Dólar fecha a R$ 5,90, nova máxima histórica, com mercado atento à crise política interna

Gabriel Martins

O cenário doméstico seguiu impedindo que o dólar tivesse um período mais longo de desvalorização contra o real. Após a abertura em queda, a moeda americana encerrou os negócios com alta de 0,54%, a R$ 5,90, maior valor para fechamento já registrado. Na máxima, a divisa chegou a R$ 5,944, máxima histórica. No ano, o dólar registra alta de  47,1%

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Os analistas destacam o agravamento dos atritos políticos, com a revelação do vídeo de uma reunião ministerial que mostraria o presidente Jair Bolsonaro pedindo uma troca na Polícia Federal para proteger sua família, e a sinalização de que não vai haver juro negativo nos Estados Unidos. Na Bolsa, o Ibovespa (índice de referência da B3) recua 0,21%, aos 77.711 pontos, acompanhando Nova York.

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Na tentativa de retirar um pouco da pressão sobre o mercado local, o Banco Central fez dois leilões de 10 mil contratos de swap cambial (venda de dólar no mercado futuro), cada um. O primeiro, por volta das 11h3; o segundo, 16h30. No total, o BC injetou US$ 1 bilhão no câmbio.

— A incerteza política no Brasil está no radar do mercado desde antes da pandemia. Este clima de apreensão faz com que notícias ainda nem confirmadas ganhem mais repercussão, o que acaba influenciando no comportamento do mercado. Ainda não há divulgação de trechos do vídeo, mas os rumores sobre a reunião têm pressionado o câmbio — indica Fabrizio Velloni, chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora.

Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, também destaca que a cena política doméstica incerta contribui para que o dólar siga fortalecido contra o real:

— O presidente disse que vetará o trecho que flexibiliza o congelamento de salários para algumas categorias dos servidores públicos. Porém, se o Congresso barrar o veto, ou houver divulgação do vídeo da reunião, o dólar tende a ganhar mais força.

Rachel de Sá, economista da XP Investimentos, destaca que a subida do dólar vem desde o ano passado, com as constantes reduções dos juros, o que afugentou o capital especulativo do Brasil. Em relação à disparada dos últimos dias, ela destaca que o movimento está atrelado à incerteza política.

— Com as reduções na Selic, no fim do ano passado estimava-se que um padrão para dólar fosse na faixa de R$ 4,90, por conta de fatores estruturais. Mas no início deste ano, com a pandemia do novo coronavírus, e as atuais incertezas sobre o cenário político brasileiro, o dólar chega perto dos R$ 6. O mercado não tem um partido ou político, mas fica muito incomodado com a falta de previsibilidade quanto à governança do país — diz Rachel.

A economista acrescenta que os investidores já têm clareza quanto aos rombos nas contas públicas dos países neste ano. O problema, pontua ela, é em relação ao cenário em 2021:

— O mercado está olhando para o próximo ano, tentando entender como os governos vão atuar para conter os danos nas economias após a pandemia. A atual imprevisibilidade no ambiente doméstico acaba pesando no câmbio porque o mercado não tem muita clareza sobre o que o Brasil pode e vai fazer para reestruturar suas finanças.

Rachel avalia que as ações do Banco Central no câmbio devem continuar cautelosas.

— O BC tem atuado quando observa disfunções no câmbio, tentando diminuir os impactos de ataques especulativos contra o real. No atual cenário, se o BC utilizar muitas reservas, pode ser uma estratégia ruim. Além de questões especulativas, ainda há toda a incerteza no cenário global, o que não favorece uma atuação mais intensa no câmbio — completou.

Os investidores também seguem atentos à agenda externa. Na manhã desta quarta, o presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) Jerome Powell descartou a adoção de juros negativos na economia americana. Powell destacou, entretanto, que o Fed continuará usando de seu "arsenal" para combater os impactos da pandemia nos EUA. Ele também pediu mais estímulos fiscais.

— É importante lembrar que o Fed tem poderes para emprestar, mas não para gastar — disse Powell, durante conversa virtual com o presidente do Instituto Peterson de Economia Internacional.

A sinalização do presidente do Fed contribui para a pressão sobre o dólar porque, em momento de crise, os investidores buscam proteção. Ou seja, desfazem operações em países emergentes e se refugiam em títulos americanos ou dólar.

Uma vez que os juros negativos estão descartados nos EUA, os investidores preferem a baixa remuneração de uma economia forte do que deixar o dinheiro exposto à volatilidade de emergentes, como é o caso do Brasil.

As declarações de Powell afetaram os mercados de risco americano também. Em Wall Street, o Dow Jones recua 2,19%. S%P 500 e Nasdaq operam com perdas de, respectivamente, 2,06% e 1,94%.

Na Bolsa de SP, os destaques de queda ficam por conta das empresas que têm maior perticipação no Ibovespa. Os papéis ordinários (ON, com direito a voto) do Banco do Brasil recuam 2,32%. As ações preferenciais (PN, sem direito a voto) de Bradesco e Itaú perdem, na ordem, 1,81% e 0,74%.

Além das volatilidades desta sessão, a Petrobras cai também por conta da queda de 1,8% no preço do barril de petróleo tipo Brent, que é negociado a US$ 29,44. Os papéis ON e PN da estatal recuam, respectivamente, 3,44% e 2,43%

Destoando das outras grandes empresas, a Vale sobe 2,15%. Por ser exportadora de minério de ferro, a empresa se beneficia da valorização do dólar.

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