'Curiosidade é a chave para ciência', diz cientista que ganhou Nobel por pesquisa com alzheimer

ANA BOTTALLO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando iniciou sua trajetória acadêmica, há 31 anos, a norueguesa May-Britt Moser não pensava em responder por que os portadores de mal de Alzheimer perdem o senso de direção. Seu interesse era desvendar os processos básicos do cérebro de roedores, estudá-los e entender sua biologia fundamental. Quando, em 2005, ela e o então marido Edvard Moser descobriram um tipo de célula cerebral —as chamadas células de grade— que funcionam como uma espécie de GPS cerebral, guardando pontos como em um mapa, sua pesquisa atraiu atenção mundial. “Nós começamos a entender esses mecanismos e compreender o que acontece se essas células morrem e como isso traz consequências ao estudo de doenças neurológicas”, disse Moser em entrevista à Folha. A pesquisa rendeu ao ex-casal o Nobel em Fisiologia ou Medicina em 2014, compartilhado também com um pesquisador norte-americano que descobriu a localização no hipocampo desse sistema. Para ela, a ciência básica é fundamental, sem a qual não existiria a ciência aplicada. Talvez a maior descoberta em 2020 da ciência tenham sido as vacinas contra Covid-19 de mRNA (tecnologias usadas por Pfizer e Moderna), fruto de mais de três décadas de estudo. “Isso é o importante de ciência básica, porque estamos hoje criando os fundamentos para a pesquisa aplicada de amanhã”, diz. Moser é uma das convidadas do evento "O Valor da Ciência”, promovido pela Academia Brasileira de Ciências e pela Nobel Prize Outreach, em colaboração com o Instituto Serrapilheira, e tem a participação do também laureado com o Nobel de Física, Serge Haroche. A conversa com 40 universitários brasileiros selecionados de todas as regiões do país ocorrerá nesta quinta (8), às 10h, e pode ser acompanhada pelo canal do Nobel Prize no YouTube. MAY-BRITT MOSER - Sua pesquisa nos últimos 20 anos se concentrou em entender conceitos de biologia nos animais, principalmente roedores, e não exatamente em buscar aplicações diretas da pesquisa, como o desenvolvimento de novas drogas para tratamento de doenças neurológicas. Sua descoberta, porém, é de extrema relevância para a medicina. Como a senhora vê o papel da ciência básica hoje? MBM - Fico muito feliz de responder essa pergunta. É evidente que a ciência básica é muito importante porque sem ela não há nada para traduzir ou aplicar. Na minha pesquisa, eu tive a sorte de estudar células do cérebro de roedores e descobrir questões de relevância para nós, mas a minha pergunta inicial era entender como funcionam os cérebros de ratos, tão rudimentares em comparação aos nossos, mas em outros aspectos, como o de locomoção espacial, muito superiores aos dos humanos. Começamos a entender esses mecanismos e a compreender o que ocorre quando essas células são danificadas, pois um desdobramento da nossa pesquisa foi descobrir que as células de grade são as primeiras a morrer com o mal de Alzheimer. É claro que houve muito questionamento no início, uma vez que recebíamos financiamento para estudar cérebros de rato e algumas pessoas perguntavam quando iriam aparecer os benefícios para humanos. Hoje está clara a relevância, mas não sabíamos nada disso há 30 anos. P. - No início da carreira, a senhora se sentiu particularmente encorajada a fazer ciência básica? MM - Não, eu nunca fui influenciada ou encorajada a seguir um caminho, eu optei por trilhar o meu próprio caminho. E, conforme eu trabalhava e trazia cada vez mais resultados positivos da minha pesquisa, recebi o reconhecimento dos meus colegas pelo meu trabalho. Mas eu só iniciei essa pesquisa por ser curiosa, por querer entender os processos que ocorrem no cérebro. E a partir daí não parei mais, é como um vício. P. - Como os mais jovens podem se sentir estimulados pela ciência básica? MM - Eu acredito que, assim como eu era curiosa, eles devem ser também. Todas as crianças são curiosas por natureza, mas às vezes essa curiosidade é combatida por algum adulto sem paciência para as perguntas. Se as pessoas esperam que as crianças sigam um caminho ou façam escolhas pré-determinadas em vez de se deixar levar por essa curiosidade, elas não serão estimuladas. Quando você conversa com pessoas que fizeram descobertas incríveis, é comum elas terem tido em suas vidas pessoas igualmente curiosas e encorajadas. P. - A espécie humana é uma de mais de 1,5 milhão de espécies que vivem no mundo, sem contar todos os microrganismos e espécies ainda desconhecidas. Nós temos muito ainda a descobrir sobre a vida. O que a levou