Cuba tem falta de internet um dia após manifestações

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Cuban exiles rally at Versailles Restaurant in Miami's Little Havana neighborhood in support of protesters in Cuba, Monday, July 12, 2021, in Miami. Sunday's protests in Cuba marked some of the biggest displays of antigovernment sentiment in the tightly controlled country in years. (AP Photo/Marta Lavandier)
Protesto em Miami na última segunda-feira (12). Foto: AP Photo/Marta Lavandier
  • Protestos foram chamados pelas redes sociais

  • Organizações afirma que conexão foi derrubada pelo governo

  • Presidente afirma que influenciadores digitais não se preocupam com população

Um dia após protestos tomarem diversas cidades de Cuba e Miami, o país teve falta de internet em quase 50 pontos da ilha, de acordo com monitoramento do NetBlocks, organização que monitora a internet livre ao redor do mundo. Na segunda-feira (12), plataformas como WhatsApp, Facebook, Instagram e Telegram sofreram instabilidade.

As manifestações do fim de semana foram convocadas nas redes sociais, em grande parte por influenciadores digitais e youtubers críticos ao governo. Na manhã de ontem, o presidente Miguel Díaz-Canel deu um pronunciamento e afirmou que "se as pessoas ouvirem esses youtubers, estarão apoiando uma mudança de regime que trará um sistema que não terá preocupação com o bem-estar da população".

A internet móvel chegou à Cuba apenas em 2018 e é administrada por uma empresa estatal de comunicação, a Etecsa. Para ampliar seu acesso, muitos cubanos utilizam VPNs, ferramenta que simula o acesso à internet a partir de outra parte do mundo.

Com isso, muitos puderam seguir usando a internet e denunciam a falta de acesso na ilha, que afirmam estar sendo censurada pelo governo.

A agência de notícias Associated Press afirmou também que há corte de energia na capital Havana e em outras cidades.

Os protestos de domingo

As manifestações de domingo foram as maiores em muito tempo na ilha. Pessoas se reuniram sob gritos de “liberdade” e “abaixo a ditadura”. Os manifestantes são motivados principalmente pela crise econômica e sanitária que enfrenta o país desde 2019, com o endurecimento do bloqueio econômico dos Estados Unidos, e por conta da pandemia de Covid-19.

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Forças de segurança foram enviadas para conter os protestos e houve pontos de tumulto e brigas, mas não há informações sobre feridos.

Em pronunciamento, o presidente Díaz-Canel afirmou que os atos foram realizados por “delinquentes” que "manipulam as emoções da população por meio das redes sociais". Ele disse também que "Se querem protestar pela falta de comida, que protestem contra o bloqueio, não contra o regime cubano".

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comentou os protestos: "Foram pedir, além de alimentos, eletricidade. Foram pedir... Pediram mais uma coisa. Por último, em quarto lugar, pediram liberdade. Sabe o que eles tiveram ontem? Borrachada, pancada e prisão"

Porque manifestantes estão insatisfeitos

Em 2020, o PIB cubano caiu 11%. Além disso, o país, que depende de importar 70% de tudo que consome, sofre com escassez, causada principalmente pelo fechamento das fronteiras por conta da pandemia e pelo bloqueio econômico norte-americano.

Entre os problemas que atingem a população está a falta de comida. A escassez levou o Estado a autorizar que camponeses matem vacas e bois para consumo próprio. No pedido ao governo pelo direito de abater o animal, é preciso declarar quanto leite a vaca já produziu e quantos quilos tem o boi.

Há também menos voos internacionais, o que diminuiu a entrada de dólares na ilha enviados por cubanos que vivem em outros países, em especial nos Estados Unidos. Segundo dados oficiais, 65% das famílias cubanas recebiam ajuda de parentes.

Outra perda econômica para o país foi na área do turismo, que é uma das principais fontes de recursos e responde por 10% do PIB do país, somando áreas relacionadas, como a gastronomia.

A produção de açúcar, outra atividade econômica essencial para Cuba, foi afetada por uma grande seca que se agrava há anos por conta de alterações climáticas.

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, que também é líder do Partido Comunista Cubano, se pronunciou em rede nacional de televisão e rádio, junto com outros membros do governo, sobre os protestos.

Segundo o presidente, grande parte das dificuldades enfrentadas pelos cubanos são consequência do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos. Este bloqueio, lembrou Díaz-Canel, ficou mais duro em 2019, depois de uma decisão do ex-presidente Donald Trump e que ainda não foi revista pelo atual presidente Joe Biden.

“Se querem ter um gesto com Cuba, se de verdade se preocupam, abram o bloqueio e vamos ver como tocamos”, declarou.

Pandemia

Além dos problemas econômicos, a população da ilha enfrenta dificuldades com a pandemia de coronavírus. Mesmo com um sistema de saúde público e universal, faltam hospitais para atender todos os doentes.

Mesmo com as dificuldades, Cuba também está desenvolvendo sua própria vacina, a Soberana, que apresentou bons resultados em testes clínicos.

Os protestos aconteceram um dia depois de o governo ter negado um pedido de dissidentes para criar um "corredor humanitário", viabilizando a chegada de remédios.

O Ministério das Relações Exteriores emitiu um comunicado que reconhece a crise sanitária do país, mas afirmou que já estão sendo realizados esforços receber auxílio externo.

Em uma publicação nas redes sociais, o chanceler Bruno Rodríguez afirmou que "Cuba recebeu doações de insumos médicos de 20 países, e outras 12 estão em processo de envio".

No domingo dos protestos, Cuba registrou um recorde de novos casos e mortes por Covid-19. Foram 6.923 casos e 47 mortes em 24 horas. No total, o país teve 238.491 casos e 1.537 mortes, ou 135,7 mortes para cada um milhão de habitantes. No Brasil, são 2.509 mortes por milhão de pessoas, e nos Estados Unidos, 1.834.

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