Dólar abandona queda e fecha em alta com renovados temores sobre teto de gastos

José de Castro
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Notas de dólares

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar começou a semana em firme alta, fechando acima de 5,70 reais nesta segunda-feira e deixando a moeda brasileira na pior posição global. Mais um vez o mercado repercutiu boatos do lado fiscal, com temores de que pressões de todas as frentes acabem por provocar o rompimento do teto de gastos, o que ampliaria severamente as incertezas sobre a sustentabilidade fiscal.

Investidores repercutiram mal notícias de que o governo discute a criação de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que tenha sob seu guarda-chuva gastos extraordinários como medidas de apoio a emprego e despesas da Saúde. Segundo relatos, a ideia teria vindo do Ministério da Economia e seria uma forma de liberar espaço para emendas parlamentares que podem ser vetadas do texto do Orçamento.

Para uma fonte de mercado, isso deixa claro que o ministro Paulo Guedes ainda não tem à mão uma solução definida para a confusão do Orçamento, já que, aparentemente, não conseguiu cortar as emendas dos deputados, nem contingenciar.

A notícia circulou as mesas de operação e, em seguida, ainda segundo relatos de operadores, teria atraído comentários de fonte próxima ao ministro Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, de que a proposta de Guedes fura o teto de gastos.

Marinho sempre aparece como um dos nomes cotados para uma eventual substituição de Guedes na pasta da Economia. Guedes, inclusive, recentemente voltou a falar de "ministro fura-teto" --o que, para o mercado, é uma referência a Marinho, visto como integrante da ala pró-gastos públicos para movimentar a atividade econômica.

No fim do pregão no mercado à vista, o dólar à vista subiu 0,90% nesta segunda-feira, a 5,7258 reais na venda.

A moeda até iniciou o dia em queda, indo a uma mínima de 5,631 reais (-0,77%) pela manhã, mas fluxos pontuais puxaram a cotação para cima. O movimento foi consolidado, e de forma brusca, na parte da tarde, quando a divisa bateu 5,7432 reais (+1,21%).

Gestoras de recursos voltaram a destacar em cartas mensais a gravidade da situação fiscal brasileira.

A Verde Asset, do famoso gestor Luis Stuhlberger, avaliou que o mercado não percebe compromisso fiscal por parte das lideranças políticas e que isso, junto com o componente eleitoral de 2022, resulta numa demanda por prêmio de risco como há muito não se vê no mercado.

"Temos sido parcimoniosos e pacientes ao implementar posições nesse mercado, pois não parece que teremos uma resolução tão cedo", alertou a Verde no documento.

Para o Itaú Unibanco, há risco "não desprezível" de flexibilização adicional do regime fiscal da regra.

"Tal cenário impactaria a já frágil sustentabilidade fiscal brasileira, aumentando o prêmio de risco doméstico, com efeitos negativos sobre juros, câmbio e atividade econômica em 2021 e, predominantemente, em 2022", disse a equipe econômica do Itaú, chefiada por Mário Mesquita, em revisão mensal de cenário.