Cronologia dos distúrbios sociais no Chile

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Manifestantes durante um protesto contra o governo e a comemoração do aniversário da morte do mapuche Camilo Catrillanca com um tiro disparado pela Polícia, em Santiago, 14 de novembro de 2019

Depois de 29 dias de distúrbios, protestos multitudinários, saques e incêndios, o Congresso chileno alcançou um acordo histórico para convocar um plebiscito, destinado a redigir uma nova Constituição que substitua a vigente desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990)

Confira abaixo a cronologia da convulsão social no Chile, que começou em meados de outubro.

- Confrontos violentos -

Na sexta-feira, 18 de outubro, o caos explode na capital com confrontos, incêndios e ataques ao metrô, em repúdio ao aumento do bilhete, que passou de 800 para 830 pesos (depois de outro aumento de 20 pesos em janeiro), que forçou o fechamento de todas as estações.

O prédio da empresa de energia elétrica ENEL e uma filial do Banco Chile, ambos no centro da capital, são incendiados, assim como várias estações de metrô, enquanto confrontos entre manifestantes e policiais aconteciam em diferentes partes da cidade.

À noite, o presidente conservador Sebastián Piñera decreta estado de emergência em Santiago e confia a um militar, o general Janvier Iturriaga, a responsabilidade de garantir a segurança pública.

- Toque de recolher -

No dia 19, milhares de pessoas protestam contra injustiças sociais em Santiago e entram em confronto com as forças da ordem. Outras manifestações ocorreram em grandes cidades, como Valparaíso e Viña del Mar. Pela primeira vez desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, milhares de militares foram enviados às ruas e é decretado toque de recolher.

No porto de Valparaíso, dezenas de manifestantes incendiaram o edifício do "El Mercurio" - o jornal mais antigo em circulação no Chile.

- Chile "em guerra" -

No dia 20, os tumultos continuam, com novos confrontos no centro de Santiago e vandalismo em diferentes bairros.

Pelo menos 78 estações de metrô sofreram depredações. Algumas delas foram completamente destruídas.

O estado de emergência se estende a nove das 16 regiões do país, e um toque de recolher é anunciado para a noite.

"Estamos em guerra contra um inimigo poderoso e implacável, que não respeita nada, nem ninguém, e está disposto a usar a violência e o crime sem qualquer limite", diz Piñera.

- "Fora, militares" -

No dia 21, as manifestações recomeçam aos gritos de "Fora, militares".

Quase todas as escolas e universidades da capital suspendem as aulas. O transporte público segue ainda bastante alterado. Longas filas se formaram em postos de gasolina e supermercados.

Piñera convoca uma reunião para o dia seguinte com os partidos políticos, para tentar alcançar um "pacto social".

- Medidas sociais sem efeito -

No dia 22, apesar do pedido de "perdão" do presidente e do anúncio de um pacote de medidas sociais – aumento das pensões mais baixas, congelamento das tarifas de eletricidade –, a insatisfação social não diminui. Os principais sindicatos e movimentos sociais do país convocaram uma greve geral.

- A marca do milhão -

No dia 25, concentram-se em Santiago 1,2 milhão de pessoas para uma mobilização histórica, a de maior convocação nos últimos 30 anos.

No dia 27, Piñera anuncia a suspensão do estado de emergência que vigorava há oito dias e tira os militares das ruas.

O número de mortos chega a 20, cinco delas vítimas de disparos das forças de ordem. Uma missão das Nações Unidas investiga denúncias de violações dos direitos humanos durante a onda de violência.

No dia 28, o presidente troca oito de seus 24 ministros, inclusive seu chefe de gabinete, Andrés Chadwick.

- Cancelamento da Apec e da COP25 -

Em 30 de outubro, em meio aos protestos, Piñera cancela a organização do encontro de líderes do fórum econômico Ásia-Pacífico (Apec) e da cúpula mundial das Nações Unidas sobre o Clima (COP25), dois encontros que colocariam o Chile em evidência para o mundo.

- Piñera descarta renúncia -

Em 6 de novembro, em entrevista à BBC, Piñera diz que vai governar até o último dia e descarta renunciar.

Nesse mesmo dia, os protestos chegam aos bairros de Providencia e Vitacura, no leste de Santiago, coração financeiro do país.

No dia 7, Piñera eleva o tom e anuncia uma série de projetos para aumentar as medidas de controle da ordem pública.

No dia 9, o presidente se abre pela primeira vez à reforma da Constituição.

- Violência extrema retorna –

Em 12 de novembro, juntamente a uma convocação de greve geral, voltam a estourar confrontos violentos, saques e incêndios. Uma igreja patrimonial do centro de Santiago é atacada e registram-se duas novas vítimas fatais, elevando o total de mortos a 22. Em uma mensagem aguardada, Piñera propõe um acordo pela paz e se abstém de levar os militares de volta às ruas.

No dia seguinte, o Banco Central chileno anuncia uma injeção de 4 bilhões de dólares para impulsionar o peso, que chega ao seu mínimo histórico, perto das 800 unidades por dólar.

- Histórica convocação ao plebiscito -

O Congresso alcança um acordo apoiado por todos os grupos políticos, tanto de esquerda quanto de direita, com exceção do Partido Comunista, e anuncia uma convocação a um plebiscito em abril de 2020 que consulte sobre uma nova Constituição que substitua a vigente desde a ditadura de Pinochet.