Da Baixada ao Planalto, ascensão de Daniela e Waguinho teve truculência, alvos da Lava-Jato e vaivém político

A ascensão da deputada federal Daniela Carneiro (União-RJ), que deixou o baixo clero da Câmara para assumir o Ministério do Turismo e representar o estado do Rio no governo Lula, caminha lado a lado com a expansão política de Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho, prefeito de Belford Roxo e seu marido. “De faxineiro a presidente da Câmara de Vereadores” do município da Baixada Fluminense, lema que transformou em título de um livro lançado em 2015, Waguinho galgou outros degraus desde então. Para isso, amparou-se em alianças com alvos da Lava-Jato e numa gestão truculenta na prefeitura, pela qual foi denunciado como “topo” de uma organização criminosa.

A estrutura montada no município, e que impulsionou as votações de Daniela, virou fonte de desgastes na sua primeira semana como ministra.

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Daniela ingressou na política após o marido, eleito prefeito de Belford Roxo em 2016, nomeá-la como secretária municipal de Assistência Social. Em 2018, concorreu a deputada federal usando o nome “Daniela do Waguinho”, que só retirou após ser nomeada no ministério por Lula. Reeleita à Câmara no ano passado com a maior votação do estado, Daniela acumulou 114,3 mil votos apenas em Belford Roxo, o que representa 48,8%, dos votos válidos da cidade.

A segunda colocada no município, Sula do Carmo (Avante), teve 8,4 mil votos à Câmara, cem mil a menos do que Daniela. Adversária de Waguinho, Sula acusou seguranças armados do prefeito de agredi-la na campanha. A votação de Daniela superou até os 102,5 mil votos do próprio Lula na cidade no segundo turno, já com o apoio de Waguinho.

A transformação do município de 330 mil eleitores em um feudo da família Waguinho ocorreu com as bênçãos do ex-deputado Eduardo Cunha, à época presidente da Câmara e um dos caciques do PMDB fluminense. Cunha articulou em 2013 a filiação de Waguinho, então deputado estadual, ao antigo PMDB, e foi seu padrinho político até ser cassado pela Câmara em 2016.

Waguinho teve apoio ainda do então presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Jorge Picciani, falecido em 2021, que avalizou a origem de sua aliança com o também deputado estadual Márcio Canella, do PSL, eleito vice-prefeito em 2016.

Uma vez na prefeitura, Waguinho se afastou dos caciques peemedebistas, que seriam presos em investigações por corrupção, e imprimiu estilo próprio — descrito como “ambicioso” por aliados e “picareta” por adversários. No primeiro mês de sua gestão, em 2017, pessoas ligadas a Waguinho fizeram ao empresário Moisés de Souza Boechat uma proposta de “arrendamento”, por R$ 1 milhão, de sua empresa BOB Ambiental, responsável pelo aterro sanitário que atendia Belford Roxo, contrato avaliado em R$ 91 milhões.

Em depoimento ao Ministério Público do Rio (MP-RJ), Boechat relatou que, diante de sua recusa, os emissários se irritaram e disseram que “partiriam para o plano B”, acionando Waguinho. No mesmo dia, a empresa foi “invadida” pela Guarda Municipal de Belford Roxo junto a homens “descaracterizados, porém, com vestimentas do tipo militar, não oficiais, (...) portando arma de fogo”. Ainda segundo o MP, os agentes de Waguinho impuseram “represálias”, abrindo “valas” para impedir o acesso de caminhões de lixo.

Em paralelo, a prefeitura determinou que os resíduos passassem a ser jogados em um lixão ao lado do aterro sanitário. A partir do episódio, Waguinho virou réu por crime ambiental em 2020 e, em outra frente jurídica, foi denunciado pelo MP como líder de uma organização criminosa que promoveu fraudes em licitações. Ele chegou a ficar dois meses afastado do cargo, entre abril e junho de 2019. O caso segue em análise pelo 2º Grupo de Câmaras Criminais do TJ-RJ.

A relação com grupos armados transbordou para as campanhas de Daniela, fotografada entre 2018 e 2022 com quatro cabos eleitorais acusados de serem milicianos — o histórico não impediu os policiais militares Luiz Eduardo Santos de Araújo e Juracy Alves Prudêncio, o Jura, de ocuparem cargos na prefeitura, mesmo caso dos vereadores Fabinho Varandão e Marcinho Bombeiro.

Aos trancos e barrancos, Waguinho e Daniela despontaram na política estadual após o prefeito assumir o diretório do União Brasil, com acesso a um fundo eleitoral de R$ 757 milhões. Interlocutores ouvidos pelo GLOBO dizem que Waguinho centraliza a gestão política, ao passo que a ministra “não sabe quanto custa nem uma encomenda de panfletos”.

São atribuídas a ele decisões controversas, como a de acenar com uma candidatura de Anthony Garotinho (União) enquanto negociava aliança com o governador Cláudio Castro (PL). Um assessor de Waguinho chegou a assinar documentos em apoio aos dois candidatos com grafias distintas. Aliados de Garotinho dizem que ele passou alguns dias “colado” em Waguinho para evitar que o prefeito mudasse de posição, mas prevaleceu a aliança com Castro.

Outra guinada de Waguinho foi a decisão de apoiar Lula no segundo turno, horas após se reunir com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A decisão estremeu a relação entre ele e Canella, seu aliado desde 2016, que apoiou Bolsonaro.

O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), que deixou o União Brasil após ver o comando do partido ficar com Waguinho, diz que a origem de seu atrito está no descumprimento de um trato após um grupo de pastores apoiar a primeira eleição do prefeito, que também é evangélico.

— Ele garantiu que me apoiaria a deputado federal em retribuição, e logo em seguida exigiu a uma vereadora que traísse o acordo. É um sujeito que não cumpre palavra.

A prefeitura de Belford Roxo não comentou as acusações do MP contra Waguinho. A assessoria de Daniela Carneiro diz que a ministra “não compactua” com atos ilícitos, mas que recebe apoio de “milhares de eleitores”.

A trajetória de Waguinho e Daniela Carneiro

Conquista de Belford Roxo

Ex-faxineiro na Câmara de Vereadores, Waguinho elegeu-se vereador em 2008, pelo PRTB, e logo assumiu a presidência da Casa. Foi eleito deputado estadual em 2010 e concorreu à prefeitura em 2012, mas foi derrotado no segundo turno. Em 2016, concorreu novamente e se elegeu prefeito.

De apadrinhado a cacique

Apadrinhado pelo então deputado Eduardo Cunha, migrou em 2013 para o antigo PMDB, à época partido mais forte do Rio, onde também recebeu apoio do ex-deputado Jorge Picciani. Com a derrocada da sigla na Lava-Jato, migrou para o União Brasil e assumiu o diretório estadual.

Entre Bolsonaro e Lula

Embora sinalizasse uma aliança com Bolsonaro desde a reeleição à prefeitura de Belford Roxo, em 2020, Waguinho optou no segundo turno presidencial de 2022 por apoiar Lula. A decisão foi tomada horas após uma reunião com o clã Bolsonaro, e irritou seu antigo vice-prefeito, Márcio Canella.

Projeção em família

Em 2017, Waguinho nomeou a mulher, Daniela Carneiro, como secretária de Assistência Social, preparando terreno para sua eleição como deputada federal no ano seguinte. Em 2022, Daniela se reelegeu com a maior votação do Rio, em uma campanha com apoio de milicianos.