Por que Damares ataca um filme sobre direito a ser criança?

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Cena do filme "Lindinhas", da Netflix. Foto: Reprodução
Cena do filme "Lindinhas", da Netflix. Foto: Reprodução

Damares Alves está brava.

Muito brava.

Foi o que escreveu em suas redes ao criticar uma produção abominável que supostamente erotizava e normalizava a pedofilia.

Quem lia a ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos poderia pensar que ela se referia ao vídeo em que uma youtuber mirim diz que começou cedo a trabalhar e ouve de um tiozão, em rede nacional, uma pergunta com outra insinuação: “começou cedo o quê? Ahahahah”.

Ou de outro tiozão, amigo da família, que outro dia mesmo botou um júri pra dar notas a crianças de biquínis no palco onde costuma distribuir ofensas e aviões em dinheiro, não nesta ordem.

Mas não. Damares se referia ao cartaz de “Lindinhas” (Cuties, em inglês), filme francês disponível na Netflix em que pré-adolescentes aprendem a dançar com roupas de adultos. Foi o gancho para mandar um recado “aos pedófilos que por anos têm vindo ao Brasil abusar de nossas crianças” e avisar que agora existe aqui “um governo que se importa de verdade em proteger as crianças e as famílias”.

Faltou dizer sob este governo uma criança precisou acessar um hospital público no porta-malas para encerrar anos de sofrimento e violência sexual para não ser agredida por fanáticos de plantão.

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Curioso, fiz o que os seguidores de Damares aparentemente não fizeram. Assisti ao filme, que pouco antes havia provocado celeuma em grupos conservadores americanos de quem já não copiamos só as roupas.

Não sei se a ministra viu o mesmo filme que eu.

O que eu vi foi um testemunho em defesa do direito à infância, ameaçado justamente pela adultização de garotas como a personagem Amy, uma jovem franco-senegalesa que desde cedo precisa trabalhar, cuidar da casa e dos irmãos.

Em uma das cenas, uma espécie de liderança religiosa diz às mulheres do conjunto habitacional onde mora que cabe a elas obediência aos maridos para não irem ao inferno. O modelo de Amy é a mãe sobrecarregada que precisa trabalhar e cuidar da festa do casamento do marido que acaba de arranjar uma segunda esposa. Naquela tradição, não há outro caminho se não aceitar a decisão do patriarca, referendada pela crença de que aquela era a vontade divina.

Escondida, Amy percebe o sofrimento da mãe e sofre com ela, buscando refúgio em uma espécie de delírio: o de que a passagem direta para a vida adulta garantiria a ela também os benefícios da vida adulta. Por exemplo, o prestígio e a autoestima das divas pop que quer imitar.

Não é outra coisa o que faz Dorothy ao descobrir a perversidade do mundo adulto em O Mágico de Oz. Se a Cidade Esmeralda é o abrigo na fantasia num caso, no outro a estrada de tijolos amarelos leva à fama e ao sucesso.

Só que este sucesso é também uma fantasia. Quem viu o filme notou que se trata da história de um descompasso. Amy e suas amigas -- uma delas uma imigrante latina que conhece lavando roupas para a vizinhança -- não são adultas e não cabem em qualquer daqueles figurinos, seja o da dona-de-casa, seja o da futura esposa que a família começa a preparar, seja a da diva pop.

A nova mulher do pai, que passa a rondar sua casa como fantasma, é praticamente ela no futuro. Um futuro próximo, diga-se. Quando menstrua pela primeira vez, Amy ouve da tia-avó hiper-religiosa: “agora você é uma mulher, comigo foi assim, com a diferença de que era mais alta e já estava casada”.

Entre o martírio daquelas mulheres e a liberdade projetada no YouTube, por onde vê e aprende as danças introjetadas nas casas das melhores famílias -- alguém se lembra da Banheira do Gugu? Da boquinha da garrafa? -- ela opta pelo caminho onde pensa estar mais protegida da mutilação.

Só que este caminho está repleto de armadilhas. Sofrimento. Exposição. Longe, portanto, da romantização.

A classificação indicativa mostra que o filme é para maiores de 16 anos. Caberia aos responsáveis pela ação de marketing saber o campo sensível onde pisamos e estamos expostos no Brasil de Bolsonaro. Um cartaz, que por si não é capaz de trazer a sofisticação do argumento de todo o filme, pode ser a brecha para todo tipo de golpe baixo quando estamos criando a base de nossa própria teocracia.

Damares tem um papel nesta guerra cultural. Fala sobre pedofilia ao atacar um filme que não trata de pedofilia. Se ela viu ali algum estímulo ao crime, a perversão muda de foco. Está nos olhos de quem vê, mais ou menos como quem justifica a violência em razão da roupa alheia.

Vistam as roupas que vestirem, as crianças do filme e da vida real só estarão protegidas se na mesma cena ou relação público-produção estiver ausente o o adulto criminoso, e não o vestuário inadequado.

No filme, as pré-adolescentes são ridiculizadas o tempo todo por quererem se vestir como adultas, mas nunca quando assumem precocemente as tarefas dos adultos que deixam com elas as responsabilidades da casa enquanto se ausentam para poder trabalhar. Curioso que isso não escandaliza.

“Lindinhas” é justamente uma denúncia do desajuste daqueles corpos. A certo momento, uma das amigas brinca com uma camisinha no parque sem ter ideia do que é uma camisinha.

Em outro, o espectador é levado a acreditar que o caminho natural para aquelas garotas é a prostituição. Mas este espectador é ludibriando o tempo todo como se a sentença condenatória estivesse apenas em sua cabeça, que nossas avós costumavam chamar de “mente poluída”.

Sintoma, talvez, de uma sociedade que quer amadurecer e amadurecer suas crianças na marra sem conversar sobre isso. O filme faz o que os adultos se negam. O filme dialoga.

É verdade que, enquanto amadurecem, ou pensam amadurecer, as meninas se descobrem e compartilham entre elas desejos e interesses, quase todos em relação aos meninos da escola, mais ou menos na mesma sua idade e contexto, como todo pré-adolescente tentando entender o que se passa naquela fase de transição.

Se existe acinte ali ele está na ideia pré-concebida, esta sim idealizada, de que infância e adolescência são espaços de pureza, e não conflitos, brigas, trapaças, transgressões. Contradições, enfim.

Na França multicultural que a diretora Maïmouna Doucouré retrata após ver nas ruas meninas cada vez mais jovens imitando as estrelas hiper-sensualizadas da cena pop, o desamparo encontra-se numa bifurcação de todo tipo de violência que, ao longo da história, se insinua e não se confirma.

Há meio-termo?

Há. Muitos meio-termos. Como o próprio filme demonstra. Mas para isso é preciso assistir até o fim.

Talvez seja pedir demais para quem assimila e reproduz estímulos como se o mundo fosse um esquete dos Telletubies, com azul para meninos, rosa para meninas, e vermelho para pessoas malvadas.

Melhor ficar com Telletubies. Ou sair na foto com modelos familiares mais confiáveis, como o da fervorosa deputada Flordelis, aliada acusada de participar de um plano para matar o marido com a ajuda dos filhos adotivos.

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