'A culpa é muito comum, e mudar isso na cabeça da vítima leva tempo', diz psicóloga

·5 minuto de leitura

Medo,nojo e culpa. Sintomas depressivos, ansiosos e problemas para dormir. Esses sãoalguns dos efeitos emocionais que uma vítima de crime de importunação ou deassédio sexual nas ruas pode ter. Uma mulher que tem seu corpo violado por umdesconhecido pode desenvolver sinais e sintomas logo após o episódio ou elespodem aparecer até meses depois.

Essasmanifestações emocionais após um trauma são observadas cotidianamente pelapsicóloga Pâmella Rossy, que faz atendimentos individuais no Núcleo de Defesados Direitos da Mulher vítima de violência de gênero (Nudem) da DefensoriaPública do Rio de Janeiro. Ela explica que, em seu trabalho, busca entendercomo a mulher está e, junto às defensoras públicas, pensam os melhores caminhosjurídicos e extrajurídicos para ela, considerando o que deseja “e dá conta”.

- Servítima de um crime de importunação ou assédio sexual afeta nossa autonia ealimenta o medo por sabermos que ainda não somos livres, que nossos corposainda são vistos pelos homens como objetos com os quais eles fazem o uso que bementenderem e que são alvos de toda e qualquer ação violenta - afirma Rossy.

Quais os efeitos emocionais que umamulher pode ter após ser vítima de importunação ou assédio sexual no ambientepúblico?

Cadamulher vai reagir de um jeito. Ser importunada sexualmente é um trauma, e cadauma significa de uma forma. Mas há algumas reações comuns, como odesenvolvimento do transtorno do estresse pós-traumático, que gera um distúrbiode ansiedade em pessoas que passam por vivências traumáticas. Elas podem tambémter sintomas depressivos, ansiosos, transtornos alimentares, distúrbios dehumor e sexuais, com dificuldade para se relacionar com o parceiro ou comfuturos parceiros. É importante entender que ter sintomas depressivos édiferente de ter o transtorno.

Essas dificuldades se manifestam logoapós o trauma?

Ossinais e sintomas podem ser desenvolvidos após a vivência do abuso ou ao longodo tempo. A mulher pode não falar sobre o que aconteceu, achar que não estásentindo nada e isso é um mecanismo de defesa que ela cria para lidar com aangústia e seguir a vida. Mas dali a um tempo pode ter sintomas de ansiedade,fobia social ou evitar a vida pública.

Otranstorno que se vê imediatamente é o do estresse pós-traumático, que secaracteriza pela rapidez com que surge. Existem outros sinais rápidos, como umsentimento de nojo em relação ao próprio corpo. Nos casos em que houveejaculação no corpo dela, a vítima em geral relata lavar essa parteincessantemente e continuar com essa sensação de sujeira.

Diantedo trauma, ela pode criar estratégias para dar conta daquilo e seguir emfrente, como trocar o ônibus - se foi importunada nele - por outro meio detransporte ou evitar o caminho onde foi violentada. Mas ela pode também entrarem um mecanismo de total reclusão e passar a ver na rua um ambiente hostil.Esses são os casos mais graves de fobia que vemos.

Você falou sobre a sensação de nojo.A vergonha também é um sentimento que as acompanha?

No casoda importunação em uma via pública deserta, as vítimas tendem a não revelar ocrime por ele ter ocorrido num contexto onde havia poucas testemunhas ounenhuma. Já nos casos em espaços com maior movimento, elas tendem a anunciar ocrime e pedir ajuda. Nesses espaços a sensação de paralisação é menor. Então, épossível que gritem, acusem, o que causa uma comoção social que ajuda a lidarcom a vergonha. Quando o entorno a acolhe no seu pedido de ajuda, isso diz praela: “você não está errada, errado é quem está te abusando”.

A culpaé muito comum. A mulher passa a questionar a sua conduta, porque estava naquelelugar àquela hora, se a roupa deu a entender para o abusador que ele poderiaavançar e tomar o seu copo como dele. Mudar isso na cabeça da vítima leva tempoe depende de profissionais especializados por que a culpabilização da vítimafaz parte da nossa sociedade, do estereótipo de gênero e do machismo estruturalque vivemos.

Secrescemos ouvindo que a mulher deve se vestir de forma recatada, quando ela nãoestá assim, inconscientemente imputa a si mesma uma culpa, a ideia de que elaprovocou o comportamento do agressor.

Quando a mulher percebe que osefeitos emocionais após o trauma passaram do limite e o que é preciso fazer?

Olimite é quando o sentimento, a dor e o trauma atrapalham o cotidiano. Se antesa pessoa era produtiva no trabalho e percebe que isso está afetado, que aconcentração diminuiu, que está com problemas no sono ou com oscilaçõesrecorrentes de humor, é o momento de pedir ajuda.

Paraisso, ela pode buscar os serviços públicos de saúde, na atenção básica, nasclínicas da família e nos centros de atendimento especializados. Há a opção debuscar atendimento psicológico no serviço particular em busca de psicólogos.Provavelmente essa mulher vai precisar passar por uma psicoterapia. Quandofalamos em trauma, precisamos tratar de forma contínua.

Éimportante ter uma rede de apoio para que não guarde essa vivência. Compartilhar dessas emoções ajuda no processode cura. Falar auxilia na elaboração daquilo que está passando e fortalece amulher quando encontra escuta no outro.

Qual o papel da família nesse momento?

Éfundamental. Muitas vítimas temem - e são - descredibilizadas socialmente aobuscar ajuda e denunciar o agressor. O apoio da família a fortalece paracontinuar o processo, seja o de autocuidado, se não quiser denunciar, ou o daação judicial. A família tem o lugar de acolher.

E como fica a relação com o parceiro?

Eletambém tem o papel de acolher e respeitar o tempo dela. É comum que elesdemonstrem revolta e queiram tomar a decisão de denunciar no lugar delas. Sefazem isso, também a estão violando a mulher porque não estão respeitando otempo dela.

Épreciso apoiá-la. Isso pode ser feito, por exemplo, a acompanhando no trajetoonde ela sofreu o abuso. Muitas mulheres só tem uma alternativa para sair delocomover e o companheiro pode dar essa segurança física e emocional. Alémdisso, ele nunca deve julgar, assim como ninguém deve.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos