Atores e autoridades cubanas se reúnem após mobilização em frente ao Ministério da Cultura

Carlos BATISTA
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Um grupo de atores se reuniu nesta terça-feira com autoridades da área da Cultura em Cuba, dois meses após uma manifestação inédita em Havana protagonizada por mais de 300 artistas para pedir liberdade de expressão. Trata-se do capítulo mais recente da relação entre o setor cultural e a revolução socialista.

Após a interrupção no diálogo, uma comissão de 10 representantes se reuniu hoje por cerca de cinco horas com funcionários do Ministério da Cultura, em nome de 231 atores, para discutir o pedido de criação da Associação Nacional de Atores de Cuba. Os jovens atores não quiseram comentar o resultado da conversa antes de informá-lo a seus colegas. "A princípio, não nos fecharam as portas", declarou Reinier Díaz, um dos atores participantes.

Tudo começou no último 27 de novembro, quando 300 artistas permaneceram por cerca de 15 horas em frente ao Ministério da Cultura, uma mobilização sem precedentes na história recente da ilha. Mas as autoridades, que enfrentam o reforço do bloqueio dos Estados Unidos e a pressão dos anticastristas de Miami, disseram que tudo era parte de um "golpe brando" e responderam disparando para todos os lados.

"Fomos atacados com tudo, provocações e atitudes mercenárias ligadas a greves falsas de supostos artistas", disse o presidente, Miguel Díaz-Canel, no final do ano.

Nesse ambiente, "repete-se o repúdio e o uso da palavra 'mercenário' para quem pensa diferente", disse à AFP María Isabel Alonso, especialista em cultura cubana do St. Joseph's College de Nova York. Também se tornaram comuns "As prisões domiciliares como uma variação das detenções".

O 27N "foi uma manifestação política, mas se manifestou como um ato poético, sem violência, com canções, poemas, sensibilidade de pensamento", disse Fernando Pérez, considerado o melhor cineasta cubano vivo e mediador entre manifestantes e autoridades.

"Esses jovens prenunciaram a Cuba que tantos cubanos sonharam e ainda sonham", insiste o cineasta septuagenário, mas "não me iludo: as mentalidades não mudam de um dia para o outro e voltei a confirmar que o caminho é longo". Foi um grupo heterogêneo com várias reivindicações em que prevaleceu a "liberdade de expressão para espaços independentes", acrescentou.

- Revolucionário e heterossexual -

Desde que Fidel Castro definiu a política cultural de sua revolução em junho de 1961 no discurso "Palavras aos intelectuais", não faltaram desencontros entre artistas e autoridades.

"Dentro da revolução, tudo; contra a revolução, nada" foi a orientação que Castro deu aos artistas, embora tenha suscitado interpretações diversas.

As desavenças começaram na década de 1960, mas ganharam força entre 1971 e 1976, no chamado "Quinquênio cinza", lembrado por muitos como um longo período de escuridão.

Essa política adotada sob a influência do realismo socialista soviético gerou expurgos entre artistas e intelectuais que não atendiam aos "parâmetros", aprovados em congresso em 1971, de serem revolucionários e heterossexuais.

Outros artistas foram "punidos" por "problemas ideológicos" e enviados para trabalhar na agricultura ou construção.

Escritores paradigmáticos como José Lezama Lima e Virgilio Piñera foram condenados ao ostracismo e suas obras retiradas por anos de livrarias e teatros.

Pelo menos 23 outros poetas não conseguiram publicar livros nesse período de cinco anos, segundo o ensaísta Arturo Arango.

- 'Paradoxo' -

Para María Isabel Alfonso há "um paradoxo" que é um fator comum em todos esses processos, porque "da mesma forma que a arte e a cultura são promovidas, grupos de poder, institucionais, culturais - não apenas políticos - as dinamitam, ao ditar o que deve ser a arte dentro da revolução".

Mas o 27N marcou diferenças não apenas por causa da longa manifestação diante do Ministério da Cultura, mas porque foi uma chamada espontânea nas redes sociais que intrigou algumas autoridades.

"Os jovens encontraram nas redes um meio de se exprimir livremente e perante esta dinâmica fluida, viva e com o vento a seu favor, os meios de comunicação estatais estão, para não dizer de forma derrotista, em clara desvantagem", disse Perez.

Mas também é nova "a força" de artistas e intelectuais para exigir "legitimidade na criação independente e o fim da subjugação policial e do respeito aos seus direitos", acrescenta Alfonso. As autoridades "deveriam perceber que devem reformatar o disco de códigos e conteúdos. Devem parar de punir quem pensa diferente e abrir espaço para o diálogo", concluiu.

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