a estudar ratos? A senhora tinha um interesse especial pela natureza quando criança? MM - Eu cresci em uma fazenda, com animais por todos os lados, então eu tinha muita curiosidade sobre como eram seus organismos, o que acontecia dentro de uma cobra, por que os animais faziam tal coisa. E eu não fui forçada a seguir um caminho que poderia parecer mais natural para mim como uma menina; eu pude exercer essa minha curiosidade e ir atrás dessa força que me movia. Anos depois eu continuei a ter essa sorte, quando eu e o Edvard pudemos ir de laboratório em laboratório buscando a nossa pesquisa, sem que me falassem que eu não podia estar ali. Estamos hoje criando os fundamentos para a pesquisa aplicada de amanhã. A pesquisa aplicada, ou traduzida, ela é finita em si mesma, mas a ciência básica tem uma sustentabilidade, para que as pessoas possam usar o seu conhecimento por gerações a fio. Essa é a beleza, por exemplo, das vacinas contra Covid-19. Por anos, estudos de recombinação genética foram feitos em levedura, e muitas pessoas lá atrás desacreditaram esses cientistas, mas se eles não tivessem seguido sua paixão e suas perguntas, não teríamos hoje as vacinas de mRNA. Você trabalha por anos e um dia vem a famosa "eureka". P. - A pandemia da Covid-19 escancarou a importância da ciência, principalmente para as políticas de saúde pública. Com isso, acredita que a ciência terá mais atenção global? MM - Eu espero, e eu rezo, e imploro todos os dias para que sim. Mas não sabemos. Hoje estamos em casa e em alguns países houve uma melhora nas condições climáticas. Mas essas ações são como pêndulos, elas vão e voltam. Nós devemos pressionar e fazer demandas, de apoio à ciência, de apoio às causas ambientais, a tudo aquilo que é importante para o futuro, e para nós mesmos. Então agora os olhos estão voltados estes assuntos, mas em dois anos tudo pode voltar como antes? Exato, porque quando não há ameaça, quando não há o perigo, quando relaxamos, tudo volta ao normal. É importante dizer que as pessoas são como máquinas que movimentam esses processos [da ciência], e se essas máquinas recebem muito combustível, como parece ser o caso agora [na forma de investimento], elas atraem mais pessoas para o processo. E isso é ótimo. P. - Vêm crescendo também os movimentos negacionistas da ciência, inclusive em posições de líderes de nações. O que acha dessa aparente contradição? Onde os comunicadores da ciência e a comunidade científica como um todo estão errando? MM - Eu não acho que devemos receber a culpa. Acho que todos os dias o processo de comunicação da ciência e o processo científico são feitos de maneira séria e não devemos desistir. Devemos resistir e pensar que há pessoas ruins, políticos ruins, mas há também aqueles que fazem o certo. P. - Uma das principais críticas de cientistas contra a divulgação de suas pesquisas é a simplificação excessiva de conceitos complexos, mas em uma sociedade tão heterogênea de educação de ciência, como é o caso do Brasil, às vezes é preciso adequar a linguagem para a base. Quais são as suas sugestões para melhorar a educação da ciência no ensino público? MM - Falando pela minha experiência, eu me interessava muito por excursões, elas são muito versáteis. As crianças fazem muitas perguntas malucas, e as respostas podem ser estimulantes. Nem sempre a escola com a melhor educação em ciência é aquela que tem como pagar por uma espaçonave, mas aquela com os alunos e professores mais curiosos. Quem sabe daqui a alguns anos o Brasil possa ter seu primeiro prêmio Nobel. P. - Como a sua vida mudou após o prêmio? MM - Antes do Nobel minha vida e do Edvard já era agitada, nós dávamos palestras com frequência e viajávamos muito. E chegou um momento em que eu disse para mim mesma "chega, eu não vou mais viajar, quero voltar ao laboratório". E então recebi o telefonema no dia 6 de outubro de 2014 dizendo que ganhamos o prêmio, e aí foi uma loucura, mas também fantástico. Nossa descoberta foi fruto de anos de uma pesquisa não porque buscávamos aquele objetivo, mas porque éramos curiosos, então ouvir de outras pessoas, inclusive do comitê do Nobel, que o que fizemos era importante foi o maior presente para nós. E, claro, com o valor do prêmio investimos ainda mais na nossa pesquisa. É tudo sobre curiosidade, sobre perguntas. Raio-X May-Britt Moser, 58, nasceu em Fosnavag, Noruega. Em 1990 graduou-se em psicologia pela Universidade de Oslo e, em 1995, obteve o título de doutorado em Neurofisiologia na mesma instituição. É atualmente professora titular de neurociência na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia.