Marília Mendonça e a sina de um país que só se reconhece no luto

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A fan of Brazilian singer Marilia Mendonca holds up a CD while awaiting her wake at Arena Goiania sports centre, in Goiania, state of Goias, Brazil, November 6, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino
A fan of Brazilian singer Marilia Mendonca holds up a CD while awaiting her wake at Arena Goiania sports centre, in Goiania, state of Goias, Brazil, November 6, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino

O Brasil, diverso e dividido, de vez em quando se reencontra no luto.

Foi assim em 1º de Maio de 1994, quando Ayrton Senna entrou e nunca mais saiu na curva Tamburello, em Ímola, na Itália. O país inteiro parou, chorou e se despediu.

O mesmo ocorreu com a morte precoce dos Mamonas Assassinas. Ou dos heróis da Chapecoense, debutantes em uma final de Copa Sul-americana que não completaram os 90 minutos finais da grande decisão.

Nossos ídolos não morrem de velhice, como mostrava, no tempo de nossos avós, o fim trágico de Francisco Alves, o Rei da Voz, calada em um acidente de automóvel na Via Dutra.

O acidente aéreo que vitimou Marília Mendonça, o piloto, o copiloto e dois integrantes de sua equipe, entre eles seu tio e produtor, tem todos os elementos das grandes tragédias.

Ela tinha apenas 26 anos e uma estrada inteira a percorrer. Essa estrada era refletida por seus óculos escuros enquanto telefonava para seus fãs na manhã de sexta-feira 5. 

Horas antes, ela falou sobre passado e futuro com o amigo e —dizem as boas e as más línguas — novo namorado. Ele a deixou na academia, onde não largou do celular nem mesmo para trollar alguns amigos, flagrados em momento de estafa após os exercícios.

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No caminho de volta, ela anunciou o lançamento do clipe de sua nova música, “Fã Clube”, gravada com Maiara e Maraísa como parte do projeto “Patroas”. Ela ainda brincou: “para quem fala que Marília Mendonça não tem música sobre amores que dão certo, tá aí”. Ela ainda perguntou, em tom de desafio: "quer coisa mais linda do que falar que o seu coração fez um fã clube só para a pessoa amada?"

Até sexta-feira podia ter. Não tem mais.

Na cena seguinte, já com a roupa a caminho do avião, a cantora e compositora registrou o momento em que telefonou aleatoriamente para quatro integrantes de seu imenso fã clube. Ela estava com os óculos escuros, que refletia o caminho captado pela lente do smartphone, brincos de pérola, batom vermelho e vestia uma blusa quadriculada. Quando a pessoa do outro lado atendia, perguntava se ela sabia com quem estava falando —não como o tom de carteirada supostamente embutida na frase, mas como um cartão de boas-vindas e as mãos estendidas pela amizade.

“Vaaaaaaalha, Marília Mendonça”, respondeu uma fã.

Outro fã, que mal acabara de acordar, não mostrou a mesma empolgação. Parecia não saber onde estava nem o que acontecia. A ele a cantora disse antes de desligar: “amo você”.

Marília não teve tempo de cumprir a promessa de telefonar para outros fãs que mandassem para ela prints assistindo ao clipe recém-lançado, como prometera.

Nas análises de quem acompanhava sua trajetória, essa interação com o público é quase sempre apontada como uma das razões para o fenômeno que despontou para a música e cravou seu nome na história.

No curto período de seu reinado, composto por uma trilha sonora do que se convencionou a chamar de “sofrência” ou “feminejo”, Marília deixou evidente, para parte do país, que havia um eixo deslocado no país registrado em notas e melodias a partir de Copacabana ou Ipanema. 

Rio e São Paulo são ainda, e serão por muito tempo, as grandes metrópoles do país, e onde tendências se formam e se dissipam, mas os novos fenômenos populares, de massa, nascem também no coração do país. 

Como tantos conterrâneos, que já haviam saído do interior do país rumo às capitais, Marília, embora nascida em Cristianópolis, município goiano de 3 mil habitantes, cresceu e morou, até o fim da vida, em Goiânia, espécie de centro desse novo eixo de um país que cresce e mostra a cara. Talvez como resultado, hoje consolidado, do deslocamento do eixo do desenvolvimento contido ainda nos planos de JK para o Planalto Central, já no fim dos anos 1950. E que tem nas bordas da fronteira agrícola uma mola propulsora.

Em suas músicas um Brasil imenso, que sofre e se arrebenta em relacionamentos tortuosos, de pactos frágeis, às escondidas, ganhou luz. E identificação. Seja como a mulher que despacha o encosto para a casa do amante e avisa que agora ele não tem hora de ir embora, ele vai ficar, seja como a amante que se desculpa e aceita o preço que é não ser amada “de verdade”.

Parte significativa desse país, isolada durante mais de um ano e meio de pandemia, se preparava para se reencontrar nos shows que a cantora faria Brasil adentro. Por ironia trágica, esse país contraído, mas nunca silenciado, se reencontrou de fato, mas para se despedir. Cantando, como sempre.

Nas sobras de ressentimento do antigo centro, deslocado de sua hegemonia do dito bom gosto, a temática sertaneja é tratada como mera “dor de corno”, uma dor menor do qual devotamos apenas a vergonha —por sofrer e não querer sofrer ou por cantar o que se quer calar.

Marília cantou a plenos pulmões. O poder libertador dessa postura é ainda um legado a ser dimensionado, mas que já aparece aqui e ali em testemunhos de seu imenso fã clube que converte agora a admiração em devoção.

Quem a conhecia chora. Quem não a conhecia, e por alguma razão fez questão de mostrar sua desconexão nas redes, se assombra. Sim, todo mundo vai sofrer —porque esse país que se aparta e se orgulha de viver apartado se encontra, mesmo quando não quer, no luto. O fã clube certamente ganhará novos integrantes. O fenômeno vivo agora é lenda.

Entre sexta e sábado, Marília Mendonça se tornou a cantora mais ouvida do mundo, segundo o Spotify, a plataforma de streaming de música mais ouvida. Até então ela tinha 20 músicas no top 2000 da companhia. No domingo, já eram 74. A principal delas tem o simbólico título de “Esqueça-me se for capaz”.

Marília emplacou ainda três canções na lista das 200 músicas mais ouvidas na plataforma em todo o mundo. Ninguém tocou mais do que ela no sábado. Foram 28,6 milhões de reproduções no total, de acordo com um levantamento do jornal O Globo. Ficou à frente até mesmo de Taylor Swift.

No mesmo fim de semana, uma parte gigantesca do Brasil cantou e outro se descobriu na mesma música. Uns se despediam de sua rainha. Outros se perguntavam onde estavam enquanto um reinado se consolidava. E se assombraram com o que descobriram. 

Deram assim ares de profecia à canção que dizia: "nunca esquecerão. Nunca".

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