Da China ao Japão, uma visão do legado de Shinzo Abe

Assassinado a tiros na última sexta, o ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe deixa como principal legado uma visão de política externa que virou consenso em seu país, com foco na defesa e na consolidação de alianças para encarar o avanço da China. Essa é a avaliação do brasileiro Eric Vanden Bussche, professor de estudos asiáticos na Universidade de Tóquio. Para ele, o atentado contra Abe torna o momento ainda mais propício para uma mudança estrutural na política de defesa japonesa, incluindo alterações na Constituição pacifista do país — como queria o ex-premiê.

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Formado em História pela Universidade de São Paulo, Vanden Bussche tem mestrado em História Chinesa pela Universidade de Pequim e doutorado também em História Chinesa pela Universidade Stanford (EUA). Na rivalidade com a China, a geopolítica é importante, diz ele, mas o foco do Japão é não perder terreno na corrida tecnológica — o que em grande parte explica a aproximação com Taiwan.

Como foi a reação em Tóquio?

Um choque total, mesmo entre os que não gostavam dele. Shinzo Abe moldou grande parte da política externa e da política econômica do Japão na última década. E embora ele tenha deixado o cargo de primeiro-ministro em 2020, ainda era o político mais influente do Japão. Além disso, as pessoas viram o assassinato como um atentado à democracia.

As visões nacionalistas de Abe causavam divisão no país. O atentado aparentemente não teve motivação política. Mas havia a sensação de que ele poderia ser alvo de um ato de violência?

Não havia isso. Até 2019, ele era bastante criticado por suas visões extremamente nacionalistas. Mas nos últimos anos houve uma mudança de atitude no público japonês por causa do avanço militar da China. E a guerra na Ucrânia deixou os japoneses mais preocupados. Hoje as visões nacionalistas de Abe recebem bem menos críticas do que antes. Em 2015, ele conseguiu fazer uma pequena mudança no artigo nove da Constituição [para permitir o envolvimento do país em ações militares coletivas], mas sob protestos e após muitas negociações.

Agora, se o primeiro-ministro Fumio Kishida quiser fazer mais alterações nesse artigo, ele vai encontrar muito mais apoio popular. Esse apoio não é necessariamente fruto de nacionalismo, mas principalmente da percepção de que o país deve se adaptar à nova realidade geopolítica e para isso precisa ter uma postura mais assertiva, tanto do ponto de vista econômico como político-militar. O Japão sente a ameaça da China e tem o respaldo do público nisso.

De onde vem essa percepção?

Todos falam em geopolítica. Ela é importante, mas o que interessa mesmo é a corrida tecnológica. Uma das coisas que estão tendo continuidade com os sucessores de Abe é o plano de desenvolver o Japão tecnologicamente e também de criar uma espécie de cadeia de suprimentos para obter metais raros e semicondutores, especialmente de Taiwan [líder mundial na fabricação de chips] e do Sudeste Asiático. A defesa do Japão a Taiwan não é apenas uma questão geopolítica. O Japão está estreitando seus laços comerciais com Taiwan justamente porque quer investir na indústria de semicondutores, facilitar o desenvolvimento nessa área e avançar na supremacia tecnológica.

Há outro ponto, que é geracional. No 70º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, Abe fez um discurso dizendo que as novas gerações não podiam mais ficar pedindo desculpas por algo pelo qual não são responsáveis. Esse pensamento nacionalista do Abe também está no atual primeiro-ministro. Só que Kishida, que é de Hiroshima, não é visto como tão nacionalista como Abe. Isso pode ser um trunfo se ele tentar modificar a política de defesa do Japão ou se resolver adotar uma linha mais dura com a China, pois pode alegar que é fruto de pragmatismo, não de ideologia.

Como o atentado contra Abe pode influenciar nisso?

Tenho ouvido que o assassinato do Shinzo Abe é o momento JFK [John Fitzgerald Kennedy, presidente americano assassinado em 1963] do Japão. Eu concordo e vou além. Uma das coisas que Kennedy queria fazer era implementar a lei dos direitos civis. E [seu vice] Lyndon Johnson acabou tendo sucesso nisso porque o assassinato gerou uma grande comoção e uma união em torno de Johnson, que por ser sulista teve mais espaço para negociar que Kennedy, que era do norte. Há um paralelo com o que está acontecendo agora no Japão, com o assassinato da maior liderança política japonesa, a mudança na opinião pública e um primeiro-ministro que não tem a pecha de nacionalista. Esses fatores talvez permitam que ele faça mudanças na Constituição. Se isso vai ser bom ou ruim para o Japão e o impacto que isso terá para a geopolítica internacional, vamos ter que aguardar para ver. Mas eu sinto que o momento é propício para mudanças estruturais.

A China marcou intensamente a trajetória de Abe, tanto pessoal, pela participação de seu avô na ocupação japonesa da China, como política, em seus alertas sobre a ascensão do poderio chinês. É possível separar o nacionalismo da visão dele sobre a China?

