BC atua, mas dólar segue em forte alta de olho em Bolsonaro e Petrobras

Luana Maria Benedito
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Dólar dispara ante real de olho em Bolsonaro e Petrobras

Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar disparava nesta segunda-feira, com o real na posição de pior desempenho global no dia, mesmo depois de o Banco Central vender 1 bilhão de dólares em contratos de swap cambial.

O dia era marcado por forte pressão nos ativos brasileiros, depois de o presidente Jair Bolsonaro indicar o general Joaquim Silva e Luna para assumir os cargos de conselheiro e presidente da Petrobras, o que reforçou temores de interferência na estatal.

Às 11:59, o dólar avançava 1,96%, a 5,4902 reais na venda. Na máxima, batida pouco depois das 11h, a cotação foi a 5,535 reais, alta de 2,79%. Na sequência, o BC anunciou oferta líquida de até 1 bilhão de dólares em swaps cambiais tradicionais, com venda integral do lote.

A colocação de contratos de swap tradicional equivale a uma venda de dólares no mercado futuro. O BC ainda fez nesta segunda leilões de rolagem de swaps cambiais e de linhas de dólar com compromisso de recompra.

Na B3, o dólar futuro valorizava-se 2,34%, a 5,5105 reais, depois de alcançar 5,5350 reais, máxima desde 6 de novembro do ano passado.

O real apresentava o pior desempenho contra o dólar entre uma cesta de mais de 30 pares da moeda norte-americana nesta segunda-feira, num dia já negativo para várias divisas emergentes.

Bolsonaro anunciou na sexta-feira que o governo decidiu indicar Silva e Luna para assumir os cargos após o encerramento do mandato do atual CEO da companhia, Roberto Castello Branco. O anúncio marca o ápice de uma crise entre Castello Branco e o presidente da República, após o executivo da Petrobras ter batido de frente em temas relacionados a preços de combustíveis e caminhoneiros.

Colaborando para a cautela entre investidores, Bolsonaro ainda disse no sábado que vai "meter o dedo na energia elétrica" e que, "se a imprensa está preocupada com a troca de ontem, na semana que vem teremos mais".

"O movimento do presidente levanta dúvidas quanto à possibilidade de interferência política em outras estatais e setores", disseram analistas da Genial Investimentos em nota a clientes. "Acende sinal vermelho no cenário político doméstico."

O Citi avaliou que o presidente já havia adotado práticas semelhantes no passado. "A reversão desses tipos de práticas por Bolsonaro no início de sua administração foi um fator positivo para a nota de crédito dos 'quase soberanos'. Uma reversão desta política é um claro (evento) negativo para crédito."

Gustavo Cruz, economista e estrategista da RB Investimentos, explicou à Reuters que muitos investidores enxergam a Petrobras como um dos principais ativos de renda variável do Brasil: "quando tem algum movimento muito forte em cima dela, acaba puxando o índice inteiro, o investidor estrangeiro fica meio desagradado..."

O Ibovespa despencava 4,9% nesta segunda-feira.

Ainda assim, Cruz ressaltou que a RB ainda não enxerga uma mudança no cenário-base e que os mercados devem acompanhar as próximas declarações de Bolsonaro.

Os desdobramentos envolvendo a Petrobras vêm num momento de elevadas incertezas fiscais, com investidores continuando a acompanhar discussões em torno de mais auxílio emergencial para vulneráveis afetados pela crise da Covid-19.

Com a dívida pública em patamares recordes, a maioria dos analistas concorda que qualquer renovação de ajuda financeira à população deve vir acompanhada de medidas concretas de corte de gastos, sob o risco de desrespeito ao teto fiscal do governo em 2021.

Enquanto isso, no exterior, outras moedas de países emergentes operavam com quedas acentuadas frente ao dólar nesta manhã, embora a taxas de desvalorização inferiores à do real.

Peso mexicano, lira turca e rand sul-africano, alguns dos principais pares da moeda brasileira, trabalhavam em queda de pelo menos 1%.

"Mesmo se não houvesse nada de relevante no cenário interno, o dólar provavelmente ainda estaria subindo bastante (contra o real), com os investidores preocupados com os rendimentos dos Treasuries e expectativas de aceleração da inflação nos Estados Unidos", disse Gustavo Cruz.

Na última sessão, na sexta-feira, a moeda norte-americana à vista registrou queda de 1,04%, a 5,3846 reais na venda.