Da morte de congolês à mulher que envenenou os enteados, ano foi marcado por crimes brutais

Um sonho com o filho semanas antes do último dia 20, quando João Gabriel Cardim Guimarães completaria 17 anos, serviu de alento para a assistente jurídica Mariana Cardim. O momento em que a perna esquerda do único filho foi arremessada a cerca de 50 metros de distância ao ser atropelado por uma motocicleta a mais de 100Km/h nunca mais saiu de sua memória. O modelo e influencer Bruno Krupp confessou que pilotava a moto. Ele responde por homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de matar, e continua preso.

Casos bárbaros como a morte de João Gabriel chamaram a atenção pelo desprezo com a vida em 2022. Krupp, por exemplo, dirigia sem habilitação e acima da velocidade permitida na via, de 60 km/h. Ao menos outros quatro crimes se destacaram pelo mesmo motivo ou pela brutalidade ao longo do ano: uma mãe que tirou a vida de dois filhos a golpes de faca; o assassinato de um imigrante congolês; o homicídio de um homem negro confundido com um ladrão pelo vizinho; e a madrasta acusada de envenenar os enteados, provocando a morte de um deles (relembre as histórias abaixo).

Embora a primeira impressão seja de que atos tão cruéis seriam obras de psicopatas, a psiquiatra forense Katia Mecler, autora do livro “Psicopatas do Cotidiano”, explica que a maioria desses crimes não é cometida por pessoas com transtornos mentais:

— Os crimes bárbaros vêm de motivações como ódio extremo, ciúme, vingança, podendo estar ligados a inveja ou a questões financeiras. Isso pode levar pessoas que não têm doenças mentais graves a cometer barbáries. É claro que há casos de pessoas que não têm remorso, são frias e cruéis e têm prazer pela transgressão, que são alguns critérios para a psicopatia. Mas é bom frisar que a maioria dos doentes mentais não comete crimes.

Ao depor, o filho de Stephani Ferreira Peixoto, de 36 anos, afirmou que a mãe não teria matado seus dois irmãos — Arthur Moisés e Bruno Leonardo da Silva, de 3 e 6 anos, respectivamente — se o pai tivesse deixado ela ir sozinha ao mercado. A declaração foi dada quatro dias depois do crime, ocorrido em 10 de janeiro, na casa da família, em Guapimirim. O adolescente relatou aos agentes que a relação dos pais era “turbulenta, sem afeto e com muitas brigas e discussões”.

Stephani assassinou os dois filhos a golpes de faca na cama do casal, no Parque Fleixal, bairro pobre na cidade da Baixada Fluminense. Os laudos cadavéricos apontaram que cada criança foi ferida seis vezes no pescoço e tórax. O pai das vítimas, Carlos Leonardo da Silva, contou que, no dia do crime, a companheira ligou para dizer que havia matado os filhos e que estava tentando se suicidar, “mas não conseguia morrer”. Stephani foi encontrada ensanguentada, mas sobreviveu.

O filho adolescente descreveu a assassina como “mãe zelosa”, sempre presente nos momentos difíceis. Vizinhos também citaram o cuidado da mãe com as crianças. Ao falar de Stephani, no entanto, o jovem fez uma ressalva: “Quando ela fica nervosa, não pode ficar no caminho”.

A mulher permanece presa desde a tragédia e já fez exame de sanidade mental. Segundo o Instituto de Perícias Heitor Carrilho, ela sofreu, à época dos fatos, um “transtorno psicótico”, sendo, portanto, “incapaz de entender o caráter ilícito dos atos” cometidos. Em junho, o instituto recomendou a internação da ré.

A brutalidade dos agressores do congolês Moïse Kabagambe, de 25 anos, em 24 de janeiro, foi filmada por câmeras de segurança de um quiosque na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Foi possível flagrar a sequência de socos, chutes e pauladas praticada por três homens, que estão presos graças às imagens e às testemunhas que depuseram no inquérito da Polícia Civil.

A família do congolês ganhou da prefeitura a concessão de um quiosque, em Madureira, para tentar superar a dor com trabalho. No entanto, apesar de ser grata por manter o sustento dos parentes, a mãe da vítima, a comerciante Lotsove Lolo Lavy Ivone, diz que ainda convive diariamente com as lembranças do filho:

— Muita gente passa no quiosque para nos abraçar, nos consolar pela covardia que se passou com Moïse. Eles vão lá dar força para gente, mas eu me sinto feliz e triste ao mesmo tempo, porque tudo lembra ele.

Lotsove Lolo buscou refúgio no Brasil para escapar da guerra civil e de violações de direitos humanos de seu país de origem, a República Democrática do Congo. Para tristeza dela, o filho acabou sendo vítima de um crime estúpido, enquanto buscava valer seus direitos trabalhistas.

A motivação para o crime, de acordo com as investigações, foi o fato de Moïse ter cobrado dois dias de pagamento atrasado do patrão. Seu corpo foi achado amarrado em uma escada. São réus pela morte Fábio Pirineus da Silva, o Belo; Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, o Dezenove; e Brendon Alexander Luz da Silva, o Tota.

Luziane Ferreira Teófilo, esposa de Durval Teófilo Filho, de 38 anos, não tem dúvidas de que o marido foi assassinado a tiros por ser negro. A vítima foi morta pelo próprio vizinho, na porta de casa, no bairro Colubandê, em São Gonçalo, quando chegava à noite do trabalho, em 2 de fevereiro.

O sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra chegou a ser preso, mas acabou beneficiado por um habeas corpus. Ele contou à polícia que, ao ver Durval mexendo na bolsa, pensou que ele pegaria uma arma para assaltá-lo. O militar, que andava armado, atirou no vizinho sem titubear.

Segundo as investigações, a vítima mexeu na bolsa para pegar as chaves com as quais abriria o portão. A ação foi filmada pelas câmeras de segurança do próprio condomínio. Ao perceber o erro, Aurélio tentou socorrê-lo, mas Durval já estava morto.

A viúva o define como uma pessoa alegre e brincalhona. O imóvel no condomínio vinha sendo pago com muito sacrifício e horas extras de Durval, que trabalhava na filial de uma rede de supermercados. Quando chegava em casa, relembra Luziane, o marido, sem falta, sempre colocava a filha, então com 6 anos, para dormir.

— Não tem essa desculpa de legítima defesa. Ele matou o meu marido porque ele era preto — garante Luziane.

Cíntia Mariano Dias Cabral é acusada de envenenar os enteados de 22 e 16 anos, colocando chumbinho no feijão. A filha mais velha do ex-marido de Cíntia, Fernanda Carvalho Cabral, morreu em 27 de março, após sentir fortes dores no estômago, sem que se desconfiasse de crime. Dois meses depois, no entanto, a suspeita veio à tona quando o outro enteado também passou mal, com os mesmos sintomas da irmã.

O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) constatou em análise do material gástrico do rapaz que havia “quatro grânulos esféricos diminutos, de tamanhos variados”. O documento informa então a possível “ingestão de um produto comercializado clandestinamente como raticida, popularmente conhecido como chumbinho”.

Os filhos da madrasta, em depoimento, reforçaram a suspeita. A filha dela contou que Cíntia “ficou rindo” enquanto enchia o prato do jovem de feijão. Já o filho da madrasta disse que a mãe admitiu o uso de chumbinho na comida dos enteados.

— Meu filho se fechou depois do que aconteceu com a irmã. Ele passou de ano, tirou notas boas, mas tem ficado mais calado. Essa época de festas acaba com a gente. Fernanda tinha muita alegria de viver — lembra Jane Carvalho Cabral, mãe das vítimas.

A assistente jurídica Mariana Cardim, mãe de João Gabriel Cardim Guimarães, sempre foi grudada com o filho. Um dos hobbies da dupla era maratonar séries e comer pipoca. Desde a morte do adolescente em um estúpido atropelamento, em julho, na Barra da Tijuca, a mulher não teve mais coragem de voltar para a casa onde moravam e decidiu viver com parentes. Ainda assim, ela diz não ter ódio do modelo e influencer Bruno Krupp, que, mesmo sem habilitação, guiava a moto a mais de 100km/h.

— Não tenho rancor. Deixo a critério de Deus e da Justiça. Não vou vibrar pelo mal dele. Eu desejo que as pessoas tenham mais consciência no trânsito e se coloquem no lugar dos outros. A minha dor é imensa. Não terei mais o abraço, o beijo, o sorriso do meu filho — diz, emocionada.

Mariana, porém, deixa clara a necessidade de punições mais duras para quem não respeita as leis de trânsito, sem se importar com a vida dos outros. Ela conta que o filho sempre se preocupava com as pessoas, sendo capaz de dar o lanche que levava para o colégio aos amigos ou pessoas em situação de rua.

— O jovem que criei era puro amor. Sonhei esses dias com ele e me acalmei mais. Ele veio em minha direção e disse: “Tudo bem, só vim te dar um beijo”. E se afastou sorridente — conta Mariana.