Da 'bag' ao prato: de ponta a ponta, a dependência do delivery dispara no Brasil

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Na semana que marca o Dia Mundial da Alimentação — celebrado dia 16 de outubro —, o Yahoo Finanças inicia uma série de vídeos de receitas que trazem muito mais do que apenas um prato: trazem todo o ato político que há em comê-lo. "Comer: Ato Político" é apresentada pelo chef e gastrólogo Zeh Barreto, que comanda a cozinha com receitas prática e dicas preciosas para você economizar e melhorar a qualidade da sua alimentação e bem-estar. Até sábado (23), O Yahoo publicará seis episódios diários com os temas: Inflação dos alimentos; Vegetarianismo; Alimentos ultraprocessados; Dicas para evitar o desperdício; Como reduzir o delivery; e Como fazer o descarte correto.

Acompanhem!

 

por Ethieny Karen e Thalya Godoy

O que era uma necessidade no início da pandemia, ainda nos primeiros meses de 2020, tem se transformado em uma dependência. O delivery de alimentos através de aplicativos especializados ou de mensagens mudou o hábito alimentar dos brasileiros. 

A análise é de um dos maiores estudos de alimentação e saúde do país, feito pelo Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde), ligado à Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo). 

O levantamento mostrou aumento generalizado na frequência de pedidos por frutas, hortaliças e feijão — de 40,2% para 44,6% —, durante a pandemia de covid-19.

Dados do setor de delivery de comida mostram um salto de 155% no número de usuários de março a abril do ano passado, quando o estimado para o período era de 30%. O crescimento de pedidos também acompanhou o crescimento de usuários, atingindo expressivos 975% de aumento.

Levantamento da Statista – empresa especializada em dados de mercado e consumidores – mostra o Brasil como destaque no segmento de delivery na América Latina em 2020. 

No período, o Brasil foi responsável por quase metade dos números do delivery, 48,77%. Em seguida estão México e Argentina, com 27,07% e 11,85%, respectivamente. E as previsões para 2021 são de mais crescimento e estimam um movimento de aproximadamente US$ 6,3 trilhões do delivery em todo o mundo até dezembro.

Consumo frequente disparou durante a pandemia

Tatiana Santos, 40, é executiva de vendas. Devido a vida corrida, ela acaba consumindo comidas por aplicativos, no mínimo, quatro vezes por semana. Antes da pandemia ela pedia apenas aos finais de semana, porém agora os pedidos são tão frequentes que, em algumas semanas, ocorrem todos os dias da semana.

Segundo dados da pesquisa “Consumo de comida delivery por aplicativo” realizada pelo Instituto Qualibest, os jovens entre 20-29 são os que mais pedem (54%), sendo as mulheres o gênero que frequentemente pede (67,5%). A maioria possui ensino superior (56%) e tem renda entre R$ 2 mil a R$ 4 mil.

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Jovem entregador de bicicleta pelas ruas do Rio de Janeiro. (Foto: Getty Images)

A pesquisa ainda complementa que a maioria dos brasileiros pedem mais através dos aplicativos (94%). As capitais (96%) são as que mais pedem pelos aplicativos de delivery, em segundo as regiões metropolitanas (95%) e os interiores (91%) em terceiro.

Alexandre Luis Boer, diretor comercial, gasta em média R$ 400 com pedidos de delivery. Devido a vida corrida, ele acaba pedindo todos os dias da semana. Em sua maioria lanches, açaí e marmitas.

Estimulados pela facilidade e praticidades, economia de tempo e cupons de promoção, há usuários que pedem diversas vezes, mas muitas vezes quem paga as “promoções” são os entregadores e os restaurantes.

Na outra ponta do negócio, temos um enorme volume de trabalhadores que migraram para a "uberização" da entrega de comida por conta do aumento da demanda e crescimento do desemprego.

A 'uberização' do trabalhador de delivery no Brasil

Jean Cristian Conti tem 29 anos e trabalha como motoboy há um ano e nove meses. Ele faz cerca de 12 a 14 horas diariamente, seis dias por semana, para ganhar de R$ 150 a R$ 170 por dia. 

O ganho médio bruto gira em torno de R$ 3.600 por mês. Além das despesas com a manutenção, gasolina e alimentação, também existem as contas de casa.

Essa é a realidade de 3,8 milhões de brasileiros, que têm em aplicativos como sua principal fonte de renda, apontam os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2019.

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) com entregadores ciclistas de aplicativo na cidade de São Paulo, indica que os bikeboys são predominantemente negros (71%) e jovens (75% - em sua maioria tinham até 27 anos).

Flávia Oliveira é doutora em psicologia social do trabalho e compreende que a uberização — em referência a empresa mais conhecida — nada mais é do que uma atualização de um mercado excludente e das constantes perdas de leis trabalhistas.

“Entre o novo e o arcaico, a uberização atualiza as formas de controle e as desigualdades sociais. Pode ser compreendida como um ‘resultado’ do que se acumulou há ao menos cinco décadas: cadeias de produção fragmentadas com massivos processos de terceirização e de subcontratações, além da progressiva perda de direitos sociais e trabalhistas”, ela afirma.

As exaustivas entregas, o medo de acidentes, a falta de alimentação e a desumanização desses entregadores afeta diretamente a saúde mental e física desses jovens, explica Flávia Oliveira.

“A intensificação do trabalho e aumento das horas de trabalho produzem desgastes de diversos níveis, o que inclui o desgaste orgânico, funcional e o desgaste subjetivo, levando os sujeitos à exaustão, a alterações psicológicas e fisiológicas transitórias ou cumulativas, e ao envelhecimento precoce.”

Entregadores prestando serviços às empresas Ifood e Rappi em motocicletas durante a pandemia da Covid, em São Paulo.
Entregadores prestando serviços às empresas Ifood e Rappi em motocicletas durante a pandemia da Covid, em São Paulo. (Foto: Getty Images)

Alexsis Michel Gregório tem 34 anos e faz entregas como complemento de renda. Durante a pandemia viu os números de entrega aumentar e a renda de casa também. Com uma filha pequena para criar, as entregas ajudam nas contas.

Ele acaba ficando cerca de 5 a 6 horas sem comer, enquanto faz as entregas. A jornada dupla é exaustiva, principalmente nos dias com mais entregas.

Os horários e refeições mais "preferidos"

Os dias com maior frequência de pedidos nos deliverys são, segundo dados da DeliveryMuch: 

  • Sábado (64%);

  • Sexta (62%);

  • Domingo (30%);

O jantar (18h às 00h) é o horário com maior volume, na sequência o almoço (11h às 14h), com 27%, que vem aumentando sua frequência de pedidos. Já os horários da tarde, das 14h às 18h, e da madrugada (00h às 06h) aparecem com 10% e 5% respectivamente.

Cupom e frete grátis: vantagens só para um dos lados?

Jennifer é dona do restaurante Apetite. Seu negócio atende de forma híbrida, por meio de aplicativos de entrega e presencialmente. Ela começou de forma tímida a se aventurar nos apps antes da pandemia, mas com o avanço de casos de Covid-19 a solução foi apostar com mais força no delivery.

A dona do restaurante explica que cupons de descontos e frete grátis ofertados nos aplicativos, em sua maioria, são bancados integralmente pelo estabelecimento. Se não há promoção, o número de pedidos cai expressivamente.

“Uma coisa é certa: o lucro não consegue ser igual ao que é da retirada no balcão presencial. Ajuda bastante, mas tem que fazer as contas muito certinhas”, diz Jennifer.

Além dos custos na preparação do prato, é preciso levar em consideração o cupom de desconto, frete grátis e a taxa cobrada pelas plataformas, o que exige uma organização financeira bem controlada.

“As pessoas, geralmente, não compram sem terem a entrega grátis. Até compra, mas, por exemplo, com frete gratuito eu tenho cinquenta pedidos no dia. Sem a entrega grátis eu tinha dez, quinze”, ela estima.

Segundo dados da Associação Nacional de Restaurantes (ANR), os deliverys correspondiam apenas a 11% do faturamento total dos restaurantes, em dezembro de 2020 esse número aumentou para 21%.

“Continua compensando até hoje, a gente faz mais ou menos uns 40% da nossa renda do dia com o delivery ”, afirma Jennifer.

Artveg, é um restaurante de comida vegana que abriu durante a pandemia. Todos os pedidos são através do delivery. Janaina Cabanha e Isabely Mongelli são sócias e fundadoras do estabelecimento. A ideia era abrir era ser um espaço aberto ao público, contudo a pandemia fez mudar os planos.

Devido à maior flexibilização, os pedidos que eram grandes no começo da pandemia deram uma diminuída, afetando tanto o estabelecimento, quanto os entregadores. “Ainda é uma maneira mais segura de se alimentar e trabalhar. Com os deliverys, os motoboys ficaram como uma classe essencial. Tanto para empresa, quanto para o cliente. O motoboy ficou como uma peça fundamental”, afirma Janaina Cabanha.

Segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o mercado de aplicativos de delivery faturou cerca de R$ 11 bilhões, um crescimento anual de R$ 1 bilhão, tendo uma participação direta em 15% no setor de alimentação e bebidas.

William Lima é estudante de nutrição e entregador de bicicleta. Ele faz parte do movimento de Entregadores Antifascistas e expõe as dificuldades que enfrenta sendo entregador.

“Mesmo com contrato, recebendo por hora trabalhada, não existe um local para a gente aguardar. Quando começaram a surgir as empresas de aplicativo, ficamos sem contrato e ficamos ainda mais vulneráveis em ficar entre uma entrega e outra”, afirma o entregador.

Entregador, por volta de 60 anos, aguarda a saída de mais um pedido para entrega, em São Paulo.
Entregador, por volta de 60 anos, aguarda a saída de mais um pedido para entrega, em São Paulo. (Foto: Getty Images)

Sob sol e sob chuva, a entrega segue

William relata que com a chegada dos aplicativos, as vulnerabilidades que os entregadores enfrentam são enormes. De não ter onde se abrigar em casos de chuva e sol forte, até perigos de acidentes e assaltos.

Cerca de 13 mil internações hospitalares foram registradas no Sistema Único de Saúde (SUS) causadas por atropelamento de ciclistas desde 2010. É o que demonstra o levantamento realizado pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), que ressalta, ainda, o gasto de R$ 15 milhões todos os anos para tratar ciclistas traumatizados em colisão com automóveis, ônibus, motocicletas, caminhões e outros veículos.

A pesquisa ainda aponta que na última década, 13.718 ciclistas morreram no trânsito após se envolverem em algum acidente, 60% por atropelamento. Esse é um dos medos de Robert Gonçalves, 36 anos, que já foi entregador de aplicativo, mas parou devido a baixa remuneração e aos inúmeros acidentes que viu envolvendo outros jovens que fazem entregas. 

“É uma vergonha. Muitos trabalhadores de aplicativo trabalham sujos, cansados e esgotados. Não tem dinheiro nem para almoçar, muitos deixam de comer para não diminuir os ganhos”, desabafa.

Edgar Silva, mais conhecido como “Gringo”, é presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (AMABR) e relata uma falta de transparência e suporte na relação dos aplicativos com os entregadores. “Eles que decidem quem vai bloquear, não dão chance de defesa e nem explicam os motivos. Não perguntam o valor para o entregador, ou seja, todas as regras eles que dão e não oferecem nada em troca”.

“Gringo” explica que muitas vezes os motoristas não são notificados quando a corrida é promocial e vão ganhar menos. "Eles oferecem para o cliente aquela promoção, nada depende da vontade do entregador. Não tem nenhum tipo de respaldo ou adicional”, afirma.

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