Dólar, risco-país e juros futuros sobem após Bolsonaro falar sobre prorrogação do auxílio

JÚLIA MOURA
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*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 24-01-20109 - Cédulas de dólar. Papel Moeda. Dinheiro. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 24-01-20109 - Cédulas de dólar. Papel Moeda. Dinheiro. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vários indicadores do mercado financeiro refletiram, nesta terça-feira (9), um descontentamento com a provável volta do auxílio emergencial sem que se tenha uma definição sobre as fontes de recursos para o benefício. Dólar, risco-país e juros futuros registraram alta após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) dizer, nesta segunda (8), que deve prorrogar o auxílio emergencial.

No domingo (7), a Folha revelou que o Ministério da Economia prepara uma proposta que libera três parcelas de R$ 200, com foco nos trabalhadores informais não atendidos pelo Bolsa Família.

Nesta terça, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que há muito pouco ou nenhum espaço para o auxílio sem algum tipo de contrapartida por causa da deterioração do quadro fiscal do país.

"Dólar e taxas longas de juros ficam pressionados por conta do temor advindo do debate sobre o retorno do auxílio. As contrapartidas desse novo auxílio ainda não foram apresentadas", diz Simone Passianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

Líderes das bancadas partidárias no Senado, por outro lado, aumentam a pressão pela volta do auxílio de maneira desvinculada de outras medidas compensatórias de ajuste fiscal.

O presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou nesta terça que pretende usar a “boa relação” com Bolsonaro e com a equipe econômica para avançar nas negociações, encaminhando as propostas.

Durante o pregão, o dólar chegou a subir para R$ 5,4470, mas reduziu ganhos após leilão de 20 mil contratos de swap cambial (US$ 1 bilhão) feito pelo Banco Central.

Esta foi a maior oferta de liquidez feita pelo BC em nove meses, feita em dois leilões. No primeiro, anunciado 14h11, foram vendidos 14.300 contratos de uma oferta de até 20 mil contratos.

O BC, então, anunciou às 14h57 a segunda operação do dia, disponibilizando os demais 5.700 contratos, que posteriormente foram colocados integralmente no mercado.

Uma oferta líquida de swaps cambiais tradicionais não era feita desde 11 de janeiro, quando o BC leiloou 10 mil contratos (US$ 500 milhões).

O primeiro leilão de swap desta terça, com lote de 20 mil papéis, foi o maior desde 14 de maio do ano passado, quando o BC disponibilizou a mesma quantia de contratos, num período em que o mercado ainda tentava se estabilizar após o choque em março decorrente da pandemia.

Após os leilões, a moeda americana fechou em leve alta de 0,18%, a R$ 5,3820. O turismo está a R$ 5,54.

“Temos uma preocupação muito grande com o teto de gastos e isso pesa no dólar”, diz Gustavo Bertotti, economista da Messem Investimentos.

O IPCA de janeiro, que veio menor que o esperado, também ajudou a estimular compras de dólar, uma vez que contribuía para apostas de que o Copom (Comitê de Política Monetária do BC) possa não subir os juros no curto prazo.

Dentre emergentes, o real é a segunda moeda que mais se desvalorizou na sessão, atrás apenas do peso colombiano.

O risco-país medido pelo CDS de cinco anos subiu 3,94% a 155,94 pontos, após acumular queda de 14% na semana passada.

O CDS funciona como um termômetro informal da confiança dos investidores em relação a economias, especialmente as emergentes. Se o indicador sobe, é um sinal de que os investidores temem o futuro financeiro do país, se ele cai, o recado é o inverso: sinaliza aumento da confiança em relação à capacidade de o país saldar suas dívidas.

Os juros futuros de longo prazo também subiram. Juros futuros são taxas de juros esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. São a principal referência para o custo de empréstimos que são liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro.

O juro para janeiro de 2028 foi de 7,265% na véspera para 7,340% nesta terça. A taxa para de janeiro de 2030 foi de 7,656% para 7,73%.

"O maior impacto hoje no mercado diz respeito ao temor fiscal", diz Simone.

"A entrevista do Bolsonaro ontem [segunda], dizendo que vai ter auxilio emergencial em 2021, mesmo ressaltando a preocupação com o fiscal, foi uma mudança na retórica", diz Rodrigo Marcatti, presidente da Veedha Investimentos.

Para Marcatti, a queda na aprovação do presidente, observada em uma pesquisa da XP em parceria com o Ipespe, pode ajudar a uma volta mais rápida do auxílio.

Segundo o levantamento feito com 1.000 pessoas, o grupo de respondentes que consideram o governo Bolsonaro ruim ou péssimo passou de 40% em janeiro para 42% em fevereiro. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais.

Os que veem o governo como bom ou ótimo foram de 32% para 30% . Esse é o quarto levantamento consecutivo em que há aumento na avaliação negativa, que cresce desde outubro, quando atingia 31%.

A alta na reprovação é impulsionada principalmente pelo grupo dos mais pobres (entre os que ganham até dois salários mínimos ela saltou de 39% para 45%) e pelas regiões Norte-Centro-Oeste (32% para 40%) e Nordeste (43% para 48%).

Já o Ibovespa fechou em queda de 0,19%, a 119.471 pontos, pressionado pela queda da Petrobras.

As ações preferenciais (mais negociadas) da estatal caíram 2% e as ordinárias (com direito a voto) recuaram 2,6%, ampliando as perdas da véspera, em meio a receios do mercado sobre a política de preços da empresa. Nem a melhora no preço do barril de petróleo Brent (referência internacional), que fechou em alta de 0,88%, evitou o recuo dos papéis. No setor, PetroRio caiu 4,13%.

A maior alta do Ibovespa foi da Sabesp, que saltou 7,10% após nota técnica da agência reguladora paulista sobre revisão tarifária da empresa de saneamento básico de São Paulo propor tarifa média de R$ 4,8413 por metro cúbico. Considerando os parâmetros da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo), o Bradesco BBI estimou que o reajuste fique perto de 17%.

A EzTec cedeu 3,36%, após desistir do IPO de sua unidade de imóveis comerciais Ez Inc., citando condições de mercado. O sinal negativo também predominava entre seus pares, com o índice do setor imobiliário caindo 1,72%, pior desempenho entre os índices de ações setoriais da B3.

A CVC, por sua vez perdeu 1%, após quatro membros do conselho de administração da empresa de turismo renunciarem, entre eles o presidente do colegiado. A companhia, que não detalhou a razão da saída dos conselheiros, convocou assembleia para 11 de março para aprovar novos membros.

Em Nova York, o índice Nasdaq fechou em nova pontuação recorde nesta terça, com alta de 0,14%. O Dow Jones teve leve queda de 0,03% e o S&P 500 perdeu 0,11%.