Custo de 500 mil libras faz Reino Unido manter plano de enviar refugiados para Ruanda apesar de risco de voo vazio

O governo britânico se prepara para enviar o primeiro voo com migrantes clandestinos e requerentes de asilo para Ruanda apesar da expectativa de que o avião parta praticamente vazio após uma série de apelações individuais terem sido apresentadas entre segunda e esta terça-feira.

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As medidas judiciais de última hora surgiram após recursos emergenciais coletivos, apresentados por organizações, terem sido indeferidos pela Justiça britânica na segunda-feira. Uma revisão detalhada da legalidade da medida está prevista para julho.

Citadas pelo jornal britânico The Guardian, fontes do governo disseram que o avião fretado vai decolar de qualquer forma, mesmo que haja apenas um passageiro a bordo, porque os custos estimados em 500 mil libras não podem ser reembolsados.

Desde a semana passada, o número de migrantes e refugiados previstos para embarcar caiu de 130 (iranianos, iraquianos, albaneses e sírios) para sete na manhã desta terça, segundo a associação Care4Calais.

— Haverá pessoas neste voo e, se não estiverem nele, estarão no próximo — afirmou a ministra das Relações Exteriores, Liz Truss, à Sky News. — O que importa mesmo é estabelecer o princípio e quebrar o modelo de negócio dessas pessoas perversas, desses traficantes que comercializam a angústia [dos migrantes] — disse.

O impasse surgiu enquanto o Reino Unido é alvo de crescentes críticas pelo acordo alcançado com o governo do presidente Paul Kagame, que tem o objetivo de desencorajar as chegadas ilegais através do Canal da Mancha, que não param de crescer.

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"Essa política imoral envergonha o Reino Unido", disseram líderes da Igreja Anglicana, incluindo o arcebispo de Canterbury Justin Welby, o arcebispo de York Stephen Cottrell e 23 bispos em uma carta publicada no jornal The Times.

"Nossa herança cristã deve nos encorajar a tratar os solicitantes de asilo com compaixão, igualdade e justiça", enfatizaram.

Mas Truss rejeitou as críticas.

— Nossa política é totalmente legal. É totalmente moral — disse a ministra, assegurando que Ruanda é "um país seguro". — Os imorais neste caso são os traficantes — acrescentou.

No sábado, o jornal britânico Times informou que o príncipe Charles, o herdeiro de 73 anos do trono britânico, chamou o plano do governo de "terrível".

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— Não seremos dissuadidos ou prejudicados de jeito nenhum por algumas críticas — disse o primeiro-ministro Boris Johnson.

O governo de Ruanda disse estar disposto a acolher "milhares" de migrantes e voltou a defender o acordo, considerando-o uma "solução inovadora" para um "sistema global de asilo defeituoso".

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Enquanto isso, em Calais, na costa norte da França, de onde muitos migrantes partem para a Inglaterra, alguns esperançosos parecem não se impressionar com a medida "dissuasória".

Moussa, 21 anos, de Darfur, diz que quer ir para a Inglaterra para "obter documentos" e porque já fala inglês.

Eles "atravessaram tantos países, enfrentaram tantas situações de estresse e perigo imediato" que vão correr esse risco, explicou à AFP William Feuillard, coordenador da associação L'Auberge des Migrants.

Travessias ilegais do Canal da Mancha são um problema para o governo conservador britânico e regularmente causam tensões com a França. Desde o início do ano, mais de 10 mil migrantes e refugiados cruzaram ilegalmente a costa francesa para a inglesa em barcos frágeis, um aumento recorde em relação aos anos anteriores.

Em Ruanda, país liderado pelo presidente Paul Kagame desde o fim do genocídio de 1994, no qual, segundo a ONU, 800 mil pessoas morreram, o governo é frequentemente acusado por ONGs de reprimir a liberdade de expressão, a crítica e a oposição política.

Sob seu acordo com as autoridades ruandesas, Londres financiará inicialmente o plano com 120 milhões de libras (157 milhões de dólares). O governo de Kigali disse que oferecerá aos deportados a chance de "se estabelecerem permanentemente".

Os migrantes deportados serão alojados no albergue Hope em Kigali, que "não é uma prisão" e sim um hotel cujos moradores serão "livres" para sair, segundo seu diretor, Ismael Bakina. O estabelecimento tem capacidade para 100 pessoas, com um preço de 65 dólares por pessoa por dia.

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