoas.

Antes do fim do filme, o espectador descobre que o salvador, na verdade, era um prato feito para os planos de expansão do inimigo. Um daqueles plot twist que irrita qualquer pretenso roteirista.

Numa das cenas, os cidadãos da história se trancam em casa com medo de serem alvejados. O comandante, inebriado, convence seu general e os compatriotas a saírem do abrigo porque o conflito era conversinha e estava no finzinho. Que quem tivesse força, foco e fé não seria vitimado.

Para garantir adeptos, prometeu a todos um remédio milagroso que fez meio mundo acreditar na imortalidade e andar em fila indiana em direção ao abate. Um remake sem vergonha do flautista de Hamelin para tempos modernos.

A certa altura do filme, o protagonista é levado para uma comissão e passa a ser inquirido sobre o que fez (ou não fez) para que, ao deixar o posto, menos de um ano depois, o número de vítimas tenha se multiplicado até chegar a quase 300 mil.

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Entre cortes de flashback e passagens do presente, uma frase definiu o julgamento: quando o militar é perguntado o que explica a sua saída do posto.

“Missão cumprida”.

De bate-pronto, a resposta trazia mais revelações do que aparentava.

Naquela montanha de convicção e autoestima, era possível encontrar todo tipo de elemento rochoso. Menos indícios de remorso.

Dali em diante, tudo o que o personagem expôs passou a ser alinhavado numa estrutura narrativa ainda a ser documentada, checada, confrontada. Um tédio.

Houve quem elogiasse a postura firme das respostas, que não deixavam sinal de hesitação. Como um sujeito autômato desses imaginados por Philip K. Dick.

Basta falar com firmeza, sem corar, e não dar abertura para dúvidas. Isso é para os fracos.

Sondas, dessas que enviamos para outros planetas, teriam dificuldades para circular em volta daquele assento e encontrar sinal de vida.

Ao fim da sessão, fariam bem os senadores se botassem para tocar "Senhor Cidadão”, de Tom Zé.

Ali estão as perguntas que interessam.

Do senhor cidadão queremos saber com quantos quilos de medo se faz uma tradição. Com quantas mortes no peito se faz a seriedade. E se a tesoura do cabelo também corta a crueldade.

Os versos são uma prévia do relatório final: “Senhor cidadão, eu e você, temos coisas até parecidas. Por exemplo, nossos dentes. Da mesma cor, do mesmo barro. Enquanto os meus guardam sorrisos, os teus não sabem senão morder. Ô, cidadão. Que vida amarga.”

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