Da Tijuca para o mundo: a importância do bairro na formação musical de Erasmo Carlos

Um dos grandes nomes do rock e da MPB, Erasmo Carlos era também um orgulho carioca - mais especificamente, da Grande Tijuca. Foi na região que o cantor, morto aos 81 anos nesta terça-feira (22), passou a infância, adolescência e juventude e deu seus primeiros passos na música, inclusive na amizade com o também tijucano Tim Maia, Jorge Ben Jor (então morador do vizinho Rio Comprido) e Roberto Carlos, capixaba de Cacheiro de Itapemirim que, ao chegar no Rio, nos anos 1950, foi morar em Lins de Vasconcelos, também na Zona Norte.

A biografia de Tim Maia (escrita por Nelson Motta) e o livro de memórias do Tremendão destacam bem o período entre os anos 1950 e 1960 que antecedeu a revolução da Jovem Guarda, e mudaria toda a história da música brasileira no século XX. Posteriormente, as adaptações dos livros também frisaram a importância da Zona Norte no surgimento desta geração de artistas, como os longas "Minha fama de mau" (2019), "Tim Maia" (2014) e a série "Vale tudo com Tim Maia", em cartaz no Globoplay.

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Erasmo nasceu em 5 de junho de 1941 e passou seus primeiros anos na Rua do Matoso, nos números 113 e 102. Em meados dos anos 1950, ele se muda com a família para um quarto alugado em um casarão no número 108 da rua Professor Gabizo. Sua primeira comunhão foi feita na Igreja de São Francisco Xavier e os primeiros trocados foram conquistados com a venda de revistas usadas em uma banquinha da Rua do Matoso.

As primeiras letras foram aprendidas no Instituto Lafayette, que na época tinha sede na Rua Haddock Lobo — anos mais tarde, a escola seria imortalizada na letra de "Turma da Tijuca": "Eu era aluno do Instituto Lafayette/ naquele tempo eu já pintava o sete/ trocava as letras dos anúncios do cinema/ transformando um belo filme num sonoro palavrão".

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A amizade com Tim Maia começou no futebol na rua e nas entregas de marmitas que o futuro autor de "Azul da cor do mar" fazia na região, para a pensão de seus pais. Uma amizade que começou com seus momentos de rivalidade, seja quando Erasmo chamava Tim de "Tião Marmiteiro", apelido que o garoto odiava, ou quando Tim comia as carnes das marmitas da família de Erasmo, antes de entregá-las.

Foi Tim que ensinou a Erasmo os acordes básicos para se tocar rock no violão, essenciais nos futuros encontros no antigo Bar Divino, local eternizado na música "Haddock Lobo, esquina com Matoso" que Tim lançou em 1982, no álbum "Nuvens". Ali também batia ponto Jorge Ben (anos antes de anexar o Jor ao nome artístico) que, curiosamente, tinha o mesmo apelido de Tim: Babulina.

No Divino se encontravam também os integrantes dos Sputiniks, que incluíam Tim e Roberto. Quando foi tentar a vida nos EUA, Tim continuou se correspondendo com Erasmo no Brasil, e posteriormente foi a quem recorreu, junto com Roberto, ao voltar ao país, quando já eram ídolos da música jovem. Pré-Jovem Guarda, a primeira formação do Tremendão foi com os Snakes, dissidência dos Sputiniks, ao lado de Arlênio Lívio, Edson Trindade e José Roberto, o China.

Após Roberto Carlos deixar os Sputiniks, Tim ficou "órfão de vocalistas", nas palavras de Erasmo em sua autobiografia, e convidou os Snakes para ensaiarem com ele no porão da pensão de seus pais, seu Alvito e dona Maria Imaculada, um casarão na Rua Barão de Itapagipe (na divisa entre Tijuca e Rio Comprido). Dali, a "turma do Divino" passou a ser convidada para participar do Clube do Rock, programa produzido por Carlos Imperial para a TV Tupi, recebeu os primeiros contratos para gravação de discos, e a partir daí a música brasileira jamais seria a mesma.