Curadora do acervo de Sérgio Sant'Anna analisa processo criativo do autor, que faria 80 anos neste sábado

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Em setembro de 2019, Sérgio Sant’Anna completou 50 anos de literatura. Neste 30 de outubro, faria 80 anos de vida. Morreu em 10 de maio de 2020 vítima da Covid-19, deixando um legado inequívoco para a literatura brasileira.

Parte desse legado é constituído por um acervo de fotografias, correspondências, jornais e revistas, livros editados em vários idiomas e uma fortuna crítica volumosa.

Desse acervo, os manuscritos totalizam 11.400 folhas de textos, alguns inéditos, e de anotações. Com uma seleção delas, será organizada uma coletânea de aforismos e, com o conjunto do acervo, pretende-se, futuramente, realizar uma exposição que mostre um pouco do que Sérgio foi: um escritor, por excelência, do olhar.

‘Apanhar da literatura’

Nos últimos anos de vida Sérgio Sant’Anna adquirira o hábito de escrever diretamente no computador. Contudo, era na mão que tudo tinha início: anotações, rascunhos e capítulos de contos, guardados em pastas de papelão ou plástico. Numa delas, ao lado dos manuscritos, juntava recortes de publicações, fotocópias de textos de outros autores, impressos da internet, reunidos num cafarnaum aparentemente aleatório.

Em pastas-bailarinas, reunia textos, já datilografados ou digitados, com anotações e correções de próprio punho.

Um texto, uma vez escrito, era reescrito, inúmeras vezes. Sérgio o distinguia da versão anterior por meio de datas ou de uma observação. Na maioria das pastas, não é a ordem cronológica que norteia a sequência dos textos, uma vez que um texto antigo poderia ser retomado a qualquer momento: “‘Reunião de condomínio’ — pag. 2 — (iniciando o rascunho, para terça-feira, 26/01/2010); pag. 2 — (reiniciando o rascunho, na quinta-feira, 28/01/2010); pag. 2 – (Novo rascunho experimental) (Finados, 02-11-2005)”.

A rotina de escrever e reescrever, o escritor chamava de “apanhar da literatura”. Na antessala desse sacrifício cotidiano, suas obsessões não lhe davam trégua: o pavor da morte e do sofrimento, o sexo, o inefável feminino e o suicídio como fetiche, registrados em anotações e textos curtos, quase em forma de diário. É o caso daqueles, de 2015 e 2016, em que recapitula e ensaia, mais uma vez, ficcionar sua tentativa de suicídio, ocorrida em 2001, tema do conto “A barca na noite”, que integra o livro “O voo da madrugada” (2003). Da mesma maneira, em 2018 e 2019, esboçou novamente o relato da história de amor ficcionada no conto “Eles dois”, publicado em “O homem-mulher” (2014).

Não é à toa que, no final da vida, o tema do eterno retorno passou a integrar o rol de suas obsessões.

‘O mais triste dos ofícios’

Desde o primeiro contato com esses manuscritos, a literatura se reitera como o único habitat possível do autor: lugar de sobrevivência à sua angústia e obsessão, sendo a literatura também angústia e obsessão. A relação indistinta entre vida e literatura atravessa desde as frases curtas às pequenas anotações, até os textos já estruturados como contos. E a literatura sempre sobrepuja a vida: “Porque um escritor não tem afetos, sentimentos, a não ser o de tristeza. Porque escrever não é apenas o mais solitário, mas o mais triste dos ofícios, quando é um ofício, porque o único acesso ao meu coração. ‘O pior sofrimento – FELIZ NATAL – (OU: JANEIRO)’”.

Exercendo esse ofício, com uma letra miúda e inclinada para a direita, sobre qualquer suporte — papel, maço de cigarros, envelope — o escritor anota uma ideia e a maneira como desenvolvê-la, bem como palavras de autoencorajamento: “Anotado que este texto deve ser realizado como um salto experimental em minha obra (Escrever é exasperante mesmo)”, diz um escrito na margem superior do texto “O novo conto de sexo, amor e morte (Reinício)”.

A autocrítica aparece na margem superior de um texto ou escrita no meio de outras anotações: “Você não é mais de vanguarda, cara, você é um cara choroso. Isso é enganação. Os enredos, cadê os enredos? Não se pode servir a dois senhores”.

E as ideias para a literatura anotadas na vizinhança das obrigações cotidianas: “Fazer um Conto Radicalíssimo, Desesperado, do Ciúme”. E no verso da folha: “Não tomar Olcadil até quarta (...)”

Entre o viver e o escrever

As duas últimas décadas de Sérgio corroboram um viver e um escrever predominantemente na doença e na tristeza, com uma bomba prestes a explodir, a qualquer instante, em qualquer lugar do corpo. Para o estudioso de sua obra, será incontornável considerar, além da angústia, a carga de sofrimentos físicos que o escritor enfrentava. O glaucoma lhe cegara um dos olhos e ameaçava cegar o outro. O tabagismo comprometera seu sistema circulatório a tal ponto que a amputação de uma das pernas era presumível: “Agora que me aproximo de ser um toco, nem ouso desejar”.

Assim, em maio de 2020, o que mais o assombrava não era a Covid-19. Foi nessas condições que finalizou seu último conto, “A dama de branco”, que ainda viu publicado na revista Época, no domingo, 3 de maio de 2020, quando foi hospitalizado com um quadro pulmonar gravíssimo.

Entre seus manuscritos, numa folha em branco, ele havia anotado apenas uma frase: “Sentindo como se alguém estivesse segurando sua mão na hora de morrer”.

Como os 607 mil mortos pela Covid-19 no Brasil, Sérgio Sant’Anna não pôde experimentar esse conforto.

Cláudia Fares é curadora do acervo de Sérgio Sant’Anna e autora de “A Fonte onde se bebe” (Topbooks) e “A memória é uma boneca russa” (7Letras)

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