Dados apontam atuação mais violenta da polícia em Niterói e Maricá

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NITERÓI — A redução dos índices de criminalidade considerados estratégicos registrada no mês de outubro foi comemorada pelas autoridades. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que na área do 12ºBPM, que inclui Niterói e Maricá, o número de roubos de rua caiu 9,4%; e o de veículos, 2,1% nos dez primeiros meses do ano. No entanto, a polícia tem se mostrado mais violenta na região: o total de mortes por intervenção de agentes do estado cresceu 26,5% no mesmo período.

O crescimento de mortes em tiroteios com agentes de segurança em Niterói e Maricá é maior que no estado, onde o aumento foi de 12,5%: foram 1.215 casos de janeiro a outubro, enquanto no ano passado ocorreram 1.080 no mesmo período. Na região do 12ºBPM, houve 49 mortes nos dez primeiros meses de 2020 e 62 este ano.

Um caso ainda fora dos registros divulgados pelo ISP aconteceu no último dia 24 e comoveu moradores do Ingá. O entregador Elias de Lima Oliveira, de 24 anos, morreu após ser baleado num confronto envolvendo policiais militares do 12º BPM durante uma ação no Morro do Palácio. De acordo com moradores, ele trabalhava em um hortifrúti da região. Também atuava como motorista de aplicativo e não tinha envolvimento com o tráfico de drogas.

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Presidente da Comissão Permanente de Direitos Humanos, da Criança e do Adolescente da Câmara de Niterói, a vereadora Benny Briolly vê com preocupação o crescimento dos casos de mortes por intervenção de agentes do estado na região.

— É revoltante demais assistir a esse cenário em nossa cidade. Mas a violência policial, sobretudo contra pessoas negras e faveladas, não é novidade por aqui. Foi em Niterói que dois adolescentes morreram assassinados nos primeiros dias de janeiro de 2021. Também foi em nosso município que uma criança de 5 anos morreu assassinada por um agente da Polícia Militar. Isso é muito grave. De acordo com a (plataforma) Fogo Cruzado, somos a região mais atingida pela letalidade policial do estado — diz.

Para o antropólogo Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o maior enfrentamento da polícia impacta na redução de crimes como roubos.

— Não há como não relacionar o aumento de mortes em intervenção de agentes do estado com a redução dos indicadores de criminalidade, principalmente os delitos cometidos com emprego de violência. Tenho acompanhado os dados, e fica evidente que há uma relação, mesmo porque não existem políticas de prevenção do crime com efeito de médio e longo prazos. Precisamos compreender que o combate não é solução para o problema de segurança pública. Contudo, diante da inexistência dessas políticas preventivas, o remédio continua o mesmo, ações de curto prazo; ou seja, enfrentamento policial que sempre atua na consequência — justifica.

O comando da Secretaria de Estado de Polícia Militar diz que seu principal objetivo é uma atuação segura para a população e a “impreterível preservação de vidas”. Em nota, defende que os dados do ISP de todo o estado apontam que os resultados dessa estratégia são visíveis: “De acordo com as últimas reuniões de dados, os roubos de rua tiveram queda de 17% em outubro de 2021 na comparação com 2020. No acumulado do ano, a redução foi de 7%. O valor é o menor para o mês e para o período desde 2012. Já com relação aos crimes contra a vida, o estado do Rio teve o menor número de homicídios dolosos para o mês de outubro e para o ano desde o início da série histórica, em 1991. A queda de janeiro a outubro foi de 5% na comparação com 2020”, argumenta. A Polícia Militar diz ainda que este ano no estado apreendeu cerca de seis mil armas de fogo, sendo mais de 270 fuzis; prendeu 29.656 criminosos; e apreendeu 3.607 adolescentes infratores.

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