Shinzo Abe tinha esse pensamento nacionalista, mas também era pragmático nas questões internacionais. Por exemplo, essa ideologia nacionalista permeou de forma muito mais aguda as políticas japonesas em relação à Coreia do que à China. Tanto que as relações entre Japão e Coreia estão em seu pior momento em anos. Com a China houve muito mais pragmatismo. Quando o Abe buscou se aproximar de Pequim, suponho que foi devido a uma preocupação com a política externa errática do primeiro ano do governo Trump, ele tinha medo de que aquilo ia acabar desmoronando. Mas depois do terceiro ano aumentou a confiança entre os governos EUA e Japão e, a partir da pandemia, o governo japonês percebeu a importância de criar novas cadeias de suprimento para os metais raros e os semicondutores e também de investir para competir com a China no Sudeste Asiático.

Houve uma aproximação com a China quando interessava ao Japão, mas quando eles perceberam que a situação geopolítica dava margem para adotar uma linha mais dura, foi o que fizeram. A China não quer retaliar contra o Japão porque o comércio bilateral ainda é significativo, mas eles temem uma escalada de provocações do governo japonês, porque aí eles não teriam como justificar à população não fazer absolutamente nada.

Outra característica da carreira política de Abe é a tendência ao negacionismo em relação aos crimes do Japão na guerra. Em que medida essa visão é popular no Japão?

Eu acho que ele realmente acreditava nisso, não era uma tática política. O avô do Abe [Nobusuke Kishi] foi acusado de crimes de guerra, para ele é um assunto pessoal. Se reconhecesse os crimes estaria admitindo que o avô merecia ter sido executado. Essa visão negacionista sobre o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial não me parece ser majoritária entre a população japonesa, as pessoas reconhecem que atrocidades foram cometidas. Houve um esforço do governo no período Abe de minimizar e até negar o que aconteceu, mas é diferente do sentimento geral. Um dos motivos tem a ver com a onda do K-pop coreano que invadiu o Japão no início dos anos 2000. Houve uma série coreana chamada “Sonata de inverno" que foi extremamente popular aqui e ajudou a mudar completamente a visão dos japoneses em relação à Coreia.

Qual o risco de que o aumento do nacionalismo tanto no Japão como na China leve a um conflito mais sério?

Por enquanto eu acho que isso não irá levar a sérios problemas nas relações entre os países. O Japão quer os turistas chineses de volta, e a China quer as relações econômicas. Mas o que haverá é uma escalada retórica. Nas reações da China sobre o assassinato de Abe foi muito interessante observar a diferença entre a mídia oficial e os comentários de leitores, muitos apagados pela censura. A impressão é que a imprensa chinesa mostrou uma certa neutralidade, enquanto nas mídias sociais vimos comemorações. Na China, o interesse é manter o sentimento anti-Japão sob controle, para que ele não se volte contra o governo. O fato de Kishida não ter essa pecha de nacionalista vai ajudar muito, pelo menos a curto prazo. Acho que os dois países teriam muito a perder a escalada saísse da retórica.

O assassinato de Abe aumentará o nacionalismo no Japão?

Acho que não aumentará o seu legado nacionalista. O maior legado de Shinzo Abe será nas relações internacionais, na preocupação com a defesa do Japão, o rearranjo geopolítico e o estreitamento das relações com Taiwan. Ele conseguiu criar uma espécie de consenso de que essa é a política a que o Japão deve seguir. E, nesse sentido, eu acho que ele é o líder japonês que teve o maior impacto na geopolítica mundial nas últimas décadas. A meu ver, a linha-dura dos EUA em relação à China em grande parte foi impulsionada pelo Shinzo Abe.

É preciso enfatizar novamente essa questão da supremacia tecnológica. É frustrante ler analistas que ou só enxergam a questão econômica ou só enxergam a questão política. As duas coisas estão interligadas. Entre 2018 e 2020, Abe viu uma abertura para fazer um rearranjo das peças na geopolítica do Pacífico e conseguiu fazer isso de forma extremamente inteligente. Também mostra a péssima estratégia do governo chinês nas relações internacionais. A aliança que eles fizeram com a Rússia é de uma idiotice total porque isso solidificou em países como Japão e Taiwan a justificativa para mostrar a Europa e EUA que é preciso conter a China.

Do ponto de vista do governo chinês é o contrário, seu fortalecimento militar é consequência das alianças ocidentais para conter a ascensão da China.

É verdade, mas a meu ver é a China que está provocando essa reação. Até o fim do governo Obama os EUA tentavam conviver com a China e até ignoravam certas provocações dos chineses. Mas os chineses acharam que podiam continuar empurrando os limites e exageraram na dose. Isso acabou facilitando a vida de Taiwan e Japão para ter uma aliança mais estreita com os EUA.

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