Custo elevado do carnaval de São Paulo exclui negros e pobres da comemoração

SAO PAULO, BRAZIL - FEBRUARY 26: Members of the samba school Imperio de Casa Verde parade during the Sao Paulo Carnival 2017 at Sambodromo do Anhembi on February 26, 2017 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Levi Bianco/Brazil Photo Press/LatinContent via Getty Images)

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges 

A cidade de São Paulo já se consolidou como o destino mais procurado para o carnaval de 2020, na frente de outras grandes metrópoles como o Rio de Janeiro, Recife e Salvador. A expectativa da Secretaria Municipal de Cultura é de que mais de 15 milhões de pessoas movimentem pelo menos 2,6 bilhões de reais em todos os dias do evento, nas ruas e no Sambódromo do Anhembi. 

Do lado de fora do carnaval paulista está parte da população negra e pobre, sem condições de arcar com os custos da comemoração como a aquisição de ingressos para assistir aos desfiles das escolas de samba. Para especialistas ouvidos pelo Alma Preta, essa é uma das provas de como a festa é elitizada.

A jornalista Claudia Alexandre, pesquisadora do samba e das escolas de São Paulo há 30 anos, afirma que o carnaval sempre foi uma festa mais acessível para a população branca e rica. Na época do surgimento dos bailes carnavalescos, os clubes mais famosos da cidade não aceitavam a presença de pessoas não brancas, impulsionando a criação de clubes liderados por negros como o Cordão Esportivo Carnavalesco Vai-Vai.

“Ao analisarmos a história do carnaval popular veremos que a festa surgiu como uma manifestação da elite. Em São Paulo, por exemplo, os desfiles das grandes sociedades carnavalescas e os grandes bailes aconteciam tendo a massa pobre e negra distante das festas. Cada vez mais o povo é tirado do centro do carnaval, dessa vez por não conseguir arcar com o custo da participação na manifestação que ele mesmo criou”, explica.

Segundo informações do site da Liga das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP), o valor dos ingressos para assistir a cada noite dos desfiles do Grupo Especial no Sambódromo do Anhembi são de R$ 90 (arquibancada), R$ 270 (cadeira de pista), R$ 1.210 (mesa de pista com quatro lugares) e R$ 10 mil (camarote). 

A média salarial da população negra é de R$ 1.012,76, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Isso significa que um ingresso para a arquibancada do Anhembi corresponde a quase 10% da renda de um trabalhador negro no país.

O músico percussionista e diretor artístico e musical Fernando Alabê relembra que sua família tinha uma ligação forte com o carnaval da cidade, mas o alto custo da festa causou afastamento de muitos no decorrer dos anos.

“Se hoje eu, minhas duas irmãs e meus pais fossemos frequentar o cenário das escolas de sambas gastaríamos pelo menos R$ 44 com a tarifa do transporte, R$ 28 com um refrigerante para cada e a cerveja do meu pai, mais R$ 500 das fantasias, fora os ensaios extra que existem. Evidentemente fica muito caro para uma família pobre e sabemos que a maioria dos pobres no nosso país são negros”, conta.

O Alma Preta procurou a Liga-SP e perguntou como é definido o valor dos ingressos e se a possibilidade de a população de menor renda ter acesso aos desfiles é um fator levado em consideração. A reportagem também perguntou a respeito do repasse do valor arrecadado para as escolas do Grupo Especial e do Grupo de Acesso. Os questionamentos não foram respondidos.

Elitização dos bloquinhos de rua

Além dos tradicionais desfiles das escolas de samba, nos últimos anos o carnaval de São Paulo passou a ter uma nova cara com o crescimento recorde dos bloquinhos de rua. De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura, serão 796 blocos em 861 desfiles no carnaval de 2020.

Assim como em 2019, a Ambev é a maior patrocinadora da festa pelas ruas da cidade e deve desembolsar 21,9 milhões de reais para exibir as marcas da empresa em placas, totens e outros materiais visuais. O patrocínio de grandes empresas não alcança, no entanto, os blocos menores. Segundo a prefeitura,  20% dos que haviam se cadastrado para desfilar neste ano desistiram por falta de investimento.

De acordo com Fernando Alabê, que também é fundador e vice-presidente do bloco afro afirmativo Ilu Inã, os blocos pequenos têm mais dificuldade de conseguir patrocínio e de realizar seus ensaios. Para Alabê, uma das barreiras é a Lei do Sossego, instituída pelo decreto 3.688/41, de 2017.

“Os grandes blocos já vêm com contratos para realizar seus eventos com artistas de renome e em locais com maior estrutura e sem perseguições aos seus ensaios, ao passo que os blocos de menor tamanho, no que se refere o poder econômico, têm seus ensaios dificultados pela dita Lei do Sossego, como instrumento legal de controle tanto em seus ensaios quanto nas suas saídas, o que parece não ocorrer com os blocos patrocinados e com organização corporativa ao longo do ano”, comenta.