Dados do 1º turno indicam que Covas foi mais afetado por aumento da abstenção

CAROLINA MORAES E LEONARDO DIEGUES
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 15.11.2020 - O prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB). (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 15.11.2020 - O prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB). (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Candidato à reeleição em São Paulo, Bruno Covas (PSDB) parece ter sido especialmente prejudicado pelo aumento da abstenção nas eleições deste ano: as ausências cresceram mais nos bairros pobres, justamente o eleitorado no qual ele tinha mais vantagem, segundo as pesquisas de opinião anteriores ao pleito.

Se repetida a alta abstenção no segundo turno, especialmente nessas áreas, Covas pode ter essa dificuldade adicional na disputa contra Guilherme Boulos (PSOL).

Para fazer essa análise, a reportagem comparou a variação da abstenção nas zonas eleitorais entre as eleições municipais de 2016 e 2020.

As áreas que tiveram os maiores aumentos nas abstenções foram Vila Formosa (42,2%), Cidade Tiradentes (42%), Perus (40,8%), Guaianazes (40,6%), Vila Jacuí (40%) e Brasilândia (39%), todas em regiões periféricas da capital paulista.

Essas áreas também são as com os menores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade. Guaianazes e Cidade Tiradente, por exemplo, ficam na subprefeitura de Guaianazes, com o menor IDH do município (0,713). O índice considera aspectos de longevidade, educação e renda.

A pesquisa Datafolha publicada na véspera da eleição mostrou que o candidato do PSDB iria melhor entre os que têm apenas até ensino fundamental completo (44% deles, nos votos válidos). Já em relação à renda, 38% dos que ganham somente até dois salários mínimos apontavam que votariam em Covas.

Essas faixas, que representam o eleitorado de mais baixa renda, eram as que Covas mais se distanciava dos adversários, segundo essa pesquisa anterior ao pleito.

Na votação, porém, o tucano acabou melhor nas regiões mais ricas. Ou seja, os dados indicam que pessoas de baixa renda que pretendiam votar nele podem não ter ido ao pleito.

"Mais do que uma questão geográfica, o aumento da abstenção se dá em segmentos que mais foram prejudicados durante esse período [de pandemia]. Você tem pessoas de menor renda por toda a cidade, e elas se concentram mais na periferia", diz Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do Datafolha.

Na diferença de gênero, o candidato tucano também tinha uma ligeira vantagem entre as mulheres --40% indicavam voto ao tucano, enquanto, entre os homens, o índice era de 34%. Janoni lembra que as mulheres também são um dos segmentos mais afetados pela pandemia.

"A composição desse mosaico de classificação socioeconômica que determina ter menos votos do que as pesquisas de intenção de voto captaram, o que acende um alerta para o segundo turno", diz Janoni. "A pandemia aprofundou desigualdades e atingiu principalmente esses segmentos da população."

O mesmo levantamento do Datafolha feito na véspera das eleições indicava que Covas tinha 37% dos válidos na disputa, e Boulos, 17%. A apuração das urnas no primeiro turno fechou com 32,85% dos votos para Covas e 20,24% para Boulos.

Janoni lembra que o caso de Boulos é justamente o oposto: ele vai melhor na zona oeste da cidade e com as parcelas mais escolarizadas e ricas da população, onde a abstenção cresceu menos.

O maior percentual obtido pelo psolista, inclusive, foi em Pinheiros (com 31,8% dos votos), um dos bairros com a menor variação de abstenção (30,8%) e que possui alto IDH (0,942).

De todas as regiões da cidade, as 20% com maior IDH-M apresentam média de 37,5% de votos em Bruno Covas, e aumento médio de 31% nas abstenções. Já as 20% piores regiões nesse mesmo índice têm média de 29% de votos no candidato tucano, e um aumento médio de 37% de ausência nas urnas.

Essas zonas eleitorais que registraram as maiores variações na abstenção também têm números importantes de pessoas aptas a votar, o que dá ainda mais peso para essa ausência nas urnas.

Brasilândia, por exemplo, tem 239.785 aptos a votar, o quarto maior da cidade. É o caso também de Perus, décima zona com maior eleitorado, com 187.793.

"Isso tem impacto principalmente porque é uma densidade demográfica, uma concentração de população com o mesmo perfil importante na composição do eleitorado da capital", afirma Janoni.

O diretor de pesquisas do Datafolha também explica que uma variável para o segundo turno é a redistribuição dos outros perfis de candidatos do primeiro turno. Não necessariamente um eleitor mais escolarizado que votou em Márcio França migrará para o Boulos nesse segundo turno, exemplifica Janoni.

"Vai ter um reequilíbrio de forças, mas é óbvio que o candidato que atrair mais esse segmento de baixa escolaridade e renda vai ter que ter um pouco mais, uma sobra, uma gordura."