Dólar rumo a R$ 5? Moeda mudou de patamar? Entenda por que a cotação não para de subir

Mais uma vez, o dólar ameaça romper a barreira dos R$ 5. Nesta terça-feira, a moeda americana teve máxima de R$ 4,9991 e, depois de o Banco Central anunciar um leilão extraordinário de até 10 mil contratos de swap cambial (operação equivalente à venda de dólar no mercado futuro), fechou cotada a R$ 4,9901.

Antes do feriado de Tiradentes, em 20 de abril, porém, a divisa era cotada a R$ 4,6194.

Mas, afinal, o que explica a forte alta recente da moeda americana? O câmbio mudou de patamar?

Para Mauricio Ferraz, da Kinitro Capital, não há sinais de arrefecimento:

— Acreditamos que a moeda vai continuar volátil nos próximos dias e não podemos descartar que supere os R$ 5 no curto prazo. No entanto, ainda é cedo para afirmar que o novo patamar de câmbio será acima dos R$ 5.

Pam Semezzato, analista de investimentos da Clear Corretora, por sua vez, prevê que a moeda pode seguir em alta. Para ela, a próxima barreira de resistência se encontrará em R$ 5,060.

Veja, abaixo, os principais motivos que explicam a alta do dólar.

O avanço da Covid-19 tem levado a lockdowns em grandes cidades chinesas e afetando a produção em várias fábricas na segunda maior economia do mundo. Depois de Xangai, há o tempor agora de que Pequim tenha um lockdown imposto pelo governo, após terem sido realizados testes em massa na população da capital chinesa.

Os efeitos da Covid na economia chinesa levaram a uma queda nas cotações de commodities nos últimos dias, respingando em países exportadores dessas matérias-primas, como o Brasil.

Para tentar acalmar os mercados, o Banco do Povo da China (PBoC, banco central) prometeu intensificar o apoio a indústrias e pequenas empresas afetadas pela pandemia. Também reiterou que manterá a liquidez razoavelmente ampla.

Mesmo assim, Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, diz que o abre e fecha da China pode prejudicar a cadeia de suprimentos:

— A incerteza do crescimento chinês pesou bastante, derrubando commodities e contaminando as cestas de moedas emergentes. Tendo em vista esse cenário, a gente vê o dólar mais valorizado em torno de R$ 4,89 e R$ 4,90. Mas, no fim do ano, com eleição, isso pode acabar levando o dólar rondar R$ 5.

Tiago Fraga, sócio e assessor de investimentos da Ável, acrescenta que há temor de que a covid se espalhe pelo mundo e gere a necessidade de novos períodos de isolamento social. Por isso, muitos investidores estão mais avessos ao risco, buscando a saída do mercado de divisas emergentes.

— A China estava focada em crescimento, demandando muitas commodities como petróleo, minério de ferro. Agora, acabaram por optar priorizar a questão sanitária. Com isso, a China freia a economia global.

Após dois meses de guerra entre Rússia e Ucrânia, não há perspectivas de que o conflito chegue ao fim em breve. As sanções ocidentais à Rússia pela invasão da Ucrânia fizeram o petróleo subir.de alguns produtos. Rússia e Ucrânia, juntas, respondem por 30% das exportações mundiais de trigo, por exemplo.

O milho, usado para ração animal, tem 16% das exportações mundiais provenientes da Ucrânia. Com cotação elevada no mercado internacional, o grão também afeta a inflação, aumentando inclusive o preço de proteínas.

Tanto no Brasil, quanto no exterior, a inflação preocupa, fazendo os bancos centrais repensarem as políticas monetárias e sinalizarem para novas altas de juros.

Nos Estados Unidos, a inflação anual chega a 8,5% — a maior em 41 anos. Para voltar ao patamar de 2% (meta de referência do país), o presidente do Federal Reserve (Fed), Banco Central Americano, afirmou que está pronto para aumentar repetidamente as taxas de juros em 0,5 ponto percentual, se for necessário.

O aperto monetário provoca conhecido como "flight to quality" (ou voo para a qualidade, numa tradução livre), com investidores procurando investimentos mais seguros. Afinal, com o Fed subindo juros, os títulos do Tesouro americano, considerado a aplicação mais conservadora que existe, passam a render mais.

No cenário interno, é divulgada nesta quarta a prévia da inflação oficial de abril, número que será utilizado pelo Copom, o Comitê de Política Monetária do nosso Banco Central, na próxima definição da taxa básica de juros Selic, que acontece em reunião na semana que vem.

De acordo com o Boletim Focus, as expectativas de inflação subiram de 6,86% para 7,65% nesta semana. A previsão, em elevação há 15 semanas, é mais que o dobro da meta oficial da inflação para o ano, de 3,5%. A projeção do mercado para a Selic neste ano também subiu, indo de 13% para 13,25%.

— O mercado fica pessimista com a recuperação do Brasil, para os nossos patamares de inflação nos próximos anos. Isso também é alinhado com um aumento monetário mais forte nos Estados Unidos. Se a gente coloca na balança, ficam mais favoráveis ativos de menos risco fora dos países emergentes. Se os Estrados Unidos aumentam proporcionalmente a taxa de juros, fica cada vez mais atrativo deixar esses valores onde se tem menos risco — explica Tiago Fraga, da Ável.

O cenário político também interfere na reação do mercado, segundo Camila Veloso, assessora de investimentos da 3A.

Na última semana, o presidente Jair Bolsonaro concedeu indulto ao deputado bolsonarista Daniel Silveira, após esse ter sido condenado a oito anos de prisão por ameaças e incitação à violência contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão vem sendo alvo de questionamentos.

O perdão vai contra uma decisão quase que unânime do STF e cria uma série de ruídos entre os Três Poderes, o chamado risco institucional.

— Além do lockdown na China, principal parceiro comercial do Brasil, levando a fechamento de portos e cidades, gerando uma diminuição no consumo, impacta também a tensão institucional do Brasil entre o poder executivo federal e o judiciário, diante do indulto concedido por Bolsonaro ao deputado bolsonarista Daniel Silveira — opina Camila.

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