Dólar dispara e ultrapassa os R$ 5,50 com pedido de demissão de Moro

JÚLIA MOURA
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015: Gráfico das recentes flutuações dos índices de mercado no pregão da BM & F Bovespa Bolsa de Valores de Sao Paulo apos o anuncio da anulacao do impeachment. (Foto: Diego Padgurschi /Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar disparou 2% e fechou cotado a R$ 5,5278 nesta quinta-feira (23), com o pedido de demissão do ministro Sergio Moro (Justiça). O turismo está a R$ 5,77 na venda.

A notícia fez o mercado financeiro brasileiro descolar das principais Bolsas globais, levando o Ibovespa a uma queda de 1,26%, a 79.673 pontos.

Moro pediu demissão a Jair Bolsonaro nesta quinta, ao ser informado pelo presidente da decisão de trocar a diretoria-geral da Polícia Federal, hoje ocupada por Maurício Valeixo.

Bolsonaro informou o ministro, em reunião, que a mudança na PF deve ocorrer nos próximos dias. Moro então pediu demissão do cargo, e Bolsonaro tenta agora reverter a decisão do ex-juiz federal, em meio à crise do coronavírus.

Os ministros Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) foram escalados para convencer o ministro a recuar da decisão. Se Valeixo sair, Moro sairá junto, segundo aliados do ministro.

"Tanto faz como o episódio termine, com Moro dentro ou fora do governo. É um sinal a mais de fraqueza do governo", diz relatório do banco Fator.

A instabilidade política levou o dólar ao segundo recorde nominal seguido. Em termos reais (corrigidos pela inflação), porém, a moeda ainda está longe de sua máxima de 2002. Se for considerado apenas o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE, o pico de R$ 4 naquele ano, equivale a cerca de R$ 10,80 hoje. Caso também seja levada em conta a inflação americana, o valor corrigido seria cerca de R$ 7,50.

"Há uma incerteza sobre o que vai acontecer. O mercado tem estado mais otimista nos último dias, com a percepção de que a desvalorização foi exacerbada em março. Caso se confirme a demissão, o cenário pode ficar mais negativo", afirma Thomaz Fortes, gestor de fundos da Warren.

Ele aponta que, assim como a saída do ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde), a saída de Moro não interfere tanto no mercado financeiro, que preza mais pela equipe econômica de Paulo Guedes (Economia).

"Apesar de Moro ser bem popular, o mercado está mais atento ao Guedes e ao Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central", diz Fortes.

Na mínima do dia, o Ibovespa chegou a cair 2,6%, mas reduziu o movimento de queda.

"Como a demissão não está confirmada, o Ibovespa amenizou a desvalorização. Caso se confirme, devemos ver uma forte aversão ao risco", afirma Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos.

"Com a saída de Moro, o governo perde força e ganha instabilidade. Ele, junto a Guedes e Bolsonaro, é um dos três pilares do governo. Com sua saída, o perfil do governo federal muda", diz Esteter.

Na quarta (22), a moeda americana ultrapassou os R$ 5,40 pela primeira vez com a expectativa de corte de 0,75 ponto percentual na Selic na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), em 6 de maio, o que levaria a taxa básica de juros brasileiro a 3% ao ano.

Juros mais baixos contribuem para a alta do dólar por meio do carry trade. Nesta prática de investimento, o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, no caso, os Estados Unidos, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior, o Brasil.

Com a Selic na mínima histórica de 3,75% ao ano, e expectativa que caia mais, investir no Brasil fica menos vantajoso, o que contribui com uma fuga de dólares do país, elevando a cotação.

Nesta semana, a moeda americana acumula valorização de 5,4%, ficando R$ 0,28 mais cara. No ano, a alta é de 37,6%.

Para conter a alta do dólar e dar liquidez ao mercado, o BC vendeu US$ 1 bilhão leilões de swap cambial na sessão. O swap cambial tradicional é um derivativo cuja venda funciona como uma injeção de liquidez no mercado futuro de câmbio. Sua venda ajuda a saciar demanda por moeda e, assim, a reduzir a pressão sobre o preço do dólar.

"O dólar já estava forte de manhã a notícia sobe o Moro só piorou o cenário. Essa foi só a primeira reação do mercado, temos que esperar para ver o que vai acontecer", afirma Álvaro Bandeira, economista-chefe do Modalmais.

Outra notícia negativa para o mercado foram os resultados decepcionantes do primeiro teste clínico do remédio remdesivir no combate ao coronavírus, de acordo com o Financial Times. O jornal apontou que, segundo rascunhos do estudo publicados pela OMS (Organização Mundial da Saúde), um estudo clínico randomizado chinês com o remédio da Gilead Sciences mostrou que ele não melhorou a condição dos 237 pacientes ou reduziu a presença do patógeno na corrente sanguínea.

O medicamento era visto com otimismo por investidores, que o tinham como uma das principais apostas de tratamento para a Covid-19.

Contudo, a desaceleração dos pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos e a alta do petróleo aliviaram investidores.

O Departamento do Trabalho dos EUA disse nesta quinta que mais 4,427 milhões de pessoas solicitaram auxílio-desemprego pela primeira vez na semana passada, abaixo dos 5,237 milhões em dado revisado da semana anterior e das estimativas do mercado.

Os contratos futuros do petróleo com vencimento em junho seguem em recuperação após as fortes quedas no início da semana. O barril do Brent, referência internacional, sobe 7,6%, a US$ 21,91. O WTI, referência nos EUA, dispara 23,66%, a US$ 17,04.

Em Nova York, S&P 500 e Nasdaq fecharam estáveis, enquanto Dow Jones teve leve alta de 0,17%.