'Cruz Verde', a brigada dos primeiros socorros nos protestos na Venezuela

Por Esteban ROJAS
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Homem ferido é atendido durante protesto contra o presidente Nicolás Maduro, em Caracas, em 4 de abril de 2017

Um jovem com um ferimento na mão esquerda, e que sangra muito, é enfaixado com rapidez pelos médicos e estudantes de medicina que abrem passagem em meio às bombas de gás lacrimogêneo e pedras durante um protesto em Caracas.

Protegidos por capacetes brancos com uma cruz verde e máscaras antigases, se identificam como "Primeiros Socorros UCV" e socorrem feridos durante as manifestações contra o governo de Nicolás Maduro, que em quase um mês deixaram mais de duas dezenas de mortos e centenas de feridos em todo o país.

"Nos organizamos para ajudar as pessoas. Atendemos todos os que precisarem de primeiros socorros, sejam manifestantes, policiais ou militares", disse Dana Chocrón, estudante de 22 anos da Universidade Central da Venezuela (UCV), enquanto jovens com rostos cobertos entravam em confronto com as forças de segurança no leste da capital venezuelana.

Chocrón e seus companheiros caminham em fila, tentando permanecer sempre unidos em meio ao caos dos distúrbios para responder como equipe quando chegar a hora.

E agem rapidamente ao atender o jovem que cortou a mão ao pegar do chão um pedaço afiado de cerâmica que caiu da fachada de um edifício para lançá-lo contra militares e policiais, que dispersavam com gases e balas de borracha estradas bloqueadas com barricadas de lixo.

"Estou muito agradecido", disse depois de ter sido atendido, sem querer se identificar.

A iniciativa nasceu na UCV, principal universidade da Venezuela, durante manifestações no início de 2014, que terminaram com 43 mortos e com o líder opositor Leopoldo López condenado à prisão, acusado de incitar a violência.

- "É o que sabemos fazer" -

O "Primeiros Socorros UCV" é coordenado por duas estudantes de 22 anos, Federica Dávila e Daniella Liendo, que se reencontraram como manifestantes nos protestos desencadeados no dia 1º de abril depois que o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) assumiu temporariamente as funções do Parlamento, único poder sob controle da oposição.

"Nós nos reencontramos no primeiro protesto após as sentenças do TSJ e percebemos que não era nosso trabalho estar protestando, mas prestando ajuda médica, que é o que sabemos fazer e que é muito mais útil", relatou Liendo.

O grupo, chamado popularmente de "Cruz Verde", foi reativado após perder força depois de 2014 e está crescendo, somando voluntários de outras universidades. Hoje conta com 120 membros.

Nos dias de protesto, seus membros se reúnem cedo para planejar como se mobilizarão, se dividem em grupos ('Vermelho', 'Laranja' e 'Verde') e avançam com mochilas carregadas com ataduras, gaze, água, soluções antibacterianas e outros medicamentos.

O grupo 'Vermelho' está na linha de frente, fornecendo o atendimento primário, o 'Laranja' recebe feridos que requerem mais cuidado e o 'Verde' - integrado por médicos especialistas - permanece a uma distância prudente das marchas para auxiliar nos casos de maior gravidade e, se necessário, enviar os feridos a centros de saúde.

Seus insumos são coletados em doações organizadas através das redes sociais.

- "Nem cor política, nem uniforme" -

Setores do chavismo os condenam. Pedro Carvajalino, um dos apresentadores de um programa noturno na rede de televisão estatal VTV, os classificou de "grupo paramilitar" ao compará-los a organizações que apoiam combatentes armados no Oriente Médio.

O "Primeiros Socorros UCV" respondeu com um comunicado divulgado por organizações de direitos humanos, no qual expressou "rejeição e indignação" pela acusação e advertiu que ela colocava em risco um "trabalho voluntário que não distingue cor política ou uniforme".

Um dos médicos, Oscar Noya, foi preso no dia 20 de abril no leste de Caracas enquanto socorria manifestantes. Foi libertado horas depois.

Mas os voluntários avisam que continuarão seu trabalho. Ao chegar às marchas, são recebidos com aplausos e felicitações.

"O carinho e o calor que o venezuelano transmite é o que nos dá forças para seguir", disse Davila.