Cunha acabou, Dilma agoniza, Alckmin mostra os primeiros sintomas

Alex Antunes

arina

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Pesquisas recentes indicam que todos os grandes partidos têm perdido muita audiência entre os eleitores. Já no final de junho, o Datafolha indicava que os três principais partidos, o PT, o PMDB e o PSDB, tinham despencado para 20% ou pouco menos na percepção de “prestígio” do eleitorado, enquanto as rejeições disparavam, simultaneamente, para 38, 21 e 21%. O efeito gangorra entre PT e PSBD (assim como a usual habilidade do PMDB em se equilibrar entre os dois) foi substituído por uma onda de descrédito geral.

O Ibope, no começo deste mês, confirmou essa tendência. Respectivamente 40 e 30% (somando 70%) têm uma imagem desfavorável e muito desfavorável do PT; 36 e 14% (somando 50%) têm uma imagem desfavorável e muito desfavorável do PSDB; 37 e 13% (somando igualmente 50%) têm uma imagem desfavorável e muito desfavorável do PMDB. 45% dos eleitores pesquisados não simpatizam com partido nenhum.

Cada partido tem seus próprios vilões. Mas a tendência a ocorrerem “contaminações” cruzadas também tem se acentuado. Que o diga o PT. O custo para Lula de ter jogado todos os seus trunfos na reeleição de Dilma está saindo cada vez mais caro – para os dois. Evidentemente essas preferências (ou “memética”) têm muito de imponderável, de não totalmente equacionável pelo marketing político. Collor foi, em sua derrubada da presidência, um exemplo de mudança rápida de humor do eleitorado – o ex-herói (o “caçador de marajás”) deu uma guinada para vilão digna de novela da televisão. Evidentemente ele era culpado das acusações, mas o entusiasmo que tinha provocado em metade do eleitorado era totalmente irracional.

Já Lula mostrou-se muito mais longevo. Parecia ter uma “blindagem mágica”, desde que sobreviveu à breve janela de desencanto que sucedeu o mensalão – cerca de uma ou duas semanas de choque político em que o PSDB escolheu não tentar interromper seu governo, e esperar que ele “sangrasse” até o final do mandato (exatamente pela constatação de que o PT, que encarnou o combate contra Collor, não conseguiu capitalizar a vitória: Lula, nas primeiras eleições após a derrubada do alagoano, perdeu para Fernando Henrique). Lula não só deu a volta por cima, como adquiriu a aura de politicamente invencível.

No processo de reeleição de Dilma, Lula não teve um comportamento homogêneo. Poucas semanas antes do primeiro turno das eleições estava afastado dela; quase jogou a toalha. Só um ressurgimento quase espontâneo da militância, diante da ameaça de Aécio, levou Lula a se decidir a surfar a onda, e comandar a charanga. Mas a forçada de mão contra uma ex-petista, Marina, a chantagem política e a mentira programática vieram cobrar seu custo. Se no início do ciclo era Dilma que desgastava Lula, agora, quando as investigações apertam o ex-presidente, um derruba o outro.

No terreno do PMDB, a situação é um tanto diferente. Mesmo o eleitorado do partido sabe que ele é uma federação de interesses diversos, sem consistência ideológica. É por isso que as investigações contra Cunha não pesam tanto no clima contra Renan, e as investigações contra os dois não chegam a contaminar muito Temer. Curiosamente, a possibilidade do vice Temer vir a suceder Dilma obrigou o partido a fazer um movimento inédito, apresentando um documento com propostas econômicas chamado Uma Ponte Para o Futuro, buscando credenciar o partido (e o vice-presidente) junto aos agentes econômicos do país. O PMDB costuma se dedicar mais às costuras de bastidor. Mas este é um jogo complexo, de movimentos cuidadosos, para não precipitar nada.

Entretanto, o acordo entre Cunha e o PT sofreu um forte revés (esta semana o presidente da Câmara tinha passado a declarar que não examinará mais os pedidos de impeachment neste ano, e o partido prometeu ajudar a protelar o processo contra Cunha na comissão de ética – começando por seus três representantes não darem quórum à reunião de hoje). O plano de Cunha era atrapalhar a reunião (inclusive com o truque tosco de fazer demorar a liberação de uma sala), e abrir a sessão plenária cedo, o que impediria votações na comissão. Mas a estratégia, com a declaração da mesa da plenária de que a reunião da comissão não valia, fez explodir uma revolta.

