Da visita de Einstein, até a criação da MPB, plataforma digital resgata histórias da Cidade Nova

RIO — Quem imaginaria que o gênio da física Albert Einstein esteve na Praça Onze, em visita ao Brasil, no início dos anos 1920? Pois esteve. A pedido do rabino Isaias Rafalovitsch, o físico se reuniu com membros de uma comunidade israelita em 1925, segundo registros históricos da região. O episódio é apenas um dos que foram documentados pelo projeto Território Inventivo, uma plataforma digital de memória que busca catalogar eventos e personagens históricos da Cidade Nova e adjacências, desde 1811, data de criação do bairro, até 2021.

Além de Einstein, a Praça Onze também atraiu celebridades como o cineasta Orson Welles, de “Cidadão Kane”. Em fevereiro de 1942, Welles chegou às pressas no Rio a tempo de filmar o carnaval da região da Praça Onze. As participações brasileiras incluem Grande Otelo e Emilinha Borba. A obra, no entanto, jamais foi lançada. Um dos motivos era racial: pessoas próximas ao governo brasileiro e integrantes da própria companhia cinematográfica que produzia o filme se decepcionaram com a presença de muitos negros logo nas primeiras cenas.

Epicentro intelectual e cultural do país entre os séculos XIX e XX, a Cidade Nova conectava outros bairros da cidade, então capital do Brasil. Abrigava escritores, pensadores, poetas e é berço da imprensa do país. Era ponto de encontro, por exemplo, do chorinho: o pai de Pixinguinha tinha uma pensão frequentada por ninguém menos que Heitor Villa-Lobos. Há registros também da casa onde morava uma das matriarcas do samba, a Tia Ciata.

Desenvolvido por uma equipe de pesquisadores do Circo Crescer e Viver e com a participação de jovens moradores do bairro, a plataforma será lançada oficialmente no mês de junho.

— A Cidade Nova não é mais o terreno do encontro que produziu expressões que marcam a identidade cultural do Brasil. A gente quer tentar, enquanto circo, ser o espaço para produzir esse reencontro, inaugurar um novo ciclo inventivo e fazer com que as pessoas percebam que estão em um lugar que fundou a identidade cultural carioca e brasileira — disse Junior Perim, diretor-presidente do Crescer e Viver.

Circos que viajavam pelo Brasil traziam expressões de vários lugares (embolada, coco, repente) e aportavam no bairro, o que proporcionou intensa criação artística carioca. Miguel Jost, coordenador da pesquisa de conteúdo da plataforma, explica como esse território contribuiu para a construção da identidade cultural brasileira.

— Havia uma presença muito forte de camadas populares que construíram expressões da cultura popular, como o circo, o teatro e a própria música brasileira, a partir do samba moderno que surgiu ali. Mulheres e homens que tinham sido escravizados fundaram um repertório cultural muito produtivo e relevante. Uma parcela de imigrantes europeus, sua maioria oriundos da tradição judaica e cigana, também atuou de forma importante. Até biblioteca em iídiche (língua das comunidades judaicas) tinha na região — conta o pesquisador.

O projeto foi inspirado, entre outras bibliografias, no livro “Cidade porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro”, escrito por Bruno Carvalho, professor em Harvard.

— Não tem destino melhor para um livro sobre o passado do que os seus usos no presente para animar futuros possíveis. Aconteceram coisas da Cidade Nova que são quase inimagináveis. Boa parte do melhor do Brasil surgiu dos encontros e das encruzilhadas que aconteceram ali. Através do passado, a gente pode criar futuros, projetos e possibilidades. Podemos imaginar as coisas sendo diferentes do que são. A gente está precisando inventar novos futuros.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos