Da comunidade à rainha Paolla Oliveira, uma Grande Rio que se veste de Exu para desmistificar a divindade afro-brasileira

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As múltiplas potências de Exu vão dar os tons da Avenida quando a Acadêmicos do Grande Rio iniciar seu desfile neste sábado. Movimento, transformações, circularidades, conexões e alegrias são algumas das pulsões de Exu que vão virar alegorias grandiosas e fantasias originais com as quais a tricolor de Caxias, da rainha de bateria Paolla Oliveira, buscará seu primeiro título no Grupo Especial. A ideia da escola é desmistificar a imagem do orixá — que costuma ser vista de forma deturpada por parte da sociedade.

— Continuaremos contribuindo para o debate contra a intolerância e o racismo religioso do carnaval de 2020. Mas também será uma grande celebração, mostrando os Exus presentes no nosso dia a dia: nos bares, nas ruas, nas esquinas, nos mercados, nas feiras, na manifestações... Há uma expressão do (pesquisador Luiz Antonio) Simas que ajuda explicar bem o espírito desse enredo: é uma visão exuzíaca de mundo — diz Leonardo Bora, um dos carnavalescos da escola, ao lado de Gabriel Haddad.

O último setor, dizem os carnavalescos, que será o mais espiritual. Nele, última alegoria é toda composta de restos de fantasias velhas, pedaços de esculturas, adereços de outros carnavais e lixo recolhido pelos catadores da associação do antigo aterro de Gramacho, em Duque de Caxias. No enredo sobre Exu, é uma das soluções para mostrar que uma das chaves de compreensão do orixá é a transformação, a reciclagem.

— Não queríamos uma leitura romantizada e estereotipada do lixo, nem a estetização da miséria. Partimos, então, do olhar de Estamira (catadora que vivia em Gramacho), questionando o que é esse lixo. Entre suas provocações, ela dizia que é o material de uma sociedade deturpada, que exclui o que não considera apto. Utilizamos também a ideia de sustentabilidade. Dessa forma, trabalhamos com o produto de carnavais passados, mas também, em parceria com o Tião Santos, líder da associação de Gramacho, com pacotes e cápsulas de café, latinhas de alumínio, tampinhas, muita fiação, lixo eletrônico... — explica o carnavalesco Bora.

Autores: Gustavo Clarão, Arlindinho Cruz, Jr. Fragga, Claudio Mattos, Thiago Meiners e Igor Leal

Intérprete: Evandro Mallandro

Boa noite, moça, boa noite, moço...
Aqui na terra é o nosso templo de fé
“Fala, Majeté!”
Faísca da cabaça de Igbá
Na gira… Bombogira, aluvaiá!
Num mar de dendê...caboclo, andarilho, mensageiro
Das mãos que riscam pemba no terreiro
Renasce Palmares, Zumbi Agbá!
Exu! O Ifá nas entrelinhas dos Odus preceitos, fundamentos, Olobé
prepara o padê pro meu axé

Exu Caveira, Sete Saias, Catacumba
É no toque da macumba, saravá, alafiá!
Seu Zé, malandro da encruzilhada
Padilha da saia rodada… ê Mojubá!

Sou Capa Preta, Tiriri, sou Tranca Rua
Amei o sol, amei a lua, Marabô, Alafiá!
Eu sou do carteado e da quebrada
Sou do fogo e gargalhada… ê Mojubá!

Ô, luar, ô, luar… catiço reinando na segunda-feira
Ô, luar… dobra o surdo de terceira
Pra saudar os guardiões da favela
Eu sou da Lira e meu bloco é sentinela
Laroyê, laroyê, laroyê!
É poesia na escola e no sertão
A voz do povo, profeta das ruas
Tantas estamiras desse chão
laroyê, laroyê, laroyê!
As sete chaves vêm abrir meu caminhar
À meia-noite ou no sol do alvorecer... Pra confirmar:

Adakê Exu, Exu, ê, Odará!
Ê bará ô, Elegbará!
Lá na encruza, a esperança acendeu
Firmei o ponto, Grande Rio sou eu!

Adakê Exu, Exu, ê, Odará!
Ê bará ô, Elegbará!
Lá na encruza, onde a flor nasceu raiz
Eu levo fé nesse povo que diz

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