Na véspera de encontro ambiental, clima para o país nunca foi tão ruim

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Aerial view showing smoke from a fire billowing from the Amazon rainforest in Oiapoque, Amapa state, Brazil, on the border with French Guiana, on October 31, 2020, where members of the Brazilian Armed Forces are conducting a military exercise as part of the Agata operation. - The Agata operation carried out by the Armed Forces, Federal Police, Federal Revenue and the Brazilian Institute for the Environment and Renewable Natural Resources (IBAMA), consists in combating drug and arms trafficking, smuggling, illegal mining and fishing, boat theft and irregular transportation of wood and fuel, in the states of Para and Amapa. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Registro de queimadas no Amapá feito em outubro de 2020. Foto: Nelson Almeida / AFP) (via Getty Images)

Alexandre Saraiva, então chefe da Polícia Federal do Amazonas, era “o alvo a ser abatido” em uma troca de mensagens entre madeireiros interceptada em setembro de 2019.

No dia 14 de abril, o delegado foi enfim alvejado, como queriam os investigados. A decisão coube ao novo diretor-geral da PF, Paulo Maiurno.

No mesmo dia, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mudou as regras para aplicação de multas ambientais e determinou que eventuais sanções só sejam autorizadas após análise de um supervisor. Para os fiscais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais), isso equivale a instituir a figura de um censor nas ações de combate ao desmatamento.

As mudanças em um posto-chave na Amazônia e das regras do combate ao desmatamento acontecem quase um ano após a famigerada reunião de 22 de abril entre Jair Bolsonaro e seus ministros, quando o presidente declarou que ia interferir na PF e ponto final. Foi o estopim para a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. O resto é história.

Na mesma reunião, Salles defendeu que era preciso aproveitar as atenções da imprensa nas questões relacionadas à pandemia do coronavírus para passar a boiada nos marcos regulatórios fundamentais para a preservação do meio ambiente.

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Onze meses depois, tanto descaso fez com que os alertas de desmatamento na Amazônia em março de 2021 fossem os maiores já registrados desde o começo da série histórica, de acordo com dados do Inpe, o Instituto de Pesquisas Espaciais. Foram 367 km² de mata devastada, contra 327 km² do ano passado.

Em entrevista recente ao G1, a gestora ambiental do Greenpeace, Cristiane Mazzetti, acusou Salles de trabalhar contra o meio ambiente enquanto o Congresso atua para legalizar grilagem, flexibilizar o licenciamento ambiental e abrir terras indígenas para mineração. É a receita perfeita para o desastre ambiental.

Salles, que após defender a boiada naquela reunião saiu em defesa também da figura do boi bombeiro, espécie de personagem do folclore bolsonarista responsável por comer capim seco e conter as queimadas em áreas como o Pantanal, que queimaram como nunca, hoje é alvo de uma dura manifestação assinada por 400 servidores do Ibama. Eles acusam o ministro de inviabilizar as ações de combate ao desmatamento na Amazônia.

“Os meios necessários para o estrito cumprimento do nosso trabalho não estão disponíveis e todo o processo de fiscalização e apuração de infrações ambientais encontra-se paralisado”, queixaram-se em nota distribuída para a imprensa.

A manifestação chega ao público após a aprovação do menor orçamento para combate ao desmatamento em 21 anos.

Dias atrás, em entrevista à Folha de S.Paulo, o delegado Saraiva, aquele que os madeireiros queriam abater, criticou a atuação do ministro do Meio Ambiente em favor de empresários do ramo. Alguns deles eram investigados em uma operação da PF responsável pela maior apreensão de madeira da história. O delegado disse que nunca tinha visto um ministro ser contra uma ação cujo objetivo era a preservação da floresta. Ele acusa Salles de atuar em favor dos supostos criminosos. Caiu pouco depois.

Digam o que disserem na Cúpula de Líderes sobre o Clima, organizada por Joe Biden e marcada para a quinta-feira 22, as autoridades brasileiras não conseguirão se livrar da bagagem (aqui alegórica) queimada e repleta de más notícias para o encontro virtual. Sem trocadilhos, o clima para Jair Bolsonaro e seu fiel e obediente ministro não poderia ser pior.

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