Cuba fecha cerco à imprensa profissional na véspera de protestos contra regime

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GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - O jornalista cubano Abraham Jiménez Enoa saia de sua casa na capital Havana, na manhã deste domingo (14), para colocar o lixo para fora quando percebeu que o local estava cercado por policiais. Os agentes o informaram sobre uma suposta ordem de prisão domiciliar, de modo que Jiménez, uma das principais vozes do jornalismo independente no país, não pode sair de casa.

O cerco à imprensa na ilha caribenha se acirrou nos últimos dias diante da proximidade dos protestos contra o regime liderado por Miguel Díaz-Canel, marcados para esta segunda-feira (14). Abraham, colunista do jornal americano The Washington Post, é apenas um exemplo da tentativa de silenciamento das vozes dissidentes.

Neste sábado (13), correspondentes da agência de notícias Efe no país afirmaram que o governo cubano havia retirado as credenciais de todos eles em Havana. Atahualpa Amerise, coordenador da sucursal, relatou em uma rede social que sua credencial fora tirada meses antes, em agosto. "As autoridades cubanas argumentaram que a Efe havia colocado sua linha editorial a serviço da contrarrevolução".

Segundo o jornalista, nenhuma motivação foi dada para a retirada das credenciais dos demais repórteres. Ele credita a medida, porém, à cobertura feita pela agência espanhola dos protestos de 11 de julho, quando milhares de cubanos saíram às ruas, nos maiores atos populares em décadas na ilha.

Já neste domingo (14), a Efe informou que dois correspondentes da agência tiveram as credenciais devolvidas após conversas entre a embaixada da Espanha e o Ministério das Relações Exteriores de Cuba. Os outros quatro funcionários do local, incluindo Amerise, seguem sem permissão para trabalhar.

Nas redes sociais, jornalistas continuam relatando as medidas tomadas pelo regime. Abraham, em uma sequência de tuítes, disse que agentes disfarçados de civis monitoram as ruas de Havana e que, desde sábado, vários ativistas e jornalistas estão sitiados para que não possam sair de suas residências e cobrir os protestos.

Em outra postagem, relata que a internet no país já começa a falhar -nas manifestações do dia 11, convocadas em grande parte pelas redes sociais, a internet foi cortada na ilha.

Segundo levantamento mais recente da ONG local Cubalex, ao menos 1.270 pessoas, com menores de idade entre elas, foram detidas por terem participado das manifestações em 11 de julho e os processos apresentados contra os manifestantes incluem pedidos de mais de 30 anos de prisão.

Para este domingo, estava previsto um protesto do dramaturgo Yunior García, líder do movimento Archipiélago, que organiza a convocação para a marcha pacífica de segunda. Ele caminharia pelas ruas de Havana, sozinho, com rosas brancas. Ao longo do dia, relatos nas redes sociais informavam que a casa do artista, no bairro La Coronela, estava cercada por policiais disfarçados.

"Minha casa amanheceu sitiada, todo o local está rodeado de agentes de segurança do Estado vestidos de civis e se fazendo passar pelo povo", disse Yunior em uma transmissão no Facebook pela manhã. Uma equipe da agência de notícias AFP constatou que sua rua estava bloqueada por um grupo de policiais.

Os oficiais subiram em telhados e colocaram grandes bandeiras de Cuba no local. Da janela, no terceiro andar do prédio, Yunior mostrava uma rosa branca. "Estou pronto, como podem ver, vestido de branco com uma rosa e, quando for o momento, sairei de casa."

Os Estados Unidos, que há seis décadas impõem um bloqueio econômico à ilha, instaram o governo a permitir a livre manifestação dos cubanos. Em nota, o secretário de Estado Antony Blinken pediu que a comunicação e a conexão à internet sejam mantidas para permitir a troca de informações entre as pessoas.

Em Miami, polo de cubanos e de lobby contra o regime comunista da ilha, cerca de 200 pessoas se manifestaram neste domingo em apoio aos protestos de segunda. Os manifestantes carregavam cartazes com dizeres como "abaixo à ditadura" e "liberdade".

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