Dúvidas e frustração marcam volta às aulas na rede pública municipal do Rio

Diego Amorim e André Coelho
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RIO — O primeiro dia de volta às aulas na rede municipal de ensino do Rio, ainda no modelo remoto, foi marcado por muitas dúvidas e nenhuma aula. A abertura das atividades pela TV Escola (canal 2.3, na TV aberta) foi feita pelo secretário da pasta, Renan Ferreirinha. Os pais ainda estão preocupados com a eficácia do sistema híbrido — que começa no dia 24 de fevereiro. Outra questão levantada é o fato de as aulas pela TV, inicialmente, terem apenas 15 minutos. As turmas do 6º ano, por exemplo, terão 30 minutos de matemática por semana.

— Tive muitas dúvidas sobre a grade divulgada pela escola. Ainda falta muita transparência, percebo muitas lacunas em relação ao retorno — afirma a nutricionista Luciana Nascimento, de 41 anos, que teme pela adaptação da filha, de 4 anos. — Ela não gostou, não reagiu bem ao sistema remoto. Disse que não quer mais assistir às aulas pela TV ou internet. Penso no desafio para mães com mais de um filho, com ritmo de trabalho intenso ou sem televisão em casa.

Sobre o tempo curto das aulas, a Secretaria municipal de Educação explicou que os professores enviarão também atividades de apoio pelos livros do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) e, a partir do fim do mês, pelo aplicativo Rioeduca em Casa (que não consome o pacote de internet do celular). A pasta informou ainda que os estudantes que não têm acesso à internet vão receber o material didático impresso e irão às escolas para buscar e deixar as atividades didáticas. As dúvidas dos estudantes sobre o conteúdo apresentado na TV poderão ser enviadas por e-mail e WhatsApp (os canais serão divulgados durante as aulas) e serão respondidas pelo professor ao vivo.

Algumas famílias reclamam porque não sabem quais escolas estão aptas a receber os estudantes para aulas presenciais — já se sabe que 44 delas não têm infraestrutura para atender às exigências sanitárias da pandemia do coronavírus. Também não foram divulgados os horários das aulas presenciais e as atividades em rodízio. O calendário da volta por turma não foi publicado.

De acordo com a secretaria, a volta dos alunos está condicionada às condições epidemiológicas de cada região administrativa da cidade. Se for considerada moderada (bandeira amarela) para risco de contágio de Covid-19, as unidades escolares poderão receber 75% dos alunos. Se estiver alta (bandeira laranja), 50% e, muito alta (bandeira vermelha), 30%.

O funcionário público Leonardo Rocha, de 36 anos, é pai de Francisco, de 6 anos, aluno do 1º ano do ensino fundamental, e teme pelo aprendizado das crianças:

— Provavelmente, haverá um abismo no aprendizado porque escolas de áreas mais humildes serão as últimas a voltar.

O retorno presencial será escalonado. Na primeira fase, voltam parcialmente alunos da pré-escola, do 1º e do 2º ano.

Na rede estadual, as aulas presenciais e remotas começam em 1º de março. Nesta segunda-feira, no entanto, as escolas começaram a receber os estudantes, que vão responder a um questionário para avaliar a situação de cada um.

Frequência de alunos foi alta nas escolas particulares

Autorizada desde a semana passada, a volta às aulas presenciais nas escolas particulares do Rio teve procura maior de alunos que na retomada que ocorreu no segundo semestre de 2020. Com máscaras obrigatórias, distanciamento entre mesas, rodízios de turmas e transmissão em tempo real das aulas para quem está em casa, as escolas adotaram protocolos de segurança rígidos para um ano atípico. Segundo o Sindicato das Escolas Particulares do Estado (Sinepe), todas as unidades privadas devem estar com atividades presenciais até o próximo dia 22. De acordo com regulamentação do governo estadual, na capital, as turmas podem ter de 35% a 50% dos alunos.

Diretora da Escola Nova, na Gávea, que iniciou o ano letivo dia 2 alternando grupos entre presencial e remoto, Verinha Affonseca diz que se surpreendeu com o interesse dos pais dos cerca de 940 alunos.

— Ano passado, eles estavam mais receosos, agora estão loucos para voltar — conta Verinha, que, no entanto, já prevê possíveis suspensões temporárias de aulas por conta de contaminações. — Ainda vai ser um ano muito complicado.

Diretor pedagógico da rede Força Máxima, que tem cerca de quatro mil alunos em nove unidades espalhadas por São Gonçalo, Rio, Baixada Fluminense e Petrópolis, Felipe Domingos também afirma que a procura foi grande. A rede retomou as atividades presenciais nesta segunda-feira com grupos alternados e intervalos escalonados para reduzir o número de crianças no pátio:

— A gente teve uma presença muito acima do que já tivemos em outros momentos da pandemia. Hoje (segunda-feira) compareceu quase todo mundo que estava previsto.

No Colégio Andrews, em Botafogo, que retomou as aulas nesta segunda-feira, as séries têm dias fixos por semana, e as turmas foram divididas em salas, sem alternância de grupos. Segundo o diretor Pedro Flexa Ribeiro, a frequência foi muito maior que na retomada em 2020:

— Há um interesse muito grande do público dos menores, do ensino fundamental 1 e da educação infantil.

O administrador de empresas Frederico Pinheiro conta que a falta de convivência da filha de 6 anos com outras crianças foi um fator determinante para sua família decidir pelo retorno presencial na Escola Edem, no Largo do Machado:

— Foram muitos meses de distanciamento e ela não se adaptou ao ensino remoto. Achei que a escola apresentou uma boa condição sanitária, e me senti seguro.

Mas ainda há pais receosos. Mãe de duas crianças, de 4 e 7 anos, a servidora pública Aline Torres optou por iniciar o ano letivo da filha mais velha, no Ceat, em Santa Teresa, apenas de forma remota, porque a menina tem contato com a avó.

— Se a avó se vacinar, a gente pode repensar — afirma.