Dólar tem volatilidade com mercado avaliando impactos de mudanças no governo e fiscal

José de Castro
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Notas de dólares e reais

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar fechou em leve queda nesta terça-feira, ao fim de uma sessão de intenso vaivém nos preços da moeda, conforme o mercado seguiu tentando entender as sinalizações emitidas pela dança das cadeiras nos ministérios do governo anunciada na véspera, num contexto de profundo receio com o caminho fiscal tomado pelo país.

A volatilidade típica por causa da "briga" pela Ptax de fim de mês --desta vez acentuada pelo fato de março marcar também fim de trimestre-- também influenciou o mercado, numa sessão de dólar forte em todo o mundo.

Números melhores tanto de emprego formal quanto das contas do governo central, ambos de fevereiro, ajudaram a tirar o dólar das máximas perto de 5,80 reais alcançadas durante o dia.

A moeda subiu rapidamente para esse patamar perto de 11h30, em meio a entendimentos sobre a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, a respeito de despesas para a pandemia e o teto de gastos.

No fechamento, o dólar à vista caiu 0,16%, a 5,7588 reais na venda. No mercado futuro, o dólar caía ainda mais, em baixa de 0,42%, a 5,7590 reais, às 17h19.

Mas, apesar do alívio na cotação, a volatilidade do câmbio denuncia o grau de ansiedade dos agentes. O dólar spot variou entre 5,804 reais (+0,62%) e 5,7221 reais (-0,80%).

Todas as discussões seguem voltadas para os impactos da reforma ministerial feita de surpresa pelo governo na segunda-feira --e seus potenciais desdobramentos para a agenda política-econômica e para a relação com o Congresso, já que a articulação política ficou com a deputada Flávia Arruda (PL-DF), muito ligada ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). O cargo era uma antiga demanda do centrão, grupo do qual ambos fazem parte.

Na visão de parlamentares, a decisão do presidente Jair Bolsonaro de trocar os comandos de seis ministérios melhora o clima do governo com o Legislativo e traz certa segurança ao chefe do Executivo, mas essa tranquilidade é momentânea, sutil e pode sofrer mudanças a depender da conjuntura.

Nesse contexto, o real segue como o ativo doméstico menos atrativo no momento, disse Dan Kawa, sócio da TAG Investimentos. "Prefiro utilizar o câmbio como 'hedge' (proteção) em momentos de quedas mais repentinas e acentuadas", completou, descrevendo um comportamento de mercado que está por trás da fraqueza do real nos últimos tempos, já que um "hedge" na moeda brasileira equivale a uma compra de dólar.

O gestor Rogério Xavier, da SPX Capital, foi taxativo ao dizer que o caminho do dólar no Brasil é "para cima".

"A gente está otimista com o dólar em termos gerais, não só contra o real, mas contra as principais moedas, seja do mundo desenvolvido, seja do mundo emergente", afirmou em live promovida pelo banco Daycoval, justificando sua posição pró-dólar pela expectativa de que o diferencial de crescimento econômico e de taxas de juros favoreça largamente os Estados Unidos.

O real sofre adicionalmente, segundo Xavier, por causa dos "eventos recentes" --referindo-se ao Orçamento problemático enviado pelo governo e aprovado pelo Congresso.

"Quando a gente vê o que foi feito, por exemplo, com o Orçamento, (isso) não demonstra que a classe política esteja alinhada ao comprometimento com o ajuste fiscal. (...) E o presidente (Bolsonaro) parece acuado. E presidentes acuados a gente sempre tem que tomar um pouco de cuidado com as ações que podem fazer", acrescentou Xavier, afirmando que o Brasil pode estar próximo de uma "tempestade perfeita inflacionária".

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, participou do mesmo evento do banco privado e disse que o custo fiscal está diferenciando o Brasil de outros emergentes, o que ajuda a explicar a depreciação cambial a despeito da valorização das commodities.