A deputada Mara Gabrilli, do PSDB, fez um discurso emocional que lembrou outros momentos-chave da política recente, levando à queda de figuras importantes da republica. “O senhor nos chama de imbecis (…) Eu convido todos os deputados a saírem dessa sessão (…) O senhor está com medo? (…) Chega sr. Presidente, o senhor não consegue mais presidir. Levanta dessa cadeira, Eduardo Cunha”, disse ela. Cerca de cem deputados de vários partidos deram as costas à mesa, e se dirigiram à sala da comissão de ética (quando finalmente os três representantes petistas apareceram), para retomar a reunião informalmente.

Como lembra o colunista Fernando Rodrigues, em 2005 o então deputado Gabeira se dirigiu a Severino Cavalcanti em termos igualmente duros: “Sua presença na Presidência da Câmara é um desastre”, disse ele. Também naquele ano, Roberto Jefferson, num depoimento ao conselho de ética em que acusava José Dirceu e usava um termo ainda não-consagrado, mensalão, disse “Sai daí, Zé”. Dirceu logo depois abandonou o cargo de ministro da Casa Civil, e voltou à câmara para se defender – no que não teve grande sucesso, como sabemos. Os sinais de hoje são de que Cunha não só deu um tiro no pé com suas defesas precárias, como de que sepultou qualquer noção de que havia possibilidade de escapar ao processo de cassação. (Que Cunha é picareta, já era consenso.)

Mas, para Dilma, não é uma boa notícia. Se, num primeiro momento, a análise dos pedidos de impeachment parece mesmo afastada por hora, por outro lado a turbulência não facilita em nada para o governo passar suas políticas de ajuste. E, no limite, alimenta um clima de faxina política que certamente atinge o PT. O PSDB, no entanto, também não tem muito o que festejar. Não tem protagonismo no combate a Cunha, com quem estava acordado até outro dia, à espera do andamento do impeachment (esse protagonismo está na mão dos partidos pequenos mais aguerridos, como a Rede e o Psol – que continuam liderando as iniciativas para cassar o presidente da câmara).

E, principalmente, começou a sentir o desgaste em seu líder mais blindado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Parecia um lance do governo com algum potencial polêmico, mas não muito. A reforma escolar, que quer mudar estudantes e fechar escolas, acabou encontrando enorme resistência, e o surgimento de um movimento de estudantes, que já ocuparam cerca de 50 escolas, e contando (foto). Além de começar a despertar uma grande simpatia na sociedade, o movimento acontece entre um contingente de futuros eleitores e novos eleitores, que não convém afrontar, nessa época de redefinições políticas drásticas.

Ontem, quinta, na véspera do feriado, o secretário da educação de Alckmin propôs abrir um período de conversas, desde que haja a desocupação. Mas, com sua habilidade política, não parece razoável que o governador continue na linha do enfrentamento aberto (num primeiro momento, quando eram poucas as escolas ocupadas, foram pedidas reintegrações de posse, e a polícia militar foi mandada para pressionar as ocupações). No último grande ciclo de manifestações que enfrentou, em 2013 (sem contar as greves de professores, que derrotou), Alckmin conseguiu recuar na questão do aumento das passagens antes do prefeito petista, e se preservar bastante, na comparação com Haddad.

Era essa a pergunta que nos fazíamos: onde foi parar a energia das jornadas de 2013, depois que foram represadas para o processo eleitoral do ano passado? Em parte, reapareceram nas grandes manifestações anti-Dilma, mas só com um viés “de direita”. Nos últimos tempos, mobilizações como as de mulheres contra Cunha, e dos estudantes secundaristas contra Alckmin, parecem recuperar algo do espírito de 2013. E o governador Alckmin, uma “reserva política” nacional do PSDB, não parece mais estar tão seguro assim junto do eleitorado que até aqui o sustentou, com folgas. Começa a escorregar para o papel de vilão que o eleitorado de esquerda sempre lhe imputou, mas (até aqui) sem o menor efeito eleitoral.

A proposta reforma do ensino nem é totalmente desinteligente, ou injustificável em alguns de seus conceitos. Mas pegou numa veia afetiva, a da relação dos estudantes com suas escolas, que abalou a relação. Cunha acabou; Dilma agoniza; e Alckmin mostra os primeiros sintomas. Não deve estar se sentindo muito bem